Colecionar notas e moedas ainda desperta curiosidade

Levantamento de 2018 indica que existem 15 mil adeptos da numismática no país

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São Paulo

Mesmo em um mundo onde as transações são realizadas cada vez mais por meio digital, cédulas e moedas ainda despertam um interesse que vai além do valor impresso ou cunhado. O lançamento da nota de R$ 200, com o lobo-guará estampado, é a prova mais recente disso.

Para algumas pessoas, colecionar dinheiro pode significar mais do que ter grana depositada em um banco. É a possibilidade de obter conhecimento.

"Uma moeda ou cédula não é um pedaço de metal ou papel, mas da história. É um elemento de comunicação em massa fabuloso", afirma o especialista Claudio Amato, 66 anos, que desde os 9 se interessa pela numismática, a ciência que estuda a cara e a coroa do dinheiro.

Amato é autor de um dos catálogos mais detalhados sobre o tema. É por ele que interessados se guiam para completar suas coleções.

Segundo Bruno Pellizzari, 24, diretor social e de divulgação da Sociedade Numismática Brasileira, levantamento de dois anos atrás apontou que cerca de 15 mil pessoas colecionam cédulas e moedas no país.

Advogado e especialista em leilões, Pellizzari começou a se interessar pelo assunto no início da adolescência, ao tomar contato com as moedas estrangeiras que a avó trazia da Espanha e com as nacionais que tinha guardada no caixa da sua cantina em uma escola. Na avaliação dele, a numismática tem um futuro que vai além das transações eletrônicas.

"Não é um hobby só para pessoas aposentadas", diz. "Até física e química e a gente consegue estudar por meio das moedas", explica.

Parece até óbvio, mas colecionar dinheiro pode, sim, render uma boa grana. Em países como os Estados Unidos, é comum fundos de investimento aplicarem quantias volumosas em moedas ou cédulas raras.

"A moeda é sua e de mais 50. Se quiser fazer só pelo dinheiro, esse é o caminho", afirma Amato. "Há relato de quem comprou pelo valor de um almoço e, 20 anos depois, pagou uma operação do coração vendendo aquela cédula."

Pandemia

O coronavírus atrapalhou também os planos dos colecionadores de moeda. Além dos quatro eventos anuais promovidos pela Sociedade Numismática Brasileira, estavam previstos mais de 30 outros encontros para 2020.

A saída para manter o mercado ativo veio da internet, mas Pellizari faz uma ressalva. "Ao mesmo tempo em que nos auxilia a ter mais contatos, mais opções de lojas, também temos a veiculação de muitas informações falsas", explica.

Na última semana, a reportagem do Agora acompanhou um dos grupos de numismática mais ativos no Facebook, com cerca de 146 mil membros. De forma geral, prevaleceu a troca de ofertas e informações.

Moeda de dom Pedro 1º pode custar até R$ 2,5 milhões

A moeda brasileira mais valiosa entre colecionadores foi desprezada por dom Pedro 1º no baile da coroação, em dezembro de 1822. O pedaço de metal valendo 6.400 réis trazia o imperador brasileiro de busto nu, como um romano.

A moeda da coroação do imperador Dom Pedro 1º, que pode valer R$ 2,5 milhões - Divulgação

A tiragem ficou limitada as 64 peças feitas até então. Duas permaneceram na Casa da Moeda, 62 foram distribuídas às famílias presentes na festa e, hoje, quase 198 depois, só 16 são conhecidas. Uma delas chegou a ser comercializada por US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões). "A grande maioria está em museus", afirma o diretor social de divulgação da Sociedade Numismática Brasileira, Bruno Pellizzari.

O especialista Claudio Amato conta que o primeiro imperador do Brasil ficou realmente insatisfeito com a homenagem. "Quando olhou para aquela moeda, dom Pedro 1º disse 'sou militar, quero estar com traje militar'. Ele ficou meio bravo. A peça acabou ali", conta.

Embora desejada por muitos, a Peça da Coroação, como é conhecida, não faz parte nem do sonho de grande parte do colecionadores brasileiros. "Existe uma gama muito interessante de peças que se pode colecionar e aquela que te dá mais satisfação não é a mais cara, mas a que você quer, que você procura. A satisfação não tem preço", diz Amato.

Olimpíada do Rio trouxe novos colecionadores

A Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, deixou um legado para a numismática brasileira por despertar o interesse de milhares de pessoas para as moedinhas comemorativas de R$ 1.

