Conheça a São Paulo retratada em 'Éramos Seis'

Capital completa 466 anos amanhã bem diferente da época em que a novela se passa

Vale do Anhangabaú, em 1924; os dois palacetes foram demolidos

Vale do Anhangabaú, em 1924; os dois palacetes foram demolidos Acervo SP In Foco

São Paulo

Ao mesmo tempo em que a Primeira Guerra Mundial começava, em 1914, São Paulo se transformava. Passava de cidade provinciana a centro industrial que atraía imigrantes do mundo todo. A efervescência cultural trazia novidades e comportamentos de vanguarda importados da Europa e, em 1922, acontecia a Semana de Arte Moderna, no Theatro Municipal. Os bondes cruzavam a capital e a classe média alta passou a morar em casarões como os da nobre avenida Angélica. 

É nesse ambiente que vivem os personagens de “Éramos Seis”. A família Lemos se muda para uma casa onde atualmente se vê o edifício São Clemente, no número 1.653. Júlio e Lola, que têm quatro filhos, financiam com muito sacrifício a casa própria, apesar de não pertencerem à classe média alta da época, como a rica tia Emília. 

Como era a cidade de São Paulo na época da novela "Eramos Seis": edifício São Clemente, na av. Angélica, onde ficava a casa da família Lemos, segundo a obra da escritora Maria José Dupré
Como era a cidade de São Paulo na época da novela "Eramos Seis": edifício São Clemente, na av. Angélica, onde ficava a casa da família Lemos, segundo a obra da escritora Maria José Dupré - Rubens Cavallari/Folhapress

“É uma história completa porque mostra a trajetória de uma família típica daquela época e as transformações de São Paulo entre duas Guerras Mundiais”, explica Moacir Assunção, professor de comunicação da Universidade São Judas Tadeu, sobre o livro da escritora Maria José Dupré, lançado em 1943. 

A cidade de São Paulo completa 466 anos neste sábado (25) bem diferente do que foi naqueles tempos mais românticos. Mas a história de Dupré segue tão atual e interessante que ganhou sua quinta versão de novela, atualmente no ar na Globo, com os atores Gloria Pires e Antonio Calloni nos papeis principais. 

O patriarca da família Lemos já morreu na trama das 18h e, como o próprio título entrega, muitas tragédias ainda estão por acontecer a Lola e sua família. Mesmo com os percalços que a matriarca enfrenta, como os conflitos entre irmãos e a falta de dinheiro, Lola demonstra ser uma fortaleza e luta para manter os filhos unidos.

“Ao narrar a história, Lola pega o realismo doméstico da mulher daqueles anos e transforma essa rotina em uma grandeza épica”, diz a professora doutora Bianca Ribeiro Manfrini, que escreveu o livro “A Mulher e a Cidade: Imagens da Modernidade Brasileira em Quatro Escritoras Paulistas” (Edusp), trabalho que inclui análise sobre Dupré. 

Apesar de a Globo mudar a história original e fazer com que Lola se envolva com Afonso, a grande mensagem da obra de Dupré, após a personagem ficar viúva, é que ela consegue se virar sem o marido. 

“Ela sobrevive em um mundo machista e cria os filhos sozinha. É um grande mérito, em especial naquela época, quando os movimentos feministas ainda começavam a borbulhar”, explica Assunção.

Para se manter, Lola passa a trabalhar com encomendas de bolos e doces. “Ela é o exemplo da chefe de família que usa velhos hábitos, como fazer doces, para sustentar seus parentes”, diz Bianca. A família Lemos assiste, e ainda assistirá na novela, a momentos históricos de inquietação em São Paulo, como a Revolta Paulista de 1924 e a Revolução Constitucionalista de 1932 —um dos filhos de Lola, Alfredo, volta ferido do combate. 

“A primeira revolução paulistana deixa marcas fortes por conta dos bombardeios. Na outra, Lola sofre com as privações, como a falta de trigo, gasolina e pão, que eram importados”, conta Assunção. A obra termina pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Até lá, Lola terá muitos desafios e decepções. Seu final, no livro, é amargo. Ela acaba abandonada em um quartinho alugado em um abrigo de freiras, na rua da Consolação. 

