Descrição de chapéu Zona Leste

Homem morre em incêndio que destruiu favela na Mooca

Vários barracos foram consumidos um dia antes da desocupação no local; moradores relatam ação violenta

Marcela Marcos
São Paulo

O incêndio que consumiu a favela do Cimento, na Mooca (zona leste), na noite de sábado (23), deixou ao menos um homem morto. O local estava com a reintegração de posse marcada para a manhã desse domingo (24).

A vítima, um homem que não havia sido identificado até a noite de ontem, foi levada pelos moradores da favela ao hospital Salvalus, que fica ao lado da comunidade.

Um incêndio na noite deste sábado (23) tomou barracos na avenida Radial Leste, na região do Belenzinho (zona leste de SP). O fogo no local conhecido como favela do Cimento começou por volta das 19h30, na véspera de reintegração de posse marcada para este domingo (24). Moradores do local haviam dito que resistiriam. - Danilo Verpa/Folhapress

O reciclador Rafael Augusto dos Santos, 35 anos, que morava na favela havia cinco, diz ter sido uma das pessoas que ajudaram no socorro. “Ele veio de um barraco, com o corpo todo queimado, em carne viva”, conta.

De acordo com o hospital, o paciente deu entrada às 20h31, com queimaduras, e foi imediatamente levado à UTI em estado grave, mas morreu na tarde de ontem.

Moradores da favela reclamam da abordagem truculenta de agentes da GCM e de policiais militares momentos antes do início do incêndio.

Um incêndio na noite deste sábado (23) tomou barracos na avenida Radial Leste, na região do Belenzinho - Danilo Verpa/Folhapress

Uma diarista de 35 anos que morava com os três filhos pequenos e o marido na comunidade disse que, por volta das 17h30, os GCMs que estavam no local desde às 8h, mandaram que eles saíssem dos barracos. “Não teve conversa. Meu filho estava dormindo na hora e teve que sair.”

Segundo os moradores, PMs lançaram bombas de efeito moral e dispararam balas de borracha para que eles saíssem da rua. Um deles mostrou ao Agora uma dessas balas.

Abrigado em um galpão na Mooca, um autônomo que morava na favela nos disse que havia assinado um acordo na Justiça que lhe garantia a transferência para uma unidade do CDHU no dia 24— o que não aconteceu — e que os brinquedos e materiais escolares dos filhos foram consumidos pelas chamas. “Estão dizendo que fomos nós que colocamos fogo, mas como é que a gente ia fazer isso com as próprias coisas?”

O fogo no local conhecido como favela do Cimento começou por volta das 19h30, na véspera de reintegração de posse marcada para este domingo (24). Moradores do local haviam dito que resistiriam. - Danilo Verpa/Folhapress

Um assistente social que não quis ser identificado afirma que recebeu a orientação de acordar os moradores durante a noite, dias antes da reintegração, para convencê-los a ir para um albergue. “Falei que não ia ficar atiçando a raiva de ninguém”, diz.

O Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), repudiou o que chamou de “atos de violência praticados contra moradores da Comunidade do Cimento e a omissão dos poderes públicos para a promoção dos direitos humanos”.

Prefeitura lamenta morte e PM nega violência

A Prefeitura de São Paulo lamenta a morte da vítima, diz que o suspeito de ter provocado o incêndio foi preso na madrugada de ontem e também afirma que o fogo começou logo depois que equipes da Assistência Social deixaram a favela. “

Em seguida [depois do incêndio] retornaram, mas havia poucas pessoas no local, que foram encaminhadas para os equipamentos de acolhimento”, diz o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, José Castro.

Ainda de acordo com a prefeitura, o acidente não interferiu no cumprimento da ação, que identificou 215 ocupantes da comunidade (entre os quais 66 crianças). O município também diz ter encaminhado 42 famílias para centros de acolhimento e três para rodoviárias.

Já a Secretaria da Segurança Pública diz não houve registro de confronto da PM — acionada às 19h do sábado — e nega que a ação tenha sido conduzida com bomba e bala de borracha.

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