Conheça pessoas que não saem de casa sem ver a previsão do tempo

Em dias de mudanças radicais no clima, a preocupação é ainda maior

Leonardo Zvarick
São Paulo

Todos os dias quando acorda, às 6h em ponto, a rotina do aposentado Renato Lisboa, 62 anos, é a mesma. Depois de levantar, toma seu café e escuta o noticiário da manhã pelo rádio, enquanto se arruma para uma caminhada.

Durante esse ritual, Lisboa tem a atenção voltada especialmente para o boletim meteorológico, ou a previsão do tempo para o dia, sem a qual não sai de casa. "Como passo muitas horas fora, preciso saber com que roupa sairei. É preciso estar sempre preparado", afirma o aposentado, que mora na Santa Cecília (região central de SP).

Para ele, esse é um hábito de mais de décadas. Mesmo que a previsão não acerte sempre, para ele, é melhor se precaver. "Hoje, por exemplo, saí com um guarda-chuva, mas até agora não choveu", disse na sexta-feira (24), dia que marcou a virada do tempo para o fim de semana frio.

Quando o aposentado chegou em São Paulo, originário de Alagoas, em 1975, a informação ainda era muito restrita. "Tinha só o Narciso Vernizzi [1918-2005], o 'homem do tempo' da rádio Jovem Pan." Hoje, além do rádio e TV, há também os aplicativos de celular, cada vez mais populares.

Na avenida Matarazzo, pessoas na rua usam muita roupa de frio, nesta sexta-feira (24)
Na avenida Matarazzo, pessoas na rua usam muita roupa de frio, nesta sexta-feira (24) - Zanone Fraissat/Folhapress

Para o joalheiro Roberto Silva, 54, é muito mais cômodo consultar a previsão do tempo da palma da mão. "Posso sair de casa na hora que eu quiser, sem ter de procurar algum programa com boletim", afirmou.

A universitária Natália Farias, 21, também usa aplicativos de celular, principalmente para se programar para os fins de semana. "Acho que pouca gente da minha geração acompanha telejornais ou ouve rádio diariamente", disse.

Sua mãe, por outro lado, acompanha os principais jornais televisivos a partir das 4h da madrugada. "Ela acaba se precavendo por mim e pelos meus irmãos no dia a dia. Sempre que faz frio, é ela quem me obriga a sair agasalhada."

Assim como a mãe de Natália, há aqueles que não abandonam os velhos costumes. O jornaleiro Deneval Santana, 60, até usa o celular, mas faz questão de ouvir o rádio. "Sou meio analógico e meio digital", explica o comerciante, que também afirma ser "intuitivo". "Tem dia que a gente acorda e já sabe o que vai acontecer."

Sua mulher, Lia Santana, faz diferente. "Eu ainda gosto de ver a previsão no jornal impresso", diz. 
Ela o faz todos os dias pela manhã, quando o casal abre a banca onde trabalha, na praça Ramos de Azevedo, na região central.

Estudante lê jornal todos os dias para evitar ser surpreendido

Mesmo tendo nascido já em um mundo digital, o estudante secundarista Thiago Catalani, 19 anos, tem alguns hábitos bastante analógicos. Todos os dias, acorda com o som do motoboy entregando o jornal na porta de casa. Na seção "Dicas", do Agora, se informa quanto à previsão do tempo.

Thiago Catalani, 19 anos, enrolado em um cobertor; ele mora na região da Vila Prudente e todos os dias, quando acorda, vê a previsão do tempo na página de Dicas do Agora para se programar
Thiago Catalani, 19 anos, mora na região da Vila Prudente e todos os dias, quando acorda, vê a previsão do tempo na página de Dicas do Agora para se programar - Ronny Santos/Folhapress

"Antes eu saía de casa sem me preparar e sempre passava frio ou tomava chuva na volta para casa", disse. Segundo Catalani, na Vila Prudente (zona leste de São Paulo), onde mora, é comum ocorrerem enchentes em dias de chuva. Por esse motivo, ele conta que passou a acompanhar assiduamente a meteorologia há cerca de dois anos.

Além do jornal, utiliza o site do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas), da prefeitura, e o aplicativo da agência Climatempo, pelo celular.

Com tantas fontes de informação, no início da semana passada o estudante já sabia da onda de frio que atingiria a cidade a partir de sexta-feira passada (24). 

Dessa forma, ele se programou com antecedência: "Escolhi ficar em casa, debaixo das cobertas. Vou no máximo adiantar algumas tarefas de escola, mas prefiro sair em dias ensolarados." 

Ouvintes ainda lembram da voz da mulher do tempo

A presença diária no cotidiano dos ouvintes e espectadores faz com que homens e mulheres do tempo se tornem, para muita gente, praticamente membros da família.

"A pessoa lhe ouve todos os dias, sempre no mesmo horário. Ela acaba se acostumando com a sua presença e espera a sua informação", disse a meteorologista Josélia Pegorim, da agência Climatempo.

Por 21 anos, ela foi a mulher do tempo de uma emissora de rádio, chegando a apresentar 15 boletins por dia. "Tem gente que nunca me viu e me reconhece pela voz. O rádio cria essa intimidade com as pessoas", disse a meteorologista, que não está mais no rádio desde 2016.

"É um serviço muito prático, que afeta diretamente o dia a dia das pessoas", disse.
Mesmo fora do rádio, Josélia continua trabalhando com previsão do tempo, e antecipa algumas informações. "A temperatura começa a subir amanhã [segunda, 27], mas a partir de sexta-feira [31], a expectativa é que volte a esfriar, e o primeiro fim de semana de junho promete ser gelado", disse.

Inmet  registra a menor temperatura do ano na capital paulista

A cidade de São Paulo registrou a menor temperatura do ano, na manhã deste sábado (25), segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). Por volta das 7h, o termômetro da estação meteorológica do mirante de Santana (zona norte) marcou 11,4ºC. Até então, a temperatura mais baixa de 2019 havia sido 14,6ºC, registrada na última segunda (20).

Neste domingo (26), o dia deve ser de sol, com poucas nuvens. Não há previsão de chuva. A temperatura máxima pode chegar aos 23ºC, e a mínima deve ficar em 12ºC, durante a madrugada. A previsão do tempo para segunda-feira (27) terá termômetros entre 14ºC e 25ºC. Não deverá chover. 

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