Em protesto, padarias param de vender cigarros na Grande SP

Comerciantes fazem movimento para aumentar margem de lucro

Patrícia Pasquini
São Paulo

Cerca de 600 padarias da capital paulista e da Grande SP pararam de comprar cigarros das indústrias e não vão mais comercializá-los a partir desta semana.

O presidente do Sampapão (Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria do Estado de São Paulo) Antero José Pereira explica que o movimento começou como um protesto contra a iniciativa da Souza Cruz, que fixou o preço dos cigarros na embalagem.

A atitude foi interpretada como desrespeito à categoria, segundo comunicado enviado a 5.300 panificadores da capital e da Grande SP no dia 21 de março. Como houve redução nos preços, “está implícita a suposição de que o panificador receberia a redução no preço e continuaria vendendo o cigarro por um preço maior”, diz o texto.

Os panificadores fizeram duas reivindicações: que a Souza Cruz retire imediatamente o preço na embalagem dos produtos, recolha e substitua os maços já entregues às padarias, e abra a negociação para melhorar a margem de comercialização, que hoje é de 6,9%. "Queremos que volte ao patamar de 2009, quando estava em 11,26%. Percebemos que se há margens para baixar preços também dá para negociar a margem de comercialização”, afirma. 

Os panificadores da capital e Grande SP fazem boicote ao cigarro. Hermínio Alonso Bernardo é proprietário de duas padarias em Guarulhos e aderiu ao protesto
Os panificadores da capital e Grande SP fazem boicote ao cigarro. Hermínio Alonso Bernardo é proprietário de duas padarias em Guarulhos e aderiu ao protesto - 02/04/2019/Rivaldo Gomes/Folhapress

O primeiro pedido foi atendido, segundo o sindicato. Antero José disse ao Agora que a empresa voltou atrás e prometeu não colocar mais os preços nas embalagens.

A Souza Cruz informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que "a fixação de preços nas embalagens é uma prática das indústrias em determinadas regiões, sem periodicidade preestabelecida, para agregar transparência e acirrar a competitividade evitando o mercado ilegal". 

Sobre a margem de negociação, Pereira disse que o sindicato e os fabricantes de cigarros tiveram reuniões nos últimos dias, mas sem acordo.

“Os aumentos de alíquota de cigarro em termos de impostos foram repassados para a margem de comercialização. Fica inviável a venda de cigarro, porque 95% das padarias estão no regime de tributação do Simples Nacional e pagam impostos sobre o faturamento entre 4,5% e 7,8%, dependendo da faixa. Na segunda, por exemplo, você observa um prejuízo logo de cara. O lucro é de 6,9%, mas o comerciante paga 7,8% de impostos”, afirma. 

De acordo com o sindicalista, há ainda as cobranças das taxas das operadoras de cartões. “O custo vai de 1,5% a 2% nas operações em débito e de 2,5% a 3% no crédito, somado ao imposto do Simples”, completa.

Sindicato das padarias lamenta

Para o presidente da Abip (Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria), João Batista de Oliveira, não é saudável para o negócio a padaria deixar de vender cigarros. “Perde a indústria de cigarros, perdem as padarias, que trazem fluxo de cliente em função do produto, perde o governo, que deixa de recolher impostos, e ainda amplia o mercado para o contrabando”, afirma. 

De acordo com a associação, o setor de panificação vem propondo um diálogo aberto sobre a alta tributação do cigarro e a margem de comercialização. “Nos últimos governos, não houve interesse em se tratar desta questão de forma tranquila e planejada. A própria Abip mostrou a senadores e deputados, que votavam sempre para dificultar a venda de cigarros legais, que eles estavam trabalhando a favor do mercado clandestino e contrabando”, explica.

Para a Abip, a venda de cigarros produzidos legalmente, dentro dos padrões de qualidade estabelecidos pela Anvisa, é uma forma de inibir a entrada de produtos contrabandeados no país. Uma pesquisa realizada pelo Ibope mostra que o mercado ilegal de cigarros atingiu um patamar inédito no Brasil. Em 2018, de acordo com levantamento do instituto, 54% de todos os cigarros vendidos no país eram ilegais, um crescimento de seis pontos percentuais em relação ao ano anterior. 

Nesta terça-feira (2) à noite, o Sampapão se reuniu com panificadores na sede do sindicato e ficou decidido que o protesto continuará até a margem de comercialização chegar ao patamar desejado. Segundo o órgão, 20% dos comerciantes comunicaram que não voltarão a vender o produto mesmo que a reivindicação seja atendida. 

Resposta

A Souza Cruz informa que entende o movimento realizado pelo Sampapão. A empresa concorda que a questão da segurança e do roubo de cigarros, citada pelos varejistas, é crítica e decorre do desequilíbrio do sistema tributário, que leva à predominância do mercado ilegal no setor. "Estamos dialogando com os integrantes do sindicato para encontrar a melhor solução para ambos. Aproveitamos para esclarecer que o setor é altamente regulado e que inclusive a margem de comercialização é determinada por lei", diz a nota. 

A JTI (Japan Tobacco International) esclarece que está ao lado das padarias, mas que ambos sofrem com a onerosa carga tributária que incide sobre os produtos. As margens praticadas aos varejistas e o roubo de cigarros nos pontos de venda são consequências desta situação.

A empresa diz ainda que cigarros comercializados dentro da lei tendem a ser mais caros do que os contrabandeados, que não apenas deixam de pagar impostos como também escapam do alcance de políticas públicas de interesse do país. As padarias sofrem furtos preferencialmente de cigarros porque a revenda destes produtos (legais, altamente tributados e respeitadores da lei) se torna extremamente atrativa para os criminosos. 

Procurados, o Sindicato da Indústria do Fumo no Estado de SP, a Associação Brasileira da Indústria do Fumo e a Philip Morris não se manifestaram.

Boicote ao cigarro

O comerciante Hermínio Alonso Bernardo, 49 anos, dono de duas padarias em Guarulhos (Grande SP), conta que a baixa rentabilidade financeira foi o motivo que mais pesou para o boicote ao cigarro. Além da margem de comercialização baixa, tem o custo com os cartões e os assaltos. “Na minha padaria, 80% das vendas são feitas com cartão de débito ou crédito”, diz. 

Segundo Bernardo, no caso de assaltos, o cigarro é um dos itens mais visados. Uma das suas padarias foi assaltada 18 vezes, em 20 anos de existência. A outra sofreu quatro roubos. “O cigarro é um produto que te dá prejuízo e o comerciante ainda corre o risco de perder todo capital investido. Tenho dúvidas se algum dia voltarei a trabalhar com cigarros. A lei antifumo mudou os hábitos da população. Hoje, você entra numa padaria para tomar café e não pode acender um cigarro em seguida. Então, o argumento de até dez anos atrás, de que cigarro traz movimento para a padaria, é questionável”, afirma.

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