A bola é um detalhe: Do sublime ao patético

Marcos Guedes
São Paulo

Quase nada irrita tanto um torcedor quanto ver em seu time gente que não se importa com ele. O jogador desinteressado, aquele que deixa o gramado com a camisa sequinha, provoca reações convulsivas nos que se veem obrigados a torcer por seu sucesso —pergunte a qualquer um que já teve Pato vestindo suas cores.

A resposta é logicamente a inversa diante do raçudo. Se o sujeito se entrega em campo e mostra uma preocupação com o placar levemente parecida com a exibida pelos que estão na arquibancada, já dá um passo enorme em direção ao coração da galera, mesmo que a técnica não seja proporcional ao empenho.

No futebol atual, há todo um mecanismo de distanciamento entre jogadores e torcida. Na lógica do negócio, o torcedor virou cliente e o ídolo se tornou um perfil no Instagram. O atacante que ousa subir as escadinhas dos estádios modernos e se aproxima do publico para celebrar um gol deve, por regulamento, ser advertido com cartão.

Raros, os momentos genuínos de identificação raiam pelo sublime. Um deles ocorreu na quarta-feira, quando Pedrinho, do Corinthians, comemorou, entre soluços, o gol marcado em sua terra 

"A gente, que é alagoano, sabe o que passa para chegar ao futebol. Eu fico muito feliz de fazer um gol aqui em Maceió. Quero falar para a rapaziada daqui: nunca desista, porque, quando Deus quer, tudo é possível", disse o garoto, aos prantos, com um total de 0% de afetação.

Pedrinho se emocionou e emocionou ao ir à rede em sua Maceió - Amanda Perobelli - 25.jul.19/Reuters

Foi lindo. Aí, passou o intervalo, e o time dele perdeu por 2 a 1 para a fraca equipe do CSA, uma atuação apática que gerou revolta geral entre os corintianos.

Terminada a partida, Pedrinho voltou ao microfone no qual havia derramado lágrimas bonitas. O mesmo que provocara amor ao se importar tanto com um gol deu declarações vazias, no modo automático, e chegou ao ponto de dizer: "Fizemos um bom jogo".

O Pedrinho do intervalo é a esperança, é tudo o que o torcedor quer, é o próprio torcedor. O Pedrinho do pós-jogo é mais um Pato.

Marcos Guedes
Marcos Guedes

33 anos, é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e, como o homenageado deste espaço, Nelson Rodrigues, acha que há muito mais no jogo do que a bola, "um ínfimo, um ridículo detalhe". E-mail: marcos.guedes@grupofolha.com.br

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