Mais idosos procuram plásticas para sair bem nas redes sociais

Foto no celular vira motivo para pessoas procurarem o médico para 'consertar' o que não está bem

Aline Mazzo Marcelo Mora
São Paulo

O lance é sair bem na foto. Não importa a idade. Levantamento feito pela SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) com profissionais da área indica que os brasileiros, em quase todas as faixas etárias, estão cada vez mais preocupados com a aparência. Principalmente os acima dos 50 e 65 anos. 

A designer de joias Theya Almeida, 69 anos, passou por um procedimento chamado lifiting para corrigir a flacidez nos tecidos de seu rosto - Ronny Santos/Folhapress

E as redes sociais estão entre os principais motivos. Na faixa acima dos 65, por exemplo, a participação de pessoas no total de procedimentos cirúrgicos realizados saltou de 5,4% em 2016 para 6,6% em 2018.
Na faixa acima dos 50 anos, o índice ficou praticamente estável: de 15,8% em 2016 para 15,9% em 2018.

Dos 36 aos 50 anos, foi a faixa que mais aumentou: de 34,2% para 36,3%. Só houve redução mesmo entre os jovens de 19 a 35 anos.

Diante de tais números e, claro, da experiência em consultório, a conclusão dos profissionais da área é a de que as redes sociais estão estimulando as pessoas a se cuidarem mais, se preocuparem mais com a imagem, inclusive recorrendo a cirurgias plásticas.

"É muito comum o paciente chegar no consultório, tirar o celular e dizer: 'Olha bem essa foto, doutor!' Acontece com todas as faixas etárias. Não se pode dizer exatamente que é pelas redes sociais, mas sem dúvida estão influenciando bastante no nosso dia a dia. Talvez seja essa uma das explicações", afirma o cirurgião plástico Alexandre Fonseca, um dos coordenadores do levantamento da SBCP. 

Outro indício da influência das redes sociais na hora de decidir passar por um procedimento cirúrgico estético é apontado pelo cirurgião Victor Cutait: "A mulher que opera troca a foto de seu perfil na rede social na sequência", diz o médico. 

E tudo indica que o smartphone tomou o lugar do espelho do banheiro ou do quarto, onde o olhar para si era um ato praticamente individual e solitário. Estar nas redes sociais, por outro lado, é ser observado de forma coletiva e em tempo integral. O que aumenta a preocupação com a imagem.

Foi o que levou a advogada Sandra Maria de Hipólito, 68 anos, a fazer recentemente uma lipoaspiração de papada. Há 11 anos, ela já tinha se submetido a um lifting facial. "Com a idade, a pele vai ficando flácida abaixo da bochecha, vai ficando igual a um buldogue. Com o advento de foto em rede social, comecei a observar mais isso [a papada] e começou a me incomodar. Olhava nas fotos e já planejava fazer [a plástica]. Sou vaidosa", diz Sandra, feliz com o resultado obtido com o procedimento.

Satisfação

Lidar com o público e estar bem consigo mesmo estão entre outros motivos que levam as pessoas acima de 50 anos a realizar cirurgias plásticas estéticas.

A aposentada Margarida Ramalho, 72 anos, por exemplo, veio de Portugal recentemente e aproveitou para fazer mais um procedimento cirúrgico nos seios, uma mamoplastia.

"Não fiz para agradar ninguém, mas a mim mesma. Porque eu tinha um complexo terrível. Depois de três gravidezes, eu achava minha mama um pouco caída e queria suspendê-la. Gostei do resultado", afirma.

Por conta da profissão que exerceu por vários anos no Brasil, Margarida sempre teve um cuidado extra com a imagem. "Sou mais crítica do que vaidosa. Sempre achei que, como secretária executiva, eu representava a imagem da empresa. Então, para mim, elegância vinha em primeiro lugar", justifica.

A designer de joias Theya Almeida, 69, "com cara de 30", conta que estava incomodada com uma papada "bem debaixo do queixo". Por isso, decidiu fazer um lifting, realizado a menos de um ano. "Como trabalho com beleza, tenho de estar com a cara linda e feliz", afirma a designer.

O mais importante, segundo ela, é que o resultado ficou "bem natural". "Estou muito satisfeita. Ninguém nem percebeu que eu fiz nada", afirma. 

Sem exageros

Ao mesmo tempo que quer aparecer bem na foto, quem se decide por realizar uma plástica quer que o resultado seja o mais natural possível. É neste sentido que cirurgiões ouvidos pela reportagem têm atuado junto aos seus pacientes, para evitar os exageros.

"A grande maioria [dos pacientes] chega com muito receio dos resultados que podem vir. Eles falam: 'Não me deixa esticada daquele jeito!', referindo-se a uma celebridade específica que já fez várias plásticas", conta a cirurgiã plástica Luciana Leonel Pepino.

No entender dela, o aparelho celular virou um espelho, que piora muito a imagem da pessoas em uma foto, pelo fato de as lentes grandes angulares gerarem distorções. "A gente conversa muito sobre isso com eles. A gente prima pelo que é mais natural", esclarece.

Para o cirurgião Victor Cutait, o limite "é o bom senso". "O grande segredo da cirurgia plástica é você intervir sem aparentar que interveio. O ideal é apresentar uma melhora considerável sem o estigma da cirurgia plástica", diz o médico. "O problema é perder a noção do que já fez e tentar sempre algo mais. O exagero pode colocar a saúde em risco", completa.

Segundo os dados da SBCP, o Brasil é o segundo no ranking mundial de cirurgias plásticas, com mais de um milhão de procedimentos por ano, ficando atrás apenas dos EUA. O aumento de mama ainda é o mais escolhido entre as mulheres: foram realizadas mais de 280 mil cirurgias deste tipo. "A mama tem um impacto direto na autoestima da mulher. Sejam pequenos, grandes ou caídos, os seios estão diretamente relacionados à sensação de bem-estar", diz o cirurgião Victor Cutait.

Recomendações por idade

40 a 50 anos
Além de reforçar o botox e o preenchimento, são indicados peelings mais profundos e até mesmo a colocação de fios de sustentação para ajudar a recuperar os contornos do rosto

50 a 60 anos
Entram em cena procedimentos mais invasivos, como a blefaroplastia (cirurgia de pálpebras) e a cirurgia de lifting facial (para rejuvenescer a face), além dos procedimentos anteriores

Acima dos 60 anos
Pode-se associar a cirurgia de pálpebras com o lifting, fazendo uma ritidoplastia. Também pode procurar preenchimentos para recuperar o volume das mãos

Acima de 70 anos
Pacientes podem realizar procedimentos cirúrgicos desde que apresentem boas condições clínicas
Algumas pessoas recorrem a cremes anti-idade, que podem funcionar, mas que não têm tanta eficácia quanto às cirurgias plásticas

Procedimentos mais realizados

18,8%
Aumento de mama

16,1%
Lipoaspiração

15,9%
Dermolipectomia abdominal

11,3%
Mastopexia

9,9%
Redução de mama

8,7%
Blefaropastia 

Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

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