Brasil tem 52 candidatos na fila para santo

Processo de canonização é longo e caro, o que explica o pouco número de santos brasileiros

São Paulo

O Brasil tem hoje 52 beatos ou bem-aventurados, aqueles que estão na fila para se tornarem santos, brasileiros natos ou que fizeram sua obra por aqui. 

Segundo o professor Fernando Altemeyer Júnior, chefe do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP, são poucos os candidatos a santo no Brasil, se compararmos com países europeus com menos habitantes, mas com mais história no catolicismo.

A estimativa é que sejam 11 mil santos em todo o mundo. "A Igreja reconhece os santos para ter exemplo de pessoas a seguir. Deve haver milhares que tenham exemplos de vida honesta, mas reconhecer um santo é um processo caro e demorado."

Dos 52 beatos que estão na fila para se tornarem santos, três deles passaram parte de sua vida em cidades da Grande São Paulo: madre Assunta e os padres Eustáquio e Mariano.

A fama de milagreiro do padre Eustáquio começou em Poá (Grande São Paulo), onde ele construiu uma gruta dedicada à Nossa Senhora de Lourdes, semelhante à que existe na cidade de mesmo nome, na França.

"A cidade chegou a receber 10 mil pessoas por dia para receber a bênção do padre Eustáquio", disse Delcimar Ferreira, coordenador do museu do beato, em Poá.

Madre Assunta cuidou de crianças em um orfanato na Vila Prudente, zona leste de São Paulo, e é considerada a mãe dos órfãos. Assim como os demais beatos, ainda é preciso mais um milagre para que ela seja considerada santa. "Já existem alguns casos com indícios de milagres [por intercessão da madre Assunta] sendo analisados", disse irmã Leocádia Mezzomo, postuladora da causa de canonização da madre Assunta.

Comissão vai acompanhar os processos

Para acompanhar os processos de canonização de santos brasileiros, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), da Igreja Católica, criou em setembro a Comissão Especial para a Causa dos Santos. 

"Estamos nos articulando para compilar as informações e para poder acompanhar todos os processos", disse dom Jaime Vieira Rocha, arcebispo de Natal (RN) e presidente da comissão.

Dom Jaime explicou que já existia um grupo dentro da comissão de liturgia que fazia o acompanhamento dos processos de canonização. Porém, o papa Francisco decidiu dar mais ênfase à causa dos santos e desmembrou o grupo, que iniciou os trabalhos em setembro de 2019.

Beatos que aguardam canonização

Padre Eustáquio van Lieshout (1890-1943)

Padre Eustáquio nasceu no vilarejo de Aarle-Rixtel, na Holanda, em 1890. De uma família de agricultores católicos, foi batizado como Humberto. Se juntou à Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e Maria e foi estudar na Bélgica. Em 1913 recebeu o nome de Eustáquio. Foi ordenado em 1919 e cuidou de igrejas em seu país. Em 1924 foi à Espanha para aprender espanhol para, posteriormente, ser enviado ao Uruguai, mas acabou vindo como missionário para o Brasil em 1925. Foi para Água Suja, hoje Romaria (MG), onde ficou por dez anos e fundou a Congregação dos Sagrados Corações no Brasil. Em 1935 foi transferido para Poá (Grande São Paulo), onde se dedicou ao cuidado de famílias e ficou conhecido por curar doentes. A fama de padre Eustáquio se espalhou pelo país e pessoas de várias regiões iam até ele em busca de suas orações de cura. Em 1942 foi enviado para Ibiá (MG), onde continuou sendo venerado como homem santo e curador. Em 1943, durante uma missa, padre Eustáquio passou mal e foi diagnosticado com tifo. Morreu em 30 de agosto de 1943 após receber a visita do amigo padre Gil. Em Poá foi construído um museu onde estão as relíquias do padre Eustáquio. O local fica na rua 26 de Março, 49, em Poá, e é aberto à visitação. Foi beatificado pelo papa Bento 16 em 15 de junho de 2006

Padre Inácio de Azevedo e 39 jesuítas (1526-1570). Conhecidos como os Mártires do Brasil

Inácio de Azevedo nasceu em Porto (Portugal) em 1526, e aos 22 anos entrou para a Companhia de Jesus. Foi enviado para o Brasil em 1566 para iniciar uma obra de evangelização. Ao constatar que precisava de mais voluntários, voltou a Portugal em 1568. O jesuíta retornou ao Brasil com mais de 70 voluntários em meados de 1570. No caminho, o barco em que ele estava foi atacado por protestantes contrários à evangelização feita pelos católicos. O padre Inácio de Azevedo e outros 39 jesuítas foram mortos como mártires. Eram 32 portugueses e oito espanhóis. Conhecidos como Mártires do Brasil, foram beatificados pelo papa Pio 9 em 11 de maio de 1854

Padre Mariano de la Mata Aparício (1905-1983)

