Descrição de chapéu Coronavírus

'Peguei o maledetto', escreveu pesquisador ao capturar o vírus

Cientista da USP conta que enviou mensagem para hospital assim que isolou o vírus da Covid-19

São Paulo

Os foliões ainda brincavam nos blocos de Carnaval quando o professor Edison Durigon, do ICB (Instituto de Ciências Biomédicas), da USP, recebeu a informação do Hospital Albert Einstein de que havia um paciente, vindo da Itália, possivelmente contaminado pelo coronavírus. Sem perder tempo, reuniu duas das suas principais pesquisadoras e começou o trabalho para isolar a amostra.

Três dias depois, mandou uma mensagem por WhatsApp para o doutor João Renato Pinho, do Einstein, com um texto simples e direto. “Peguei o maledetto! Foi bem isso o que eu escrevi”, afirma o pesquisador.

O maldito vírus que já matou mais de 215 mil pessoas no país tinha sido “capturado” pela equipe de Durigon, o que foi um tremendo avanço. “Pegamos a amostra, cultivamos e, em uma semana, já tínhamos vírus suficientes para distribuir para mais de 120 laboratórios do Brasil todo”, afirma.

O professor Edison Durigon, do ICB (Instituto de Ciências Biomédicas), que com sua equipe conseguiu isolar o coronavírus ainda em março do ano passado, entre outras contribuições dadas à ciência - Karime Xavier/Folhapress

Com o vírus “em mãos”, é possível, por comparação, a detecção de contaminados pelo exame RT-PCR, por exemplo. “Deu uma sensação de liberdade científica muito grande”, diz Durigon. Além dos vírus inativados, foram enviados outros exemplares para laboratórios de nível 3 de segurança, capazes de neutralizar o elevado risco individual de contágio. As pesquisas são feitas a partir deles.

Fora pegar o “maledetto”, Durigon e equipe estiveram envolvidos em outras ações, como testes com uso de plasma sanguíneo para aplacar os efeitos da Covid-19. O fato é que desde o início da pandemia o pesquisador tem perdido até macarronadas das quais tanto gosta para diminuir os estragos do coronavírus. “Não sei mais o que é sábado, domingo ou feriado”, afirma o pesquisador.

Sem trégua, a equipe segue fazendo o trabalho, com foco agora nas novas cepas, as perigosas variantes do coronavírus, que já deram as caras por aqui.

Faculdade de Medicina montou uma ‘trincheira’

Além de todas as demais áreas do conhecimento, a Faculdade de Medicina da USP, em parceria com o Hospital das Clínicas, também se destacou no combate à pandemia. Desde cedo. Ainda em janeiro de 2020, quando só havia casos confirmados na China, foi acionado um comitê de enfrentamento de crise. Os especialistas já sabiam do tamanho da tempestade que estava se aproximando.

“Resolvemos oferecer não só o aumento de leitos de UTI, mas um hospital inteiro. O Instituto Central do HC. Parecia uma ideia muito ambiciosa”, diz Aluisio Augusto Cotrim Segurado, do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias.

A desocupação do prédio para transformá-lo em um local específico para atendimento a pacientes com Covid-19 levou à transferência de 400 internados para outros locais. Também foi retirado o PS e levado para o Incor. De março a setembro, 5.000 pessoas em estado grave passaram por lá, graças ao esforço de todos os envolvidos. “A resposta que podemos dar só foi possível graças ao comprometimento institucional das lideranças acadêmicas e mais de 20 mil funcionários”, diz.

Segundo o professor da USP, alé m dos pacientes passaram pelo HC profissionais de outros hospitais que queriam vivenciar uma operação dessa magnitude.

Teste de máscaras feito na USP trouxe mais conforto e segurança

Mesmo com a vacina, as máscaras devem fazer parte da vida das pessoas por um bom tempo. Para tornar a vida mais segura e confortável dentro do possível, uma equipe da qual faz parte o professor Vanderley Moacyr John, da Escola Politécnica da USP, passou a testar todo tipo de material que dá forma ao equipamento de proteção. E isso orientou as escolhas de muita gente.

Em 15 dias, os cientistas do grupo de John já estavam testando as máscaras. “Do ponto de vista da universidade, ficou claro que precisamos ter estruturas ágeis, capazes de se reprogramar da noite para o dia”, afirma.Para fazer esse tipo de trabalho, setores de diferentes pontos da universidade começaram a trocar informações e apoio. Do Instituto de Física, veio a ajuda fundamental do pessoal que trabalha com o professor Paulo Artaxo.

Cruzando todas as informações, chegou-se à conclusão de que as máscaras triplas, feitas de TNT, eram as mais adequadas. Mas, na falta dela, é importante usar outra máscara, mesmo que de um material diferente, como a feita de algodão. Foram usados equipamentos que, normalmente, são empregados em física atmosférica, como a medição da poluição do ar.

Além das máscaras, entre os projetos dos quais John faz parte está um equipamento que facilita a pronação dos pacientes (faz com que fiquem deitados de bruços mais confortavelmente), medida importante na recuperação. Foram 300 dispositivos, com apoio da iniciativa privada.

Enfermeira vacinada já faz planos

A cara paulistana da Coronavac é de uma mulher negra, trabalhadora da saúde, nascida e criada na zona leste da capital. Braço levantado, punho cerrado, e uma expressão de vitória no rosto e na alma marcaram o dia 17 de janeiro na vida da enfermeira Mônica Calazans, 54, primeira vacinada no Brasil.

Mônica diz que tem como desejo algo comum a muitos paulistanos apaixonados pelo samba, para quando a vida voltar ao normal e aglomeração não for mais um risco à saúde. “Quero ir à quadra da Vai-Vai. Há muito tempo, tinha as festas do chope. Passava o Natal e a gente já marcava com minha tia e minhas primas”, conta.

A enfermeira Monica Calazans com um Sansão de pelúcia e quadro enviado por Mauricio de Sousa em sua homenagem
A enfermeira Monica Calazans com um Sansão de pelúcia e quadro enviado por Mauricio de Sousa em sua homenagem - Divulgação

A enfermeira que viu a vida mudar da noite para o dia por causa da vacina conta também, ironicamente, nunca visitou o Instituto Butantan. A vida inteira dela esteve sempre do outro lado da cidade, no Parque Cruzeiro do Sul, na região de São Miguel Paulista (zona leste).

É na vizinhança feliz da infância que ela tem o seu lugar do coração na capital paulista. A Escola Municipal Epitácio Pessoa não sai da memória. “Se falar outro lugar, estou mentindo”, conta a hoje moradora de Itaquera e torcedora do Corinthians.

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