A brincadeira começou ainda em 2012, quando foram feitas 2 milhões de unidades representando a passagem da bandeira olímpica de Londres (ING) para a cidade brasileira.

Entre as pessoas que tiveram o interesse despertado pela moeda de R$ 1, em 2012, está o ajudante de adega Matheus Silva, 25 anos. "Sempre gostei de coisas antigas, desde criança. Mas só em 2012 obtive minha primeira moeda, a da bandeira. Consegui como troco e comecei a pesquisar", conta Silva.

Moeda de um real lançada para a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro - Diego Padgurschi - 9.out.15/Folhapress

Silva tenta em um dos muitos grupos de colecionadores no Facebook uma peça de prata, da coleção de 16 exemplares de R$ 1 lançados em 2016. "Só tenho interesse nas moedas do Brasil", completa.

Nota de R$ 200 não empolgou

Hoje valioso e cobiçado, o lobo-guará não tem um futuro muito promissor, segundo os especialistas em colecionismo.

Laurence Matuck, 49 anos, tem uma loja em um prédio na rua Barão de Itapetininga, na República (região central), que é um verdadeiro paraíso dos colecionadores de cédulas e moedas. Segundo ele, é muito improvável que a nota de R$ 200 se torne rara ou valiosa no futuro.

“Não acredito [que seja valiosa]. Como o país é muito grande, as emissões são grandes também. Salvo se tiverem que recolher no futuro, por causa do tamanho igual à cédula de R$ 20. Pode se tornar rara por causa disso”, afirma.

Matuck, que herdou o interesse e a loja do pai, diz que nem sempre uma moeda muito antiga é também valiosa. “Tem peças do Império Romano que são antigas, mas não raras. Pode ter peças mais modernas e mais raras. O grau de raridade vai de acordo com oferta e procura”, diz.

CÉDULAS E MOEDAS QUE VALORIZAM

Cédula radar ou espelho

  • É aquela que a numeração é a mesma se lida da esquerda para direita ou da direita para a esquerda

Falhas no cunho ou em impressão

  • Moedas com o eixo reverso invertido ou cédulas com numeração com asterisco ou corte irregular, por exemplo, têm maior valor

Assinatura

  • Ministros ou presidentes do Banco Central que ficaram pouco tempo no cargo

Sequenciais

  • Conjunto de notas intactas com numeração sequencial

QUANTO VALE R$ 1?

  • R$ 3 - se trouxer o emblema da comemoração dos 40 ou dos 50 anos do Banco Central, ou ainda a imagem do ex-presidente Juscelino Kubitschek
  • R$ 220 - caso traga o emblema da celebração dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1998
  • R$ 100 ou mais - se, no verso, tiver o símbolo da entrega da bandeira olímpica, Londres - 2012, Rio de Janeiro - 2016
  • R$ 10 - caso o verso traga um beija-flor alimentando filhotes no ninho, em alusão à cédula de R$ 1 de 1994. É comemorativa dos 25 anos do Real e foram produzidas 25 milhões de unidades, distribuídas em 2019

MAIS QUE CENTAVOS...

R$ 0,25 podem valer até R$ 60

  • Lançada em maio de 1995. Foram produzidas 1 milhão de unidades da moeda de R$ 0,25. No verso, deve ter a inscrição da FAO - Alimentos para todos, com um camponês cultivando a plantação

R$ 0,10 podem valer até R$ 90

  • Lançada em maio de 1995. Foram produzidas 1 milhão de unidades da moeda de
  • R$ 0,10. No verso, há a inscrição da FAO - Alimentos para todos, mas apresenta mãos segurando uma muda

Como são classificadas as cédulas e moedas?

  • MBC: Muito bem conservada
  • Sob: Soberba
  • FE ou FC: Flor de estampa (cédulas) ou Flor de cunho (moedas)

Dicas

  • Coloque a cédula antiga sob um livro pesado para tentar remover as dobras
  • Procure sempre um especialista para evitar fraudes e falsificações

Joia da coroa...

  • Moeda de 6.400 réis, de 1822, com dom Pedro 1º, pode custar até US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões). Só há 16 exemplares conhecidos, dos 64 que foram cunhados e apresentados no baile da coroação do primeiro imperador do Brasil, em dezembro daquele ano

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