Atirador de elite precisa fazer cálculo de física e ter resistência

Em 32 anos de existência, grupo de snipers da Polícia Militar paulista participou de 700 ações

Alfredo Henrique

Para fazer parte do grupo de atiradores de elite da Polícia Militar de São Paulo é preciso resistência física para passar até 12 horas na mesma posição, saúde de ferro, concentração e equilíbrio psicológico. E também saber fazer cálculos de física.

Do total de 81.565 policiais militares ativos no estado, apenas sete reúnem todas as características exigidas para atuar como sniper da PM paulista. 

Sniper do Gate, o grupo de elite da Polícia Militar de São Paulo - Ronny Santos/Folhapress

"Para ser sniper, o policial precisa ter experiência, contar com uma mira acima da média, ser psicologicamente equilibrado e não ter vícios", explica o tenente Alcir Amorim Júnior, chefe da equipe de atiradores de precisão do Gate (Grupo de Ações táticas Especiais). 

O tenente afirma ser necessário no mínimo dois anos para um policial se tornar um sniper e que o treinamento é diário. 

"Formar um atirador de precisão demanda tempo, é muito complexo. A formação específica leva dois anos, mas chega a durar até cinco, desde o ingresso do policial no Gate", afirma. 

Para fazer parte do grupamento de elite, o candidato precisa já ser policial militar e prestar um concurso interno quando vagas são abertas. 

Após passar no teste, o policial precisa de no mínimo um ano para adquirir experiência na estrutura de gerenciamento de crise em ações com reféns, composta por negociadores, especialistas em técnicas não letais (como o uso de bala de borracha e bomba de gás), equipe de invasão e os snipers. 

As exigências são grandes, diz o chefe de atiradores, pois os snipers do Gate trabalham para não errar caso o atuação deles for requisitada pelo comando.

Fundado em 1987, o grupamento especial da Polícia Militar já realizou mais de 700 missões com a participação de atiradores de precisão, que resultaram em três mortes de suspeitos no estado de São Paulo, segundo informações do major José Luiz Gonçalves, comandante do Gate.

O comandante do Gate, major José Luiz Gonçalves, explica que todo sniper conta com um observador durante as ocorrências.

Os observadores também são atiradores de precisão, que ficam ao lado dos snipers para ajudar a calcular a trajetória do tiro. 

"Vale destacar que o sniper que está em uma missão pode ser observador em outra", afirma o major.

Segundo o tenente Alcir Amorim Júnior, o observador fica ao lado do sniper com equipamentos que calculam a velocidade do vento, a pressão atmosférica, a umidade do ar, além da distância em que a dupla de policiais está do alvo. 

"Com base nos cálculos, o atirador tem segurança para realizar o disparo", afirma o oficial da polícia. 

O tenente diz que já houve casos em que atiradores ficaram 12 horas de prontidão. Por isso, em momentos em que o alvo fica fora de mira, o observador mantém a prontidão para que o sniper possa descansar por alguns instantes. 

Sinal verde

Em 1997, um idoso embriagado mantinha o próprio neto refém, dentro de casa em Sapopemba (zona leste), usando uma faca e o Gate foi acionado.

Segundo o major José Luiz Gonçalves, comandante do Gate, o idoso estava transtornado, mas não era um criminoso. Por conta disso, o fuzil que um sniper portava foi trocado por uma carabina, arma com menos poder de fogo. "O 'sinal verde' foi dado para o sniper atirar. O disparo foi dado na mão do idoso, no momento certo, desarmando-o." 

O "sinal verde" é a autorização para que o atirador dispare. Segundo o major, ele foi dado no estado em cinco ocasiões. "Deste total, ocorreram três mortes. Mas ressalto que em mais de 90% dos casos obtivemos êxito com a negociação [que resultou a rendição de criminosos]", diz.

O tenente-coronel da reserva Diogenes Viegas Dalle, ex-comandante do Gate e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que o sniper compõe uma das quatro alternativas de uma equipe tática em uma ação com reféns: negociador, atirador, especialistas em técnicas não letais e em invasão. 

"O atirador busca posicionamentos até para ajudar nas negociações. Com sua luneta [mira] ajuda a verificar o semblante do tomador de reféns, e isso serve de elemento para dar força ao negociador", diz.

Dalle afirma que há momentos em que "alternativas enérgicas" precisam ser pensadas. "Quando o comando autoriza o tiro, o atirador decide o momento de disparar. Porém, nem todo tiro de sniper é para matar. O objetivo é preservar a vida e eliminar riscos." 

Mas já houve erros. Em março de 1990, ladrões invadiram uma casa na Pompeia (zona oeste) e fizeram a professora Adriana Caringi, 23 anos, refém. Um cabo da Polícia Militar, atirador de elite, posicionou-se e fez o disparo com um fuzil. A bala atravessou a cabeça do assaltante Gilberto Palhares e acertou Adriana, matando os dois. O PM foi condenado a dois anos de prisão.

No Rio

A atuação dos snipers ganhou notoriedade neste ano, quando Wilson Witzel (PSC) assumiu o governo do Rio, com o discurso que enaltecia os atiradores de elite. Na última terça (20), um sniper foi acionado no sequestro de um ônibus na ponte Rio-Niterói. Willian Augusto da Silva, que mantinha 39 pessoas reféns, foi alvejado por um atirador e morreu com seis tiros. 

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