Antes e depois


Carroça de padeiro na av. Angélica em 1940 e a avenida hoje​  

A avenida Angélica em 1940 e atualmente

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Carroça de padeiro subindo a avenida Angélica em 1940, no cruzamento com a rua Martinico Prado. O mesmo trecho da avenida, nos dias atuais - Hildegard Rosenthal - 1940/Acervo Instituto Moreira Salles e Rubens Cavallari - 15.jan.20/Folhapress

A alemã Hildegard Rosenthal, uma das pioneiras do fotojornalismo brasileiro, congelou no tempo uma metrópole moderna e agitada, mas que chamava a atenção por seus personagens. Na foto antiga, acima, é possível ver uma carroça de padeiro seguindo pelo trilho do bonde, na avenida Angélica, esquina com a rua Martinico Prado, em 1940. “Hildegard era casada com um judeu e sentiu na pele a perseguição nazista, após 1936. O casal decidiu morar em São Paulo e ela passou a registrar o ambiente em que vivia, com sua câmera Leica. Hildegard montou uma agência e trabalhava ativamente, o que não era um comportamento muito comum às mulheres da época”, explica Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS (Instituto Moreira Salles). 

O Mercadão em 1940 e atualmente

Tomando o bonde na Zona Cerealista, e o Mercadão atualmente

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Pedestres tomam bonde, em 1940, com o Mercado Municipal ao fundo. O mesmo local, hoje em dia, deu lugar aos carros e outros meios de transporte público - Hildegard Rosenthal - 1940/Acervo Instituto Moreira Salles e Danilo Verpa - 23.ago.19/Folhapress

Observando as duas imagens, acima, é possível notar a mudança do transporte e a remoção dos postes de transmissão de energia, depois que a fiação passou a ser subterrânea, segundo Douglas Nascimento, editor do site São Paulo Antiga. Mas o que mais chama a atenção na foto do passado é o bonde, típico transporte dos anos 1940. Quando o Mercado ficou pronto, em 1932, a Revolução Constitucionalista impediu sua inauguração, e o prédio se tornou depósito de armas e munições, segundo a Prefeitura de SP. A abertura oficial foi adiada para o ano seguinte, no aniversário da cidade, 25 de janeiro. Conhecido pela riqueza gastronômica, o Mercado Municipal recebe cerca de 50 mil pessoas por semana.


Avenida 9 de julho e Masp, nos anos 1930 e nos dias de hoje 

Avenida 9 de Julho em construção e atualmente

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A avenida 9 de Julho, na região da Bela Vista, quando estava em construção, por volta dos anos 1930, e como ela é hoje em dia - Divulgação/década de 1940 e Rubens Cavallari 15.jan.20/Folhapress

A foto antiga mostra a construção daquela que seria a avenida Nove de Julho, sentido bairro, na região da Bela Vista. Os túneis da avenida foram inaugurados em 22 de julho de 1938, quase dois anos antes da avenida completa, de acordo com Douglas Nascimento, editor do site São Paulo Antiga. A inauguração da grande via, ele diz, contou com a presença do então presidente Getúlio Vargas. Acima de onde hoje se encontram os túneis, havia um casarão que deu lugar ao Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand). A obra, prevista para ser inaugurada em data anterior à Revolução de 1932, atrasou. A nova via, então, foi batizada em homenagem ao movimento, que teve início em 9 de julho. 

São Paulo se transforma

A história retratada por Maria José Dupré em “Éramos Seis” é real?  Segundo especialistas, não, mas a obra traduz de forma fiel o comportamento daquela época, além de situações domésticas e sociais entre as décadas de 1910 e 1940. 

 A escritora, nascida em Botucatu, no interior de São Paulo, é uma ficcionista, de acordo com Bianca Ribeiro Manfrini, que analisou a obra de Dupré. “Foi tudo inventado, mas ela era muito sensível à urbanização da época e soube retratar isso de forma historicamente precisa em sua obra, que, de certa forma, é a perspectiva da própria autora.”

O livro traz uma reflexão sobre a transformação de São Paulo em relação ao que acontecia no Brasil e até mesmo no mundo, afirma Bianca. “A obra traz o ponto de vista da dona de casa, por meio da narração de Lola. Isso é muito novo para os anos 1940”, completa. 

