Descrição de chapéu Grande SP

Rota do Frango com Polenta está próxima de chegar ao fim na Grande SP

Dos três enormes restaurantes aberto há décadas, apenas um se garante por mais alguns meses

Elaine Granconato
São Paulo

"Nunca desista de seu sonho... Esse foi o meu. Fioravante Morassi". O texto está na placa colocada por um ex-funcionário bem em frente a parede do caixa do tradicional Restaurante São Francisco, em São Bernardo do Campo (ABC), logo após a morte do fundador, em outubro de 2018, aos 82 anos.

No próximo dia 25, porém, a casa que há 57 anos integra a hoje decadente Rota do Frango com Polenta fechará suas portas definitivamente no Demarchi, bairro que recebeu famílias de imigrantes italianos.

Além da crise econômica, a desindustrialização da região e a queda do número de clientes estão entre as razões para o fechamento do São Francisco, o mais novo dos três restaurantes da família Demarchi e suas ramificações no bairro --Florestal e São Judas, esse último sucumbiu em 2016.

Para Dário Francisco Morassi, 60 anos, um dos quatro filhos do patriarca Francisco, a razão é outra. "É decisão particular da família, após a morte do meu pai", diz o também sócio.

Ali, Dário brincou, cresceu, virou "cozinheiro, não chef", como se classifica, e, aos 17 anos, teve sua primeira e única carteira de trabalho no local, onde se aposentou com 35 anos de tempo de serviço.

"Esse modelo de restaurante está ultrapassado", aponta Dário, referindo-se ao salão para atender até 2.500 clientes, que ficava lotado em um simples almoço de domingo nas décadas de 1980 e 1990.

Como bem se recorda o corretor de imóveis Genaldo Silva, 60 anos, frequentador assíduo do restaurante até hoje. "A festa de meu casamento foi aqui há 35 anos", diz, chateado pelo fim de uma tradição gastronômica.

A dúvida que fica é se o Florestal resistirá. "Até janeiro de 2020, pelo menos, estamos aqui", afirma Angelin Nini Demarchi, 81 anos, um dos sócios não favoráveis ao fechamento, sem garantir se o último restaurante da Rota do Frango com Polenta vai resistir por muito tempo e se vai ser o fim de uma tradição.

Frequentadores lamentam

O São Francisco sempre serviu de ponto de encontro mensal de funcionários aposentados da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, principalmente após o fechamento do São Judas Tadeu há três anos. Desalentados com a notícia de que restaurante frequentado atualmente também vai fechar, os fiéis clientes estão desolados.

"Vou fazer protesto na porta", brinca Paulo Carvalho, 72 anos, que trabalhou na área de recursos humanos da multinacional alemã, durante o almoço mensal na última quinta-feira (1).

Carvalho, que mora no Itaim Bibi (zona sul de São Paulo), se diz triste. "A nossa referência sempre foi aqui", afirma ele, que estava com outros seis ex-supervisores da empresa automotiva.

A Rota do Frango com Polenta foi ponto de encontro de políticos, principalmente os ligados ao Sindicato dos Metalúrgicos, e de pessoas que cresceram com o auge econômico do ABC.

Para um grupo de engenheiros aposentados da Volks, a última travessa de polenta frita tem data para ser servida, no próximo dia 22, quando eles prometem um almoço de despedida do local.

Palco de artistas

Quando deixou Caruaru (PE) há 37 anos para "tentar a sorte" em São Paulo, José Cavalcante, 66 anos, nem imaginava trabalhar no renomado restaurante que atraía gente de longe ao ABC, inclusive famosos, para consumir polenta frita com frango à passarinho.

"Os melhores eram Milionário e José Rico", diz Cavalcante, referindo-se à dupla sertaneja que tantas vezes se apresentou no São Francisco, onde ele trabalha há 30 anos --os restaurantes da rota também ficaram famosos pelos shows musicais que lotavam os salões.

Cavalcante desde sempre cuidou dos carros no estacionamento. "Nem todos davam caixinha", conta o pernambucano, triste com o desfecho do sonho realizado pelo ex-chefe Fioravante Morassi. 

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