Descrição de chapéu Interior

Parentes de menino mantido em barril dizem que estão recebendo ameaças

Tia da criança afirma que tanto ela quanto outros familiares estão sendo ameaçados por mensagem de celular

São Paulo

Parentes do menino de 11 anos encontrado acorrentado em um barril, sábado (30), em Campinas (93 km de SP), afirmam que estão recebendo ameaças, via mensagens de celular, desde a libertação do garoto pela Polícia Militar. O menino está internado.

Os familiares intimidados não moraram na mesma casa do garoto, no Jardim Itatiaia. O pai do garoto, um auxiliar de serviços gerais de 31 anos e sua mulher, uma faxineira, de 39, e sua filha, uma vendedora de 22 anos, foram presos em flagrante, por tortura. A Justiça determinou a prisão preventiva do trio, ou seja por tempo indeterminado, na tarde desta segunda (1º). A defesa deles não foi localizada até a publicação desta reportagem.

A tia que acompanhou o garoto até o Hospital Municipal Ouro Verde, para onde ele foi levado no sábado com sinais de desnutrição, afirmou ao Agora nesta quarta-feira (3) que a primeira ameaça foi enviada no mesmo dia que a criança foi retirada do barril de lata e levada para a unidade de saúde.

"Mandaram mensagens afirmando saber que eu estava no hospital e que estavam monitorando a saída e entrada de familiares [na unidade de saúde]. Não sei como conseguiram meu telefone”, afirmou.

Ela disse que foi chamada por telefone, por uma conselheira tutelar, para fazer o acompanhamento do sobrinho o qual, segundo ela, não via desde fevereiro do ano passado. Na ocasião, diz a parente, o garoto aparentava estar bem, diferentemente de quando foi libertado por policiais militares no sábado.

“Quando vi meu sobrinho [no ano passado] nem pude entrar na casa, fiquei no portão, onde fui atendida pela mulher de meu irmão, que não estava em casa”, afirmou a comerciante. Ela acrescentou que a cunhada não permitia sua entrada na residência, atendendo-a no porão, há cerca de três anos.

Segundo uma das mensagens enviadas à mulher, o suspeito afirma: "Isso não vai ficar assim, a população quer justiça! Estamos aqui na frente do hospital e a casa deles está sendo vigiada", diz trecho de uma das mensagens, se referindo ao local onde o menino era mantido no barril, no Jardim Itatiaia.

Até o genro da mulher, que mora em outra cidade, recebeu ameaças dirigidas à sogra. "A tia que foi ficar com a criança [no hospital] vai ser investigada. Estamos todos reunidos esperando, vendo quem entra e sai do hospital. Nessa noite [domingo (31)] dormiu lá uma senhora, certeza que é a avó. Assim que ela sair a gente vai investigar ela", diz trecho de mensagem dos suspeitos.

Ainda de acordo com a tia do menino, as intimidações foram enviadas até esta segunda-feira. Em uma delas, os suspeitos afirmam que "não interessa quem fez isso [manter o menino no barril], todos vão pagar."

Um menino de 11 anos foi encontrado acorrentado, dentro de um barril no último andar da casa onde vivia com o pai, madrasta, e meia-irmã, por volta das 16h30 de sábado (30), em Campinas (93 km de SP) - Divulgação/PM

Ainda na noite de terça, a comerciante foi ao 4º DP de Campinas, onde teria informado a um policial civil de plantão sobre as ameaças. “Falei que pretendia registrar um boletim de ocorrência sobre isso, mas o policial me desestimulou, falando que isso não iria resolver nada”.

Por fim, um termo circunstanciado de ameaça foi registrado na 1ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Campinas, sendo encaminhado ao 10º DP da cidade, que investiga o caso. "Testemunhas são ouvidas para auxiliar no esclarecimento dos fatos, diz trecho de nota da SSP (Secretaria da Segurança Pública), gestão João Doria (PSDB). A pasta acrescentou que caso algum policial se negue a registrar denúncias de crimes, a Corregedoria da Polícia Civil deve ser acionada.

Nesta terça-feira (2), o garoto foi transferido do Hospital Municipal Ouro Verde para o Hospital Mário Gatti, também administrado pela prefeitura, de onde teve alta nesta quarta-feira (3), segundo a Secretaria da Saúde de Campinas. O garoto foi encaminhado para um abrigo, segundo informado por uma assistente social a familiares.

A casa onde morava o menino foi invadida e vandalizada por pessoas, ainda não identificadas, na madrugada desta segunda-feira (1º). O caso, porém, não foi relatado às polícias Civil e Militar, segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública), gestão (PSDB).

Um tio do menino afirmou que soube da invasão do imóvel quando voltava para sua casa, perto de onde a criança vivia, acompanhado da filha de 10 anos. “Chegaram [vizinhos] falando que a casa [da vítima] estava toda quebrada e virada. Mas não fui lá ver o que aconteceu”, afirmou ele, que criticou a invasão da casa.

Sobre a prisão de seu irmão, ele afirmou que soube que seu sobrinho era mantido em um barril após o caso ser divulgado pela imprensa. “Eu imaginava que tinha problemas, como toda família tem, mas não da forma que foi divulgado”, afirmou.

Investigação

A Secretaria Municipal da Saúde de Campinas afirmou, na manhã desta quarta, que a criança permanece sob cuidados de pediatria. "Detalhes sobre estado da criança não serão fornecidos por se tratar de um menor de idade e em respeito ao sigilo médico", diz trecho de nota.

A Prefeitura de Campinas abriu uma investigação, nesta terça-feira (2), para verificar eventuais omissões e falhas de servidores públicos, além de entidades conveniadas, com relação ao caso do menino acorrentado ao barril de lata.

O prefeito Dário Saadi (Republicanos) afirmou que a medida foi tomada após o Conselho Tutelar Sul, que acompanhava o caso do garoto há mais de um ano, afirmar não ter detectado sinais de que a vítima era torturada. “Nas últimas informações que chegaram ao órgão, em dezembro de 2020 e janeiro de 2021, recebemos a notícia de que a situação da criança e da família vinha evoluindo bem e positivamente”, diz o conselho, em nota.

O Ministério Público de Campinas afirmou ter instaurado um procedimento pedindo informações sobre os atendimentos feitos ao menino e à sua família pelo Conselho Tutelar, especialmente em 2020, para verificar se eles foram realizados remotamente, em razão da pandemia da Covid-19, e sobre uma eventual suspensão de atendimentos presenciais à criança.

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