Mesmo sem custo, CET atrasa ciclovia da Domingos de Morais

Obra será construída e bancada por colégio, que aguarda o 'sim'

William Cardoso
São Paulo

Mesmo sem precisar gastar um centavo sequer e com projeto já aprovado em audiência pública desde março de 2018, a prefeitura ainda não implantou o trecho de 2 km de ciclovia entre o metrô Vila Mariana e a avenida Jabaquara (zona sul).

Mais que isso, a gestão Bruno Covas (PSDB) não se mobilizou para dar andamento à obra, segundo ofícios obtidos pela reportagem via Lei de Acesso à Informação. Os documentos oficiais, fornecidos após muita insistência, por meio legal, mostram que a prefeitura não cobra resposta oficial do responsável pela construção, o colégio Marista Arquidiocesano, há um ano e meio, desde 19 dezembro de 2017.

 

A instalação da ciclovia será feita e bancada pelo colégio, que é considerado pólo gerador de tráfego, como compensação por suas obras no passado. Basta apenas o "sim" da prefeitura.

O trecho entre o metrô Vila Mariana e a avenida Jabaquara é fundamental para conectar um eixo de ciclovias que se estende da zona sul até a região central.

Na gestão Fernando Haddad (PT), não foi autorizada porque havia obra do metrô na Santa Cruz, com estreitamento de pista. O trânsito, porém, está liberado na região desde o início de 2018, bem antes da abertura da linha 5-lilás, sem empecilho à construção da faixa exclusiva para bicicletas.

Como alternativa, ainda na gestão Haddad, foi implantada uma ciclovia no meio do bairro, um longo desvio com subidas, atualmente cheio de buracos e quase apagado. Apesar dos riscos, ciclistas optam por pedalar na parte plana do caminho, na própria Domingos de Morais, espremidos no tráfego.

Riscos

O autônomo Henrique Marques de Oliveira, 23 anos, conhece bem os perigos e até evita pedalar com a namorada em meio aos veículos na região. "É muito arriscado. O pior é que a construção da ciclovia se trata de uma continuação natural. Não é por falta de ciclista que deixam de construir", diz.

O analista de suporte Rubens Matsuda, 39, mora na Vila Mariana e trabalha no Paraíso. Com a extensão da ciclovia, ganharia cerca de 300 metros a mais de tranquilidade até em casa, sem o risco de ser atropelado. "Já deu tempo de terem feito o percurso completo aqui pela Domingos de Morais", fala.

Demora

A cicloativista Aline Cavalcante, do Ciclocidade, afirma que a ciclovia da Domingos de Morais é prioritária.

"Na própria câmara temática, a gente tem representantes da zona sul que cobram quase que mensalmente essa conexão, justamente por ser algo que já está pactuado com a sociedade, com audiências públicas, pedidos de comerciantes favoráveis, custos por parte do pólo gerador de tráfego e, mesmo assim, não é implementada", afirma.

Segundo Aline, não há motivo para tanta demora. "Dois anos fazendo arrumação de projeto para uma ciclovia é algo surreal. Uma coisa que a gente tem batido muito é que se criou uma burocracia para implementar uma infraestrutura tão barata e tão positiva como as ciclovias", diz.

Segundo Aline, até mesmo integrantes da câmara temática de transportes têm encontrado dificuldade para obter informações da prefeitura. "Os projetos e os planos ficam sempre no âmbito do discurso, sem sair do papel."

Necessidade

Quando passa pela rua Domingos de Morais, na Vila Mariana (zona sul), o publicitário Frederico Aguiar, 36 anos, se vê espremido entre carros e ônibus até a região da Saúde. "Claro que é necessário ter ciclovia. Para quem vem direto pela Vila Mariana, não vai nem descobrir que tem outra alternativa no meio do bairro", diz.


Informado sobre o fato de a prefeitura não ter que gastar um centavo sequer para a implantação da via exclusiva, Aguiar fica ainda mais revoltado. "Se nem tem gasto para prefeitura, não tem motivo para não fazer. Quem acompanha minimamente a política sabe que os atuais governantes ganharam justamente ao criticar ciclovias. Eles não fazem por birra." 

O engenheiro mecânico Edgar Marques Galo, 57, opta pela ciclovia alternativa, no meio do bairro, mas critica a volta que tem que dar. "É um contorno por um trecho todo irregular, malconservado e cheio de buracos."

Sem informação

Mesmo via Lei de Acesso à Informação, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) demorou cerca de dois meses para atender o pedido sobre a ciclovia: os ofícios e projetos relacionados à implantação, incluindo aqueles trocados com o colégio.

A solicitação foi registrada em 21 de fevereiro, mas permaneceu congelada até 1º de março, e foi encaminhada ao setor responsável só em 6 de março. Em 26 de março, a chefia de gabinete da CET pediu prorrogação do prazo para “obtenção dos dados”.

Em 5 de abril, a CET se negou a fornecer o que foi pedido. Após recurso de 1ª instância, o presidente da companhia, Sebastião Ricardo Martins, voltou a negar os dados.

Com recurso em 2ª instância, o mesmo pedido foi finalmente atendido pelo próprio Martins, em 25 de abril.

Resposta

A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) diz que o projeto para a construção da ciclovia está em fase final de aprovação, que a expectativa é que as obras estejam liberadas na segunda quinzena de maio e que a construção teve que aguardar o fim das obras de integração da linha 5-lilás do Metrô, entregue em setembro.

Diferentemente dos documentos fornecidos por seu próprio presidente via Lei de Acesso à Informação, a companhia diz que, após o fim dos serviços do metrô em setembro, o projeto foi apresentado pelos responsáveis pela obra, mas foi devolvido duas vezes para correções.

Segundo a CET, o projeto com as alterações é o que está em aprovação. A CET não respondeu o porquê da demora em fornecer as informações e nem por qual motivo o mesmo pedido foi negado primeiramente pelo presidente da companhia e entregue por ele mesmo duas semanas depois, após recurso.

O Colégio Marista Arquidiocesano diz que está em dia com as obrigações e que o projeto foi discutido em reunião presencial em fevereiro.

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