A obra se tornou tão importante que passou a ser maior que a autora, segundo Moacir Assunção, professor de comunicação da Universidade São Judas Tadeu. “É uma história emocionante e comovente, elogiada até por Monteiro Lobato no primeiro prefácio do livro. É uma obra que retrata a ascensão da classe média paulistana, dos novos ricos.”

A família Lemos, na casa da avenida Angélica: Lola (Gloria Pires ), Júlio (Antonio Calloni ), sentados, Carlos (Danilo Mesquita), Alfredo (Nicolas Prattes), Julinho (André Luiz Frambach) e Isabel (Giullia Buscacio)
A família Lemos, na casa da avenida Angélica: Lola (Gloria Pires ), Júlio (Antonio Calloni ), sentados, Carlos (Danilo Mesquita), Alfredo (Nicolas Prattes), Julinho (André Luiz Frambach) e Isabel (Giullia Buscacio) - RaquelCunha/TVGlobo

Ao se mudar para a avenida Angélica, a família Lemos ascende socialmente, apesar das dificuldades financeiras enfrentadas pelos personagens, segundo Marisa Lajolo, professora de literatura brasileira da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “O livro não se sabe se é real, mas seguramente é baseado em fatos históricos. É uma narrativa verossímil”, afirma.

O publicitário Eros Procópio Santiago, 32 anos, conta que sua família viveu por longos anos na avenida Angélica, onde se passa a maior parte da história de Dupré.

“Tive vários parentes que moraram em algumas casas ali.” Os familiares contam a ele que a casa em que moraram tinha uma vida social movimentada naquela época. Foi naquela mesma rua que seus avós se casaram. Era um tempo, ele diz, em que as mulheres não costumavam trabalhar, mas estudavam francês e eram extremamente vaidosas e muito religiosas.

Nos anos 1930, ele replica uma história engraçada que se passou na década de 1930 com sua prima, Maisa Procópio de Araújo. “Ela ia à missa de bonde. Tinha um rapaz que paquerava ela, descia do bonde e ia atrás dela. Mas ela sempre dizia: ‘volta para o bonde’, e nunca deu bola”. 

 

Veja outras imagens, antes e depois

Centro antigo

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São Paulo da rua São Bento com o Viaduto do Chá, com o Theatro Municipal ao fundo, à direita, em 1912. A mesma região, atualmente - Reprodução - 1912 e Rubens Cavallari/Folhapress

Praça da Sé ganhando forma

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A praça da Sé quando estava sendo construída, em foto tirada entre as décadas de 1920 e 1940. O mesmo local, atualmente - Reprodução e Rubens Cavallari - 15.01.20/Folhapress

O bom e velho Brás

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Rua Caetano Pinto, no Brás, na década de 1930 e atualmente - Acervo Folha de SP - 1930 e Rubens Cavallari - 15.01.20/Folhapress

Avenida Angélica das casas e do comércio

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Casarão na avenida Angélica deu lugar ao comércio e região ficou bastante transformada. Casa antiga pertenceu à família do publicitário Eros Procópio Santiago - Arquivo pessoal/Eros Procópio

Conheça a Antiga São Paulo

MUSEU SPTRANS
Guarda relíquias, como o primeiro bonde a circular em São Paulo, em 1872. Integram o acervo sete veículos, fotos e livros que mostram a evolução do transporte urbano
Av. Cruzeiro do Sul, 780, Canindé (próx. à estação Armênia do metrô), tel. (11) 3315-8884. De ter. a dom., das 9h às 17h. Grátis. Livre

INSTITUTO MOREIRA SALLES
A exposição “São Paulo, Três Ensaios Visuais” resgata os personagens da cidade com fotografias desde 1862. Há imagens de Hildegard Rosenthal e de outros fotógrafos renomados
Av. Paulista, 2.424, Consolação, tel. (11) 2842-9120. De ter. a dom. e feriados (exceto segunda), das 10h às 20h; qui. até as 22h. Grátis. Livre. Até 29/3

MUSEU DA IMIGRAÇÃO
Mostra a história dos imigrantes que chegaram a São Paulo a partir do século 19 para trabalhar nas lavouras de café e na indústria paulista
Rua Visconde de Parnaíba, 1.316, Mooca, tel. (11) 2692-1866. De ter. a sáb., das 9h às 17h; e dom., das 10h às 17h. R$ 10 (aceita meia-entrada). Grátis aos sábados. Livre

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