Motorista encontra peixe em córrego ao lado do rio Tietê

Ele come o alimento e também distribui a pessoas carentes

Mario Celso Timoteo pescando em córrego que deságua no rio Tietê
Mario Celso Timoteo pescando em córrego que deságua no rio Tietê - Rubens Cavallari/Folhapress
São Paulo

Há quase dois meses o motorista Mario Celso Timóteo, 59 anos, pesca e come peixes do córrego da Água Branca, na Barra Funda (zona oeste), em meio ao caos da capital. Ele também distribui os bichos para conhecidos e pessoas carentes. O riacho frequentado por ele deságua no rio Tietê.

Timóteo afirmou não ter medo de consumir a carne pescada no córrego. Sua segurança, argumentou, é garantida pelo óleo de fritura. “Depois que temperou e passou no óleo quente, mata tudo”. Ele acrescentou que toma uma cachaça em seguida para garantir que “vai matar qualquer bactéria”.

Segundo o motorista, no local dá para fisgar tilápias, lambaris e também caboje (uma espécie de cascudo). Desde a descoberta do lugar, o motorista vai quase que diariamente pescar. Por conta disso, sobra peixe para distribuir para amigos e pessoas carentes. “Congelo tudo o que pego e depois dou para o pessoal”, afirmou Timóteo, enquanto mostrava cinco peixes à reportagem.

Ele mora na Freguesia do Ó (zona norte), de onde vai ao pesqueiro de bicicleta, em dez minutos, ou de carro ou moto, em cinco minutos. Em um dia bom, afirmou pescar até 1,5 quilo de peixe. “E isso não é história de pescador”, garantiu o motorista.

Uma das pessoas que ganha peixes de Timóteo é o capinador Valdemiro Pereira Brito, 54. Ele afirmou não ter medo de consumir a carne pescada no riacho. “Até onde sei, o lugar onde o Timóteo pesca tem a água limpa.” Disse ainda que nunca passou mal por conta da ingestão dos peixes de lá.

A mulher de Timóteo, a faxineira Maria de Lourdes de Jesus, 54, pensa de forma diferente. Ela afirmou adorar comer peixe, mas não o que é pescado pelo marido no córrego. “Eu tenho medo. Cai esgoto naquela água. Vai que contamina? Eu como o peixe que compro no mercadão”, revelou gargalhando.

Timóteo descobriu o pesqueiro, no início de fevereiro, após flagrar o educador ambiental Erick Santos Venâncio, 33, pescando por lá. Venâncio afirmou frequentar o local há cerca de sete anos. “Apesar de a água ser barrenta, ela é limpa. Nunca tive nenhum problema.”

Limpeza da água

Segundo a Sabesp, o córrego da Água Branca integra o programa Córrego Limpo, parceria com a prefeitura, sob gestão de Bruno Covas (PSDB). “De acordo com o monitoramento dos índices de DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) das águas, o [córrego] Água Branca está dentro da meta estabelecida para o Programa Córrego Limpo”, diz trecho de nota enviada à reportagem.

DBO corresponde à quantidade de oxigênio consumida por microorganismos presentes em esgoto doméstico ou industrial. Ou seja, quanto menos consumo, mais limpa é a água.

A Subprefeitura da Lapa afirmou que realiza limpeza manual e mecanizada periodicamente no córrego da zona oeste. “Existia no local uma ocupação desfeita em novembro de 2018 , o que possibilitava que somente a limpeza manual, das margens, fosse feita”, diz a pasta. “A partir de novembro, a limpeza mecanizada passou a ser executada continuamente até a retirada completa dos materiais oriundos da demolição da ocupação”, completa o trecho de nota.

Foram retirados do local 318 caminhões com detritos do leito, acrescentou o governo municipal.

Risco é real, diz biomédico

O biomédico Roberto Martins Figueiredo, o “Doutor Bactéria”, explicou que peixes podem ser contaminados biologicamente (com esgoto doméstico) ou quimicamente (com produtos como chumbo e mercúrio). “Na contaminação biológica, se o peixe for bem frito, elimina-se a possibilidade de contaminação, pois nada sobrevive às temperaturas altas, nem parasitas, nem bactérias que possam estar no peixe”, diz.

Porém, ele alertou que a contaminação química “é mais séria”. “Não há o que se fazer para eliminar a presença de produtos químicos na carne”. E, fritando uma carne quimicamente contaminada, o efeito de intoxicação aumenta. “Como não se sabe se indústrias despejam irregularmente produtos na água, é um risco real”.

A contaminação biológica, segundo o Doutor Bactéria, pode ocorrer caso a pessoa consuma a carne do peixe crua ou mal passada. “Isso acarreta diarreia e vômito.”

Já a contaminação química, pois materiais pesados são absorvidos e se concentram no organismo, sem sintomas imediatos. “No futuro, com a acumulação dos produtos químicos, a intoxicação pode evoluir para um câncer”, disse.

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