Produção de novas vacinas passa por pesquisas e testes

Imunização estimula o sistema de defesa do corpo e exige tempo e investimento para ser feita

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São Paulo

A vacinação é um método eficaz de prevenção para diversas doenças. Diante da pandemia do novo coronavírus, a expectativa por uma vacina é grande. No entanto, para que ela fique pronta é necessário que haja estudos, testes e investimentos.

A infectologista Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que a vacina é uma substância feita para estimular a defesa do organismo contra uma doença. Assim, se a pessoa imunizada entrar em contato com o causador da doença, o seu corpo já saberá como combater aquela infecção. Produzindo anticorpos, por exemplo.

A professora afirma que a vacina pode ser feita a partir de microrganismos (como vírus e bactérias) ou toxinas. Além da composição, a dosagem e o meio de administração (como oral ou injetável) também precisam ser eficientes para estimular a resposta imunológica. “É preciso conhecer muito bem a estrutura do microrganismo e ver qual tipo de resposta imune ele produz. Isso nem sempre é uma tarefa fácil”, diz.

Após o estudo, é preciso testar. Primeiro isso é feito em animais. Caso tudo ocorra adequadamente, os testes são feitos em humanos. Eles são divididos em três fases para garantir a segurança e eficácia da proteção.

“Fazer vacina no laboratório e testar em animais é relativamente rápido. O que demora são os estudos em pessoas”, complementa Cristina Bonorino, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e membro do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia. Ela explica que após o sucesso nos testes, a vacina é produzida em massa e distribuída para ser aplicada.

Testes

O Brasil é um dos escolhidos para receber testes de duas vacinas, que estão na terceira fase de estudos clínicos (com humanos). “Com a pandemia, as pessoas estão dando conta de que a vacina é prioridade”, diz a professora Cristina Bonorino.

A especialista explica que, para saber se a vacina é eficiente para proteger um grande número de pessoas, este teste deve ser feito em local onde há muitos vírus circulando. Na sexta-feira (19), o país ultrapassou a marca de 1 milhão de casos, segundo o consórcio entre Folha, O Estado de S. Paulo, Extra, O Globo, G1 e UOL. O levantamento é feito com a coleta de dados das Secretarias de Saúde dos estados.

A professora lembra que a variedade de estudos sobre vacinas em andamento são importantes porque cada um pode resultar em um tipo de defesa do organismo. “A melhor vacina é a que consegue criar a melhor resposta imunológica. Como o vírus é novo, ainda não se sabe qual será”, explica a especialista.

A infectologista Raquel Stucchi ressalta que, apesar de não ter uma vacina contra o novo coronavírus, até o momento, é possível se prevenir contra outras doenças, como sarampo ou gripe. A campanha de vacinação contra a gripe para grupos prioritários foi prorrogada até o próximo dia 30 em todo o estado de São Paulo.

No Brasil

O governo de São Paulo, gestão João Doria (PSDB) anunciou na semana passada uma parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac Biotech para testar em 9.000 pessoas e produzir uma vacina contra o novo coronavírus. A estimativa é que ela esteja disponível até junho de 2021, se for aprovada nos testes. Atualmente, a vacina do laboratório se encontra na fase três. Em nota divulgada em seu site, a Sinovac afirma que a vacina foi eficiente na proteção de macacos rhesus. (Com Folha)

Vacina | Como ela é feita?

O QUE É

  • A vacina é uma substância feita para estimular uma resposta do organismo para se proteger contra a doença. Elas combatem doenças causadas por vírus, bactérias ou toxinas. O objetivo é fazer com que o organismo produza uma forma de defesa contra aquela doença, como anticorpos. Assim, a pessoa vacinada não fica doente quando entra em contato com o causador da doença.

COMO É FEITA
Vacinas podem ser feitas a partir das seguintes formas:

  • Com o micro-organismo enfraquecido
  • Com o micro-organismo inativo
  • Com um componente do micro-organismo
  • Às vezes, uma só vacina tem componentes de várias doenças

Quais são as etapas?
1- Pesquisa
Os cientistas precisam entender como o micro-organismo e a doença funcionam. Depois, a melhor forma para compor a vacina é estudada, ou seja, aquela que será segura e eficaz para proteger a pessoa. A dosagem e a forma com que a vacina vai ser administrada (oral ou injetável, por exemplo) também são pontos importantes, isso é testado para encontrar o meio mais eficaz

2- Testes
Após encontrar a composição, é necessário realizar testes. Primeiro, isso é feito em animais. Após este estudo, ela é testada em humanos em três fases:

  • Fase 1 - A vacina é aplicada em um grupo pequeno de pessoas. Por um período é observado se ela causa algum tipo de reação ou efeito colateral
  • Fase 2 - Comprovada a segurança, o teste é feito em algumas centenas de pessoas. Aqui, o objetivo é saber se, além de segura, qual é a sua forma mais eficaz (seja de administração ou dosagem) para gerar a proteção necessária
  • Fase 3 - O teste é feito em um grande número de pessoas com várias características diferentes, como peso e idade. Essa fase acontece onde há certeza que o causador da doença está circulando. É por isso que o Brasil foi um dos escolhidos para receber a terceira fase de testes de vacinas contra a Covid-19. O país tem uma grande quantidade de casos da doença, que continua crescendo

3- Produção em massa
Após comprovada a segurança e a eficácia, a vacina precisa ser produzida e distribuída. Dependendo do cenário e da quantidade disponível, cada local define a sua estratégia de vacinação. Ela pode ser incorporada em um programa público para todos ou ser direcionada a grupos prioritários. A produção e distribuição de vacinas custa muito caro. O dinheiro pode vir de fundos, empresas ou governos

Após a comercialização, ainda pode haver adequações na vacina, seja alterando a bula ou observando a necessidade de reforçar doses após um tempo

POR QUE NÃO HÁ VACINAS PARA TODAS AS DOENÇAS?

  • Não há uma fórmula mágica que sirva para tudo. Há casos mais difíceis para descobrir como combater. O vírus causador da Aids, por exemplo, ataca justo o sistema imunológico do corpo (área ativada pela vacina para gerar proteção).
  • Em outros casos, falta investimento para criar e produzir a vacina. Isso depende de decisões políticas e econômicas. Doenças que não afetam grande parte do planeta ou ficam restritas a territórios de terceiro mundo são negligenciadas. Doenças com alta transmissão e que atingem o mundo todo são priorizadas

TENHA A SUA VACINAÇÃO EM DIA

  • Se vacinar é uma forma de se proteger e a quem está ao redor. Quando uma grande quantidade de pessoas está vacinada, a transmissão do vírus ou patógeno é bloqueada. Assim, as pessoas mais sensíveis também são protegidas. Isso é chamado de “imunidade de rebanho”

Atenção: a “imunidade de rebanho” é um cálculo matemático, ela não existe naturalmente. Quando muitas pessoas não se vacinam, a cobertura fica baixa e doenças que estavam controladas voltam a contaminar e matar, como o sarampo

FONTES: Cristina Bonorino, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e membro do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia; Raquel Stucchi, infectologista e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

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