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Caneladas do Vitão: Vitor Maurício, João Pedro e meritocracia à brasileira

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São Paulo

Vitor Maurício, 43 anos, jamais perdoou os pais Maria Dolores, 68, e Viriato Olímpio, 69, pelo nome. O rancor não o impediu de sobreviver ao trauma de ver o nome duplo etiquetado nos livros encapados pela mãe. Nunca precisou parar de estudar em bons colégios para ajudar a colocar carne de primeira em casa e foi aprovado em conceituada universidade (paga) de jornalismo. Quando casou era repórter no Grupo Folha e, quando o filho nasceu, já assinava uma coluna de futebol, paixão de infância!

Vitor Maurício sempre foi louco pelo Corinthians. Forma de imitar o pai, que o levava aos treinos. E até mexia no trabalho para torcer. A mãe são-paulina ficava mais com a irmã e, depois, com o irmão caçula, limpava, passava os uniformes e repetia o mantra “vai com Deus e faz um gol pra mim”. Como não existia celular, ele ligava do orelhão para ouvir o parabéns materno. Não aguentava esperar o pai tomar meia dúzia de saideiras com três dedos de colarinho até voltar para o sobrado.

Confinado há 69 dias com mulher e filho no apartamento, com geladeira abastecida de ponkan, salame, sardela, azeitonas pretas e 818 tipos de pimenta, despensa abastecida com café e Stiksy, TV paga na sala, na suíte do casal e no quarto do filho, wi-fi (ruim e caro) e Netflix, Vitor Maurício, que perdeu parte da renda como consequência da paralisação econômica gerada pela pandemia, trabalha em uma de suas oito cadeiras da mesa de jantar. E divide o restante do tempo ouvindo Chico, Zé Ramalho, Alceu Valença, Cartola e Noel, lendo jornais digitais, (re)lendo Eliane Brum, Bukowski, Dostoiévski e Allan Kardec, além de jogar WAR com os exércitos vermelhos.

Mas, como o inferno são os outros, Vitor Maurício teve vontade de abandonar o confinamento ao presenciar mulher e filho assistirem às “lives” de Roberto Carlos, de Fábio Júnior e uma terceira de uma dessas duplas caipiras que vomitam letras que glamorizam ora a dor de corno, ora o alcoolismo. E não cabem na métrica da insuportável melodia.

Em 12 de outubro de 2019, Basílio, 11 anos, filho de Vitor Maurício, conheceu o Rio. Milhas na ida, leito na volta, hospedagem Airbnb em Copacabana. Presentão de dia das crianças. E, enquanto curtia uma costela com mandioca “padrão turista” no pé do Morro Chapéu Mangueira, viu um rapaz sem camisa, imberbe, metralhadora gigantesca na cintura, distribuindo prendas para a criançada local.

O menino, ainda mais loiro e claro que o pai, não ficou traumatizado.

Basílio tem aula regular e bilíngue online. Sonha ser lateral direito do Corinthians. E, quem sabe, do Atlético de Madrid. Mas ouve todos os dias que a prioridade é o estudo: “A chance de virar jogador é de uma em um milhão, Basa”.

O negro João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, inocente, brincava em casa, em São Gonçalo, quando foi morto por uma operação conjunta das polícias federal e civil. Não jogará no Flamengo, nem no Real Madrid. Vai ver até gostava do nome duplo.

Chico Xavier: “A desilusão é a visita da verdade”.

Vitor Guedes

43 anos, é ZL, jornalista formado e pós-graduado pela Universidade Metodista de São Paulo, comentarista esportivo, equilibrado e pai do Basílio

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