Padre Mariano nasceu em 1905 em Puebla de Valdivia (Espanha) e Ordem de Santo Agostinho em 1921. Após ser ordenado padre, foi enviado em 1931 ao Brasil, onde viveu por 50 anos. Sua primeira igreja foi em Taquaritinga (SP) e também foi professor no Colégio Santo Agostinho. Padre Mariano é lembrado como o mensageiro da caridade por seu trabalho educacional entre os mais necessitados. Ele era um companheiro para jovens e idosos, especialmente para os doentes, que visitava com frequência. Em 1983 foi diagnosticado com câncer no pâncreas, foi operado para retirada do tumor, mas o câncer continuou a se espalhar. Ele morreu em 5 de abril de 1983, em São Paulo. Foi beatificado em 5 de novembro de 2006 pelo papa Bento 16

Madre Bárbara Maix (1818-1873)

A madre Maria Bárbara da Santíssima Trindade, conhecida como Bárbara Maix, nasceu em 1818 em Viena (Áustria). Aos 15 anos ficou órfã de pai e mãe. Em 1843 abriu uma pensão destinada a acolher moças desempregadas. Em 1848, com a revolução liberal em Viena que perseguiu a igreja e associações religiosas, Bárbara e um grupo de 18 religiosas decidiram deixar a Áustria. Elas pretendiam ir para a América do Norte, mas no porto de Hamburgo aportou um navio que iria para o Brasil e a madre entendeu que essa era a vontade de Deus. Desembarcou no Rio de Janeiro, onde fundou a Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. Depois foi para Porto Alegre com o objetivo de ajudar órfãos e doentes da guerra do Paraguai. Em alguns asilos onde serviu foi vítima de hostilidades, mas ofereceu perdão a todos. Morreu em 1873, em Catumbi (RJ), sentada em uma cadeira, com sorriso nos lábios. Foi beatificada em 6 de novembro de 2010 pelo papa Bento 16

Padre João Schiavo (1903-1967)

Nasceu em 1903 em uma aldeia de Montecchio Maggiore (Itália) em uma família cristã. Entrou na Congregação dos Josefinos de Murialdo e, após ser ordenado em 1927, trabalhou quatro anos na Itália e foi enviado ao Brasil, onde atuou em várias comunidades. Entre os frutos do seu trabalho no Brasil estão as obras dos Josefinos, a preparação religiosa de jovens padres locais e a formação do grupo brasileiro das Irmãs Murialdinas de São José, em Caxias do Sul (RS). Morreu em 1967 com fama de santo. Seu túmulo, no interior de uma capela que leva o seu nome, em Fazenda Souza, em Caxias do Sul, é local de orações e peregrinações. Foi beatificado em 28 de outubro de 2017 pelo papa Francisco 

Padre Manuel Gómez Gonzales (1877-1924) e coroinha Adílio Da Ronch (1908-1924)

Padre Manuel nasceu em 1877 em São José de Ribarteme (Espanha). Foi ordenado padre em 1902 e iniciou seu ministério em igrejas da Espanha e de Portugal. Veio para o Brasil em 1913 e atuou em igrejas do Rio Grande do Sul. Em Nonoai conheceu o coroinha Adílio, que o acompanhava em suas visitas pastorais que também incluíam índios da região. Em 1924, em meio à revolução gaúcha, padre Manoel e Adílio partiram para uma jornada missionária perto da fronteira do Uruguai. Apesar das tentativas de pacificação, eles foram mortos por militares em uma emboscada. Foram beatificados em 21 de outubro de 2007 pelo papa Bento 16

Leiga Nhá Chica (1808-1895)

Filha de uma escrava, Francisca de Paula De Jesus, mais conhecida como Nhá Chica, nasceu em 1808 em uma vila de São João Del Rey (MG). Ainda pequena se mudou com a mãe e um irmão para Baependi (MG) e aos 10 anos ficou órfã. Desde então, viveu sozinha dedicando seus dias à oração e ao cuidado dos mais necessitados. Quem se aproximava dela recebia orações, comida, consolo e conforto. Após a libertação dos escravos, em 1888, Nhá Chica decide não se casar e organiza reuniões diárias de oração em sua casa, que se transformou em local de peregrinação de pobres e ricos vindos de várias partes do Brasil que procuravam conforto espiritual. Recebeu como herança uma fortuna deixada por seu irmão, mas doou tudo aos necessitados. Guardou dinheiro apenas para construir uma capela dedicada à Imaculada Conceição. Morreu em 1895 e foi enterrada na capela que construiu. Foi beatificada em 4 de maio de 2013 pelo papa Francisco

Padre Donizetti Tavares de Lima (1882-1961)

Padre Donizetti nasceu em Cássia (MG) em 1882 e quando tinha 4 anos se mudou com a família para Franca (SP). Foi ordenado padre em 1908 e pastoreou várias igrejas do interior de Minas Gerais e São Paulo até chegar a Tambaú (SP), onde trabalhou por 35 anos. Fundou uma creche, um asilo e atendeu a necessidade dos operários da cidade. Na década de 1950 muitas curas foram atribuídas a ele através de sua bênção. Com a fama, as missas na igreja de São José ficaram lotadas e ele passou a pregar de um palanque. Sem condições de atender individualmente, tomou a decisão que no dia 30 de maio de 1955 seria a sua última bênção em público, mas prometeu que mesmo sozinho em seu quarto ele continuaria a rezar por todos. Após várias internações por complicações do diabetes e insuficiência cardíaca, padre Donizetti morreu sentado em uma cadeira na porta da casa paroquial de Tambaú em 1961. Foi beatificado em 23 de novembro de 2019 pelo papa Francisco

