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A bola é um detalhe: Tantã

Recuperação do São Paulo passa longe do mundo fantástico de Fernando Diniz e do Instagram de Daniel Alves

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São Paulo

Daniel Alves e Fernando Diniz são, cada um à sua maneira, desconectados da realidade. Se há enormes diferenças entre suas personalidades, a distância do bom senso os une no fracasso do São Paulo.

No caso do treinador, a quase loucura é quase sedutora. Como um Quixote a desafiar moinhos, ele insiste em um desastrado arrojo suicida e perde batalha após batalha, apegado a uma convicção que nunca lhe rendeu nenhuma glória.

O problema é que, diferentemente do engenhoso fidalgo de Cervantes, Diniz não arrasta apenas um fiel escudeiro a suas aventuras. Milhões sofrem quando ele trata odres de vinho como um gigante, Bruno Alves como um armador e a saída de bola como a grande musa.

Existe, ainda assim, um apelo nessa luta. A estratégia não faz sentido e o comandante guia seus soldados à derrota, mas ao menos ele o faz na tresloucada certeza do triunfo.

Fernando Diniz morre abraçado a suas esdrúxulas convicções, mas ao menos se importa com a vitória; Daniel Alves, nem isso - Rubens Chiri - 24.out.20/saopaulofc.net

Já Daniel Alves provoca bem menos empatia. O capitão é provavelmente o mais hábil membro do exército tricolor, porém simplesmente não dá a mínima para o resultado da peleja.

Esqueça as metáforas. Observe apenas que, na fase tenebrosa que vive o São Paulo, o experiente jogador se sentiu à vontade, dentro da própria área, para dar um passe para um lado olhando na direção do outro. Sorriu, vaidoso, como se estivesse humilhando o adversário.

O lance ocorreu quando o Inter já caminhava para fazer históricos 5 a 1 no Morumbi. No quarto gol colorado, depois de driblar o goleiro, Yuri Alberto tratou de devolver a galhofa.

"Dani" é o mesmo que, afastado por uma cirurgia no braço, publicou vídeo no pagode, usando o membro machucado para batucar animadamente em um tantã. O mesmo que deixou os inexpressivos Reinaldo e Juanfran explicando o massacre do Inter, enquanto pensava na gracinha seguinte a ser divulgada no Instagram.

O São Paulo se desprendeu da realidade quando foi tricampeão brasileiro, em 2008, e se declarou soberano. De lá para cá, nunca a reencontrou. Está na hora.

Marcos Guedes
Marcos Guedes

36 anos, é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e, como o homenageado deste espaço, Nelson Rodrigues, acha que há muito mais no jogo do que a bola, "um ínfimo, um ridículo detalhe". E-mail: marcos.guedes@grupofolha.com.br

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