Famílias lutam contra a fome em mais de um ano de pandemia

Desempregados, pais e mães contam com as doações e a solidariedade para alimentar os filhos

São Paulo

“Só o básico.” É assim que famílias em situação de vulnerabilidade descrevem como tem sido a alimentação nos últimos tempos. Depois de um ano de pandemia, com diminuição da renda e aumento na conta do mercado a cada mês, elas relatam a dificuldade de colocar comida no prato.

Segundo Valéria Burity, secretária-geral da Fian Brasil (Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas), em 2018 havia 85 milhões de pessoas com algum grau de insegurança alimentar no país. Com a pandemia, isso se agravou.

A insegurança alimentar existe em vários graus, desde quando é necessário substituir um alimento por algo mais barato até quando as pessoas passam fome. Arroz, feijão e, às vezes, ovo ou salsicha para complementar têm sido o que essas pessoas conseguem comer. O alívio é quando recebem cestas básicas —que nem sempre duram até o próxima doação.

“Para garantir o direito à alimentação, é necessário reunir uma série de ações que não são só o acesso ao alimento, como a distribuição de cesta básica. É preciso garantir renda, trabalho, saúde e tudo o que precisam para que as pessoas possam se alimentar com autonomia. E esse é um direito que vem sendo violado”, afirma Burity.

Essa não é uma questão recente, diz Marcelo Cavanha, coordenador da Cufa (Central Única das Favelas) Jardim Ibirapuera, mas aumentou no último ano. Nesse contexto, a ideia de alimentação saudável deixa de existir para muitos. “O que essas pessoas querem é garantir o alimento, seja ele o que for.”

Todos os dias, afirma Cavanha, representante da Cufa, entidade que aceita e distribui doações, recebem fotos de geladeiras e despensas vazias. Com a queda da arrecadação, é feita uma “escolha desumana”: quem vai receber alimento.

A alimentação está diretamente relacionada à saúde mental e física da população, afirma a secretária-geral da Fian Brasil. “Quando você se alimenta, fica forte e, a partir daí, está com um corpo que te permite viver sua vida, ser quem você é e exercer os seus direitos.”

Saúde afetada

“Com a pandemia, a vida ficou mais difícil”, diz Letícia Carneiro, 32. Ela era cuidadora de idosos, mas ficou desempregada e conta só com R$ 200 do Bolsa Família e doações para sustentar, sozinha, cinco filhos. Sem renda, foram despejados de onde moravam e agora tentam montar barraco numa ocupação no Parque Santo Antônio, zona sul.

Na última consulta das crianças, o médico disse que uma delas estava com deficiência de vitaminas. Na despensa, ela tem itens de cesta básica que recebeu como doação, mas a previsão é de que os alimentos não durem mais que um mês.

“Como as coisas estão lá em cima, compro só o básico.” Para complementar, às vezes tem salada, salsicha e ovo. “A gente quase não liga para carne. O que tiver a gente vai fazendo.”

Enquanto a reportagem conversava com Letícia, uma das filhas cochichou que queria um doce. A resposta foi a negativa de sempre. “Quando a gente tem filho, quer dar o melhor para eles. Dizer só ‘não’ é muito ruim, você se sente incapaz.”

Casal e três filhos vive com apenas R$ 250 por mês

Depois de pagar as contas, o que sobra dos R$ 250 que a família de Carina da Costa, 40, recebe do Bolsa Família é o suficiente para “praticamente nada”. “De vez em quando compro uma cartela de ovo ou uma mistura que esteja em promoção. Está tudo caro.”

Carina e o marido, Moisés, estão desempregados e contam com doações para alimentar os três filhos. A mãe diz nem se lembrar quando foi a última vez em que comeu carne. Na última quinta-feira (25), o almoço teria frango —algo raro— com um molho “para render”.

Na segunda (22) foi o aniversário de uma das crianças, mas, sem comida em casa, nem bolo para os parabéns foi possível fazer. Uma saída que encontrou para melhorar a alimentação foi colher banana e chuchu em um terreno baldio nos fundos da casa, no Jardim Ibirapuera, zona sul.

“Fico com medo [pela saúde dos filhos devido à falta de comida]. Um deles pode estar fraco, pegar essa doença [a Covid-19] e não resistir.” A esperança da família é o retorno do auxílio emergencial, em abril.

Já Helena Leite, 41, não conseguiu continuar trabalhando como ambulante vendendo balas. Com doações e R$ 300 reais do Bolsa Família, ela tem que sustentar três filhos. “Para dar alimento aos meus filhos, eu vou para o mercado pedir, deixo eles em casa. É assim que vou mantendo eles.”

A pandemia alterou a quantidade do que comem. O feijão tem que render por mais tempo e só consegue comer verduras quando recebe no fim da feira.

Eu já nem sei mais o que é carne, diz mãe de 4 filhos

Com quatro filhas, o marido desempregado e ela também, Ivanna Cerqueira, 39, diz que a alimentação mudou desde na pandemia. “Eu já nem sei mais o que é carne.” Desde maio do ano passado, quando ainda trabalhava como auxiliar de limpeza, ela viu a renda cair: primeiro deixou de receber o vale refeição, depois perdeu o emprego.

As seis pessoas vivem com o Bolsa Família (cerca de R$ 200) e alguns trocados quando o pai faz um bico. “Eu queria ter mais para poder cuidar delas [filhas], dar uma alimentação boa. Porque o que elas pedem eu não tenho para dar.”

‘A gente já é pobre, mas não poder comer é triste’

“No dia que tem comida, a gente come. No dia que não tem, a gente se vira.” Assim vivem Beatriz Correa, 43, o marido e cinco filhos em Cidade Nova Heliópolis (zona leste). Na casa, as únicas rendas fixas são o Bolsa Família, de R$ 400, e o Cartão Merenda, de cerca de R$ 200.

Depois de pagar o aluguel de R$ 600, a prioridade para ela, sobra pouco para bancar as refeições. “Nossa comida mudou bastante. A gente já é pobre, mas não poder comer bem é triste. Hoje eu não compro o que eu gosto, eu compro só o necessário.” A sorte, ela diz, é que as crianças entendem a restrição.

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