Leiga Benigna Cardoso da Silva (1928-1941)

Conhecida como Jovem Benigna, nasceu em 1928 em Santana do Cariri (CE). Ficou órfã ainda menina e foi adotada com seus irmãos. Religiosa e temente a Deus, fez a primeira comunhão e seguia os mandamentos divinos. Aos 12 anos começou a ser assediada por rapaz, mas rejeitou os pedidos de namoro. Um ano depois, já em 1941, após uma tentativa frustrada de estupro, o rapaz usou um facão para cortar os dedos, a testa, as costas e o pescoço de Benigna, que morreu. O assassino foi preso e condenado. Arrependido, voltou ao local do crime 50 anos depois e pediu perdão a Benigna. O túmulo da jovem se tornou local de peregrinação. O decreto de beatificação foi promulgado em 4 de outubro de 2019 e a cerimônia ainda será marcada pelo papa Francisco

Irmã Lindalva Justo de Oliveira (1953-1993)

Irmã Lindalva nasceu em 1953 no povoado de Sítio Malhada da Areia (RN) e, ainda criança, demonstrou o desejo de ajudar os mais pobres. Entre 1978 e 1988 trabalhou em várias lojas do comércio de Natal (RN), onde morava com um de seus irmãos. Ao cuidar de seu pai doente, decidiu fazer um curso de enfermagem e conheceu a ordem religiosa Filhas da Caridade. Passou a se dedicar à causa dos pobres e intercedeu para que um de seus irmãos parasse de beber. Em 1991, já em Salvador, foi ajudar no cuidado de idosos em um asilo. Em 1993, um homem de 46 anos que foi admitido no asilo começou a assediar Lindalva. Com as recusas, o homem matou Lindalva com 44 facadas. Foi beatificada em 2 de dezembro de 2007 pelo papa Bento 16

Madre Assunta Marchetti (1871-1948)

A madre Maria Assunta Caterina Marchetti nasceu em Lombrici di Camaiore (Itália) em 1871. Aos 24 anos aceitou o convite de um de seus irmãos para vir ao Brasil cuidar dos órfãos de imigrantes italianos, formando a ordem dos Servos dos Órfãos e dos Abandonados. Dedicou sua vida a meninos e meninas abandonados. Sofreu graves lesões nas pernas após uma visita a um doente, o que lhe causou anos de sofrimento. Morreu em um orfanato de São Paulo em 1948. Após a morte de madre Assunta, o orfanato se transformou em uma casa onde meninos e meninas carentes ficam no contraturno escolar. A casa preservou o quarto da religiosa, onde estão guardadas suas relíquias. No local também foi construída uma capela, onde estão os seus restos mortais. A Casa Madre Assunta Marchetti fica na rua do Orfanato, 883, na Vila Prudente. Foi beatificada em 25 de outubro de 2014 pelo papa Francisco


Padre Francisco de Paula Victor (1827-1905)

Filho de uma escrava, padre Francisco nasceu em 1827 Vila da Campanha da Princesa (MG). Apesar de os escravos serem impedidos de estudar, sua aspiração ao sarcedócio recebeu a ajuda de líderes religiosos e foi admitido no seminário de Mariana (MG), onde suportou a hostilidade e a discriminação dos colegas por ser negro. Foi ordenado em 1851, mas os brancos não aceitavam que um negro pudesse ser padre e se recusavam a receber a comunhão de um ex-escravo. Com isso, foi enviado a Três Pontas (MG) como vice-pároco, mas também não recebeu apoio da população. Mas com amor e paciência conquistou os paroquianos. Morreu em 1905, em Três Pontas, onde foi padre por mais de 50 anos. Foi beatificado em 14 de novembro de 2015 pelo papa Francisco 


Albertina Berkenbrock (1919-1931)

Albertina nasceu em 1919 em Imaruí (SC). Ainda pequena aprendeu a orar com grande devoção na fé católica. Na escola era exemplo para seus colegas e professores. Ela brincava com crianças pobres e dividia o seu pão com eles. Foi assassinada por um funcionário da fazenda de seu pai, que cortou seu pescoço após uma tentativa de estupro frustrada. Inicialmente o funcionário negou o crime, mas pessoas notaram que o corte no pescoço da menina sangrava toda vez que ele se aproximava. O funcionário tentou fugir, mas foi capturado e condenado. Na prisão, confessou o crime. Morreu em 1931 e foi proclamada como mártir pelos moradores da região. Albertina foi beatificada em 20 de outubro de 2007 pelo papa Bento 16

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