Postos de saúde e CAPs da cidade de São Paulo estão sem remédios psiquiátricos

Carbonato de lítio e risperidona estão em falta na capital. Medicamentos são de uso contínuo

Pacientes não conseguem retirar carbonato de lítio e risperidona, para tratamento psiquiátrico, nas UBS (Unidades Básicas de Saúde) e CAPs (Centros de Apoio Psicossocial). A falta dos medicamentos atinge postos de saúde de todas as regiões da capital paulista.

Segundo o psiquiatra Rodrigo Martins Leite, o carbonato de lítio é utilizado, principalmente, no tratamento de transtorno afetivo bipolar. Já o risperidona pode ser aplicado para tratar diversos transtornos psiquiátricos, como bipolar, esquizofrenia, demências e alguns casos de depressão.

A terapeuta ocupacional Laura Assoni reclama da indisponibilidade de medicamentos para tratamentos psiquiátricos na rede publica municipal de saúde - Rivaldo Gomes/Folhapress

Os pacientes que precisam do carbonato de lítio enfrentam a situação mais complicada. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, as empresas que fornecem o medicamento para a rede pública estão com dificuldade para encontrar a matéria-prima dele.

Segundo a gestão Bruno Covas (PSDB), 61 Caps e 454 UBSs e AMAs (Assistência Médica Ambulatorial) estão sem carbonato de lítio.

Essa ausência afeta pessoas como a terapeuta ocupacional Laura Assoni, 28, que tem transtorno afetivo bipolar. O carbonato de lítio é o "principal remédio para não entrar em crise", diz. Desde que começou a tomá-lo, em agosto de 2019, Laura só conseguiu retirar o medicamento em postos públicos uma vez e precisou comprar pelo menos seis vezes. Ela utiliza o carbonato de lítio continuamente. "Não tem como tomar mês sim, mês não".

Remédio alternativo em muitos casos, o valproato de sódio não é uma possibilidade para a terapeuta. Isso por causa das contraindicações. Ela utiliza outros medicamentos regularmente, gastando cerca de R$ 300 por mês.

De acordo com Laura Assoni, pacientes do seu local de trabalho que utilizam o risperidona, medicamento antipsicótico, também estão com dificuldades para encontrar o remédio. 

Preocupação

"É assustador trabalhar em um cenário que falta lítio e risperidona para os pacientes", afirma Rodrigo Martins Leite, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e mestre em políticas públicas e serviços de saúde mental pela Universidade Nova de Lisboa.

O carbonato de lítio é muito importante para a saúde mental. De acordo com o psiquiatra, o medicamento é utilizado para estabilização de humor e tem efeito anti-suicida a longo prazo. Segundo Leite, "a falta pode gerar desestabilização dos pacientes bipolares", gerando comportamentos de riscos como conflitos ou descontrole financeiro. É comum que pacientes tenham problemas físicos ou financeiros após um "episódio de mania", uma das fases do transtorno.

Segundo o psiquiatra, medicamentos anticonvulsivantes e o ácido valproico também estabilizam humor e são possíveis alternativas para o carbonato de lítio, mas são mais caros. Com as devidas prescrições médicas, o uso do ácido pode acontecer associado a um antipsicótico como o risperidona, que também está em falta na rede pública. 

A alteração de medicamentos pode "não funcionar como o lítio", explica o médico, pois alguns pacientes podem sofrer alguns efeitos colaterais.

Resposta

O risperidona está em "em processo de aquisição e com previsão de regularização em torno de 20 dias", afirma a a Secretaria Municipal de Saúde, gestão Bruno Covas (PSDB). Já o carbonato de lítio "está em falta devido a ausência de matéria prima dos fabricantes". 

Segundo a secretaria, três empresas fornecem carbonato de lítio para a rede: Biolab, Eurofarma e Hipolabor. A Biolab não se manifestou sobre o assunto. A Eurofarma diz que o desabastecimento ocorreu "pela interrupção momentânea do fornecimento de matéria-prima".

"A retomada está prevista para março de 2020. A Hipolabor disse que "nos próximos 30 dias, a meta é produzir 20 milhões de doses. Até o fim de abril, mais 30 milhões", diz.

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