Voltaire de Souza: O jipe do adeus

Voltaire de Souza

Luto. Pompa. Dignidade.
Um funeral comove o planeta.
Morre o príncipe Philip.
O sr. Marçal estava na frente da TV.
—Quem é?
A mulher dele se chamava Dorali.
—Sabe a rainha da Inglaterra?
—Hã.
—Marido dela.
Cânticos. Cortejos. Catedrais.
—Lindo, né, Marçal.
Um Range Rover verde levava o caixão.
—Bonito. Tão simples…
Dorali não reprimiu uma lágrima.
—Devia ter monarquia aqui também.
Ela pensou.
—Mas para mim… o rei é você, meu amor.
Não houve resposta.
—Marçal?
O marido caiu sem vida sobre o tapete de crochê.
Falência cardíaca.
—Se livrar da Covid… para morrer assim?
O Cemitério Sendeiro da Luz ficava na periferia da cidade.
—Ainda bem que encaixaram um horário.
Muitas covas esperavam a delivery do dia.
Dorali levantou os olhos.
—Nossa… chegou um jipe verde…
Ouviram-se mensagens pelo megafone.
—Terminou, pessoal. Vamos se despedindo.
Uma rajada de balas reforçou o argumento.
—Mas o que é isso?
Viatura camuflada. Propriedade do miliciano José Carlos.
—Não é Range Rover. Mas dá para o gasto.
Um diadema de chumbo alojou-se na testa de Dorali.
E quem achar ruim que tome cuidado.

Homens de terno preto carregam caixão branco, com flores brancas
Luto. Pompa. Dignidade. Um funeral comove o planeta. - Pixabay
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