São Paulo tem um atendimento a cada 5 horas por causa de pipa em fios

Problema, que pode deixar um bairro às escuras, aumenta principalmente nas férias escolares

São Paulo

Uma brincadeira inocente pode levar a uma pane deixando às escuras um bairro inteiro ou, pior, levando à morte quem só queria se divertir. Em 2019, a Enel, companhia de energia que abastece a capital paulista, registrou 1.825 atendimentos de emergência ocasionados por pipas na rede.

Praticamente foi um caso a cada cinco horas. Nas férias escolares, com a molecada nas ruas, o número de situações como aumenta.

"Se provocar curto-circuito, vai desligar a rede. O disjuntor desarma e temos de deslocar uma equipe e fazer manobras para estabelecer o funcionamento", diz o coordenador de segurança do trabalho da Enel Distribuição de São Paulo, Marcelo Alves Bezerra.

Atendimento pipa em São Paulo
Atendimento por causa de pipas em São Paulo - Arte Agora

Longe das salas de aula, a molecada quer brincar e, por isso, os meses de janeiro e julho foram aqueles que, em 2019, mais provocaram atendimentos. No primeiro mês do ano, a companhia teve 342 casos dessa natureza. Já nas férias de inverno, foram 558 situações em que equipes tiveram que retirar pipas da rede elétrica.

Trata-se de um problema que atinge principalmente a periferia, onde a pipa ainda é um brinquedo acessível à molecada carente. Dos dez bairros com maior número de ocorrências, o mais próximo da região central é a Vila Carrão, distante 11 km da praça da Sé. 

A liderança nos atendimentos emergenciais está em Americanópolis, na região de Cidade Ademar (zona sul). (veja ao lado).

A preocupação de Bezerra também se concentra em quem tenta salvar a pipa depois que a linha entra em contato com a rede elétrica. "A pessoa pode receber um choque, ter sequela ou perder a vida. Entre sofrer uma pequena queimadura ou morrer é pura sorte", diz. "Não se deve nunca tentar retirar a pipa da fiação."

Segundo o coordenador de segurança, a Enel realiza campanhas de conscientização e promove a soltura de pipas em locais seguros.

Quase não sobra espaço no  local seguro de Americanópolis

O calor de janeiro e as férias escolares são um convite para que a criançada de Americanópolis, bairro pobre da zona sul, ganhe as ruas com latinha de linha e pipa nas mãos.

O comerciante Renato Haro, 45 anos, é dono e dá nome à Nenê Pipas, loja famosa no bairro por comercializar o brinquedo. "A gente alerta para não soltar na rua, tanto pela rede elétrica quanto por causa das pessoas que passam de moto. A linha não precisa nem ter cortante para matar", diz.

Mas Nenê sabe da realidade do local onde vive. "As crianças da periferia gostam de pipa. Quem tem uma laje maior sobe e solta dentro de casa mesmo", afirma.

Um dos últimos locais onde se consegue empinar pipa na região sem risco é uma área conhecida como "Sete Campos", quase às margens de um dos braços da represa Billings. 

Na última quinta-feira (16), apesar da tarde nublada e chuvosa, pipeiros de todas as idades estavam lá.

"Aqui não tem problema com fio, mas se chegar tarde não tem nem espaço para soltar, de tanta gente", afirma o pintor Jonathan Paulo, 28. "Vai de criança de 5 anos até idoso."

Proibição em parques é pelas aves

As pipas não são uma preocupação apenas para a distribuidora de energia elétrica da capital, mas representam também um perigo para as aves. Apesar dos pedidos dos pipeiros, é proibido soltar o brinquedo dentro dos parques públicos da cidade, pois somente no ano passado, foram regatadas 71 animais atingidos por linha de pipa no município.

Diretora da Divisão da Fauna Silvestre da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, da gestão Bruno Covas (PSDB), Juliana Summa afirma que há um motivo bem evidente para que a prática seja vetada nos parques nos parques públicos do município. 

"A gente proibiu a soltura porque os parques são o último refúgio da fauna na cidade", diz Juliana. "Também proibimos o som alto nos parques, não apenas as pipas, pois esse período mais quente do ano é também aquele em que os animais fazem ninhos", afirma.

Juliana diz que é sensível à vontade das pessoas de empinar pipa durante as férias, mas que isso deve ocorrer em áreas abertas e sem risco aos animais. 

"Eu entendo, pois também empinei pipa quando era criança, mas também vejo como esses bichos acabam chegando para a gente", afirma. "Recebemos os animais maiores, como as corujas, com asas e patas cortadas. Eles ficam mutilados", afirma.

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