Militante trans é sequestrada e torturada na zona leste de São Paulo

Vítima diz ter escapado da morte porque bala parou no celular que estava na sua bolsa

Alfredo Henrique
São Paulo

Uma militante trans do PSOL, de 26 anos, afirma ter sido sequestrada e em seguida torturada por dois homens, ainda não identificados, no último dia 16, em Itaquera (zona leste da capital paulista). A vítima teve o ombro deslocado e foi alvo de tiros, quando conseguiu fugir. Um dos disparos perfurou sua bolsa e parou em um de seus dois celulares. 

Uma militante do Psol, de 26 anos, afirma ter sido sequestrada e em seguida torturada por dois homens, ainda não identificados, na terça-feira (23) em Itaquera (zona leste da capital paulista). A vítima teve o ombro deslocado e foi alvo de tiros, quando fugiu. Um dos disparos perfurou sua bolsa e quebrou um de seus celulares - Arquivo pessoal

A vítima, que também é garota de programa e procurou a polícia, explicou que no dia do sequestro ia de ônibus ao Poupatempo de Itaquera para resolver alguns problemas com documentação. Durante o trajeto, ela se sentiu mal e resolveu descer em um ponto no caminho. “Em seguida, parou um carro escuro, ao meu lado, e o homem que estava no banco de trás me chamou pelo meu nome”, afirma. 

Quando se aproximou do carro, que ela não lembra o modelo, o suspeito lhe apontou um revólver na testa e a mandou entrar no carro. “Fiquei em choque. Aí, o homem me puxou com força, pelo braço, para dentro do carro”, diz. 

Dentro do veículo, ocupado por dois homens, o suspeito do banco de trás cobriu a cabeça da vítima, com uma sacola plástica branca, até sufocar, segundo ela. “Quando perdi o ar, ele tirou a sacola da minha cabeça, me vendou e, com a arma em minha cabeça, ordenou que eu ficasse deitada no chão do carro.” 

Sessão de tortura 

Dentro do carro começaram as torturas, a princípio, psicológicas contra a militante. Segundo ela, o homem que ocupava o banco traseiro a chamou de “comunistinha de merda” e várias vezes, segundo a vítima, mencionou o PSOL, afirmando que “todos os vermes” do partido são ratos. 

Uma militante do Psol, 26 anos, afirma ter sido sequestrada e em seguida torturada por dois homens, ainda não identificados, na terça-feira (23) em Itaquera (zona leste da capital paulista). A vítima teve o ombro deslocado e foi alvo de tiros, quando fugiu. Um dos disparos perfurou sua bolsa e quebrou um de seus celulares - Arquivo pessoal

O motorista do carro, lembra a militante, chegou a afirmar que a vítima seria esquartejada. “Primeiro ele falou que iriam arrancar meu silicone, depois meu nariz e orelhas. Neste momento pensei que iria morrer", afirma.

A dupla, conforme declara, circulou com a vítima por pouco mais de 20 minutos, quando o carro parou em uma estrada de terra, local que a vítima não consegue se lembrar onde é. “Eles me tiraram do carro puxando pelos cabelos, me puseram de joelhos, ainda vendada, e encostaram a arma em minha nuca. Aí eles me chamaram de traveco comunista de merda, afirmando que iriam matar as pessoas do PSOL, uma a uma, e que eu seria um recado para todos”, diz. 

Agressões

Após as ameaças, a vítima diz que começou a ser agredida fisicamente. Segundo a militante, um dos homens puxou seu braço para trás, provocando o deslocamento de seu ombro direito. Depois, ela foi alvo de socos no estômago, além de pisões no pé e joelho. “Meu corpo todo formigava, estava tão anestesiada que nem senti dor.” 

Em seguida, a dupla tirou a venda da militante, que constatou que ambos usavam luvas de couro, além de capuzes, para não serem identificados. Neste momento, a militante disse que eles poderiam levar seu dinheiro e cartões, desde que não a matassem. “Eles pegaram minha bolsa e afirmaram que só queriam os contatos de meus companheiros de partido. Percebi, só quando cheguei em casa, que eles levaram meu celular com os contatos do partido."

Durante a sessão de tortura, a vítima diz ter informado aos agressores todas suas senhas.  

Por fim, um dos homens levantou a militante, segundo ela, encostou a arma nas costas dela e a ordenou que caminhasse. “Nessa hora, nem pensei, tinha um barranco na minha frente, pulei ele e comecei a correr”, lembra. Em uma queda, ela afirma ter rompido o tendão de um dos pés. 

Os homens atiraram contra a vítima. Um dos disparos, segundo imagens enviadas à reportagem, atingiu a bolsa da militante, perfurando seu celular pessoal, que não foi levado pela dupla. 

A mulher chegou à beira de uma rodovia, da qual não se lembra qual é, e foi ajudada por um casal em um carro, que a deixou em um ponto de ônibus. “Não me lembro de mais nada. Só de quando já estava em casa, sentada no chão da sala, com o alarme disparado”. 

Medo 

Ela afirma que durante dois dias após a dupla levar seu celular, os agressores usaram sua conta para rastrear todos os grupos em que interage. 

A vítima é membro da setorial LGBT do PSOL de São Paulo e da direção do Quilombo Raça e Classe da CSP-CONLUTAS. 

Partido 

Frederico de Oliveira Henriques, integrante da direção nacional do PSOL, afirma que o partido tirou a militante de São Paulo, no momento em que soube da violência sofrida por ela. Na quinta-feira (25), o PSOL emitiu uma nota de repúdio à tortura e ameaças sofridas pela vítima. 

Henriques afirma que desde o dia do crime, o partido tenta se reunir com a SSP (Secretaria da Segurança Pública), gestão João Doria (PSDB) . “Tentamos nos reunir com a secretaria para tomar providências o mais rápido possível. Há, neste caso, elementos de crime de ódio e também questões políticas. Cobramos a investigação do caso”, afirmou 

Resposta

A SSP afirma que policiais do 65º DP (Artur Alvim) realizam buscas por pessoas que auxiliem no esclarecimento do crime. “O caso foi registrado como lesão corporal, sequestro e cárcere privado [...] autoridade policial convocou a vítima para prestar depoimento”, diz trecho de nota.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.