Doença do pombo mata duas pessoas em Santos; entenda a criptococose

Vítimas estavam saudáveis e diagnóstico apontou a doença, que evolui rapidamente

Mariangela de Castro
São Paulo

Pouco conhecida pela população, a criptococose, também chamada de “doença do pombo”, provocou a morte de duas pessoas em Santos (72 km de SP), no último mês. As vítimas foram o cinegrafista Mauro Sérgio Gil, 43 anos, e o empresário José Wilson de Souza, 56. Apesar de grave, a doença não possui notificação obrigatória. 

Pombos na Santa Cecília (região central); na capital, lei proíbe dar comida a essas aves - Rivaldo Gomes - 8.jun.2018/Folhapress

Tanto Gil quanto Souza estavam saudáveis, comentaram suas mulheres que, até este ano, não tinham conhecimento sobre a doença. 

“Tudo começou muito de repente, o Mauro era bem ativo, até que um dia começou a sentir uma dor de cabeça forte e a reclamar que estava com a vista embaçada. O médico achou que fosse uma virose ou sinusite, receitou antibióticos, mas a dor não passava”, afirmou Maria Clotilde, 52, viúva de Mauro. 

No 4° dia de dor de cabeça, o cinegrafista apresentou vômitos e foi internado no Hospital Beneficência Portuguesa de Santos. 

Clotilde diz que as dores de cabeça estavam cada vez piores e os médicos pensavam que ele pudesse ter câncer no pulmão. 

Após 23 dias internado sem diagnóstico, Mauro teve uma convulsão, foi transferido para a UTI e, só então, os médicos diagnosticaram a criptococose.  Ele morreu em 23 de julho. 

Quatro dias antes, o empresário José Wilson de Souza, que também morava em Santos e teve a mesma doença, morreu. A mulher dele, Ana Lúcia Souza, 51 anos, diz que o marido começou a sentir dores de cabeça em março, e os médicos pensaram que ele estivesse com cefaleia aura. 

“Quando ele tomou remédios as dores de cabeça diminuíram um pouco, mas então ele começou a sentir formigamento nos braços, nas pernas e também na língua”, diz Ana.

Fungo

O infectologista Daniel Wagner Santos, membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia, diz que a criptococose é causada por um fungo que pode ser encontrado em fezes de pombos e troncos de árvores como jambolão e eucalipto.

“Estes fungos estão presentes em todas as regiões do Brasil e infectam os seres humanos em ambos os casos. O mais comum é que a doença afete pacientes com imunidade baixa, HIV em estágio avançado, transportados de rim e fígado ou com doenças autoimunes”, diz.

“Apesar de serem casos mais raros, pacientes sadios também podem adquirir a doença.”

Resposta

A Secretaria da Saúde de Santos diz que a criptococose não é doença de notificação obrigatória e, por isso, não há dados relativos.

A prefeitura diz que realiza ações educativas em escolas, empresas e espaços públicos para orientar sobre as medidas de prevenção, além das informações dos agentes comunitários e de combate a endemias em visitas e ações comunitárias.

No primeiro semestre, foram 116 fiscalizações com foco em pombos.


ENTENDA A DOENÇA DO POMBO

ALERTAS:
- A doença é grave e evolui em poucos meses 
-
Criptococose pode ser confundida com infecções cerebrais, como tuberculose cerebral, ou até com meningite bacteriana e outras infecções por outros fungos
- Não é uma doença transmitida de pessoa para pessoa

Causada por um fungo presente em todas as regiões do país, encontrado em:
1. Fezes de pombos
2. Tronco de algumas árvores, como jambolão e eucalipto

Como a doença afeta o corpo humano:
1. O fungo entra pelo pulmão, através das vias áreas
2. Se dissemina pelos órgãos até atingir o cérebro

- O paciente passa a apresentar intensas dores de cabeça, que não melhoram com analgésicos
- Alteração visual, diminuição do campo de visão
- Formigamento nos braços e nas pernas
- Quando a doença está muito progredida, o paciente pode entrar em coma

Principais atingidos pela doença: 
- Imunodeprimidas, com imunidade baixa
- Pacientes HIV em estágio avançado
- Transportados de rim, fígado e outros órgãos
- Pessoas com doenças autoimunes

Tratamento:
Realizado com medicamento antifúngico na veia por um período variado (podem ser dias ou semanas) e, depois, por medicação via oral durante um ano

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