Confira o que é real e o que é ficção no filme da Hebe

Produção é bem fiel à história, mas Roberto Carlos, joias e selinho foram adaptados

Cristina Padiglione
São Paulo

Em uma cinebiografia, que não é documentário e pode contar a vida de alguém movimentando tempo e espaço, nem tudo é o que parece ser. Quem acompanhou fielmente a trajetória de Hebe Camargo até o seu fim, em 2012, quando um câncer venceu a maior apresentadora de TV do Brasil, pode jurar que Roberto Carlos nunca pisou no palco do programa dela no SBT.

Essa é uma das grandes sequências do filme "Hebe - A Estrela do Brasil", que estreia hoje em circuito nacional de cinema. Na pele da loira, Andréa Beltrão anuncia "o Rei, Roberto Carlos", vivido pelo ator Felipe Rocha, cantando "Emoções". A ocasião corresponderia à estreia dela na rede de Silvio Santos, em 1986, pouco tempo depois de ter deixado a Bandeirantes.

 
Andréa Beltrão (Hebe Camargo) contracena com Felipe Rocha (Roberto Carlos) no filme "Hebe: a Estrela do Brasil" - Divulgação

A música, talvez o maior clássico do Rei, enche o auditório e a tela. O espectador se deixa embalar pelo olhar dela, que chega a chorar, e pelo famoso selinho ao final da canção, em cena entrecortada pelo doentio ciúmes do marido, Lélio Ravagnani, brilhantemente vivido por Marco Ricca.

Sem querer desapontar o público que vai ao cinema, é preciso dizer que este fato nunca ocorreu. No período retratado pelo filme, que faz um recorte de dois ou três anos da vida da apresentadora, por volta de 1985, Roberto Carlos já tinha contrato exclusivo com a Globo.

A emissora cedeu aos insistentes pedidos da apresentadora para entrevistar o Rei em duas outras ocasiões, em 1988 e em 2010 –nesta última, quando Hebe voltou ao ar após a primeira etapa de tratamento do câncer. Em ambas as entrevistas, Roberto não esteve no SBT, mas recebeu Hebe em uma gravação fora da emissora, o que aproxima a releitura do filme de uma relação de afeto e amizade absolutamente verdadeira. No segundo encontro, ele chegou a escalar seu maestro, Eduardo Lage, para tocar piano enquanto cantava para ela.

Assim, a cena fictícia pode até não ter acontecido como foi contada, mas é comum que cinebiografias recorram ao que roteiristas e diretores chamam de "licença poética", sem ferir a história verdadeira.

Ao colocar Roberto no palco de Hebe, a roteirista Carolina Kotscho ganha a chance de retratar aquela relação de modo mais emocionante aos olhos do espectador e, de quebra, insere no roteiro uma das passagens mais fortes do filme na abordagem da agressividade do ciúmes do marido Lélio. Como o longa faz um recorte de sua história, a ideia é sintetizar no script uma tradução de quem foi aquele furacão chamado Hebe Camargo.

"Eu não tirei nada da cartola, não tirei isso de um baú trancado, tirei tudo das entrevistas que ela deu", afirma a escritora.

O selinho que Hebe dá em Roberto Carlos ao final da cena também é um meio de informar à plateia que ela distribuía beijinhos à vontade, mas esse foi um hábito que só ganhou asas após a morte de Lélio, em 2000, fora do período retratado pelo longa-metragem.

Boa parte das joias mais caras ostentadas pela apresentadora no filme tampouco são da época. Embora muitas das peças usadas sejam autênticas, emprestadas pela família, nem todos os brincos, anéis e pulseiras correspondem ao seu início no SBT, onde ela começou a ganhar melhor graças ao merchandising que fazia durante o programa.

Vida real

É verdade, no entanto, que ela jogou o microfone no chão e se despediu da Band lamentando, no ar, não ter uma infraestrutura de produção à altura do que merecia.

É verdade que Dercy Gonçalves, vivida no filme por Stella Miranda, tirou os peitos para fora em pleno fim da Censura Federal, que teoricamente teria acabado, mas, na prática, não. As emissoras de TV continuavam prestando contas aos censores em Brasília. O único porém é que a Roberta Close não estava ao seu lado na ocasião, como o filme retrata.

É verdade que ela detestava gravar seu programa e afrontava seus chefes publicamente até conseguir de volta o microfone ao vivo, o que esta jornalista testemunhou em 1994, quando cobria o programa semanalmente, in loco, no auditório Silvio Santos no Carandiru, hoje fechado e abandonado.

E, principalmente, é verdadeira a representação daquela mulher cheia de paradoxos, que defendia os excluídos e zelava pela liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que declarava voto em Paulo Maluf, identificado com o governo militar que por anos promovera a Censura que ela tanto abominava.

Uma minissérie em dez capítulos sobre a vida de Hebe Camargo, desdobramento do longa-metragem, está programada para estrear na Globo em 6 de janeiro.

Cristina Padiglione
Cristina Padiglione

É jornalista e escreve sobre assuntos relacionados à televisão. Ela cobre a área desde 1991, quando a TV paga ainda engatinhava. Ela passou pelas Redações dos jornais Folha da Tarde (1992-1995), Folha (1997-1999) e O Estado de S. Paulo (2000-2016), entre outras publicações. Ela também tem o blog Telepadi (telepadi.folha.com.br), hospedado no site da Folha.

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