Aumenta o tempo de espera para o atendimento do Samu

Período entre a solicitação e chegada da ambulância ao local da ocorrência é de 36 minutos

Leonardo Zvarick
São Paulo

Os atendimentos de emergência do Samu têm demorado mais apesar da reorganização das bases do serviço pela gestão Bruno Covas (PSDB). Em abril, o tempo médio entre a solicitação do serviço e a chegada da ambulância foi de 36 minutos em toda a cidade, contra 32 no mesmo mês do ano passado. Isso representa um aumento de 13% no tempo de resposta.

A reorganização foi anunciada pela prefeitura com o pretexto de descentralizar o serviço, realocando funcionários para outras unidades de saúde existentes, como UBSs (Unidades Básicas de Saúde), AMAs (Assistências Médicas Ambulatoriais) e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). Com isso, a administração municipal pretendia levar o serviço a áreas de maior demanda, diminuindo a distância entre equipes e usuários.

Dados da Secretaria Municipal de Saúde, obtidos pelo Agora via Lei de Acesso a Informação, mostram que o resultado ainda não foi alcançado. O tempo médio de resposta do Samu teve alta nos quatro primeiros meses deste ano, e em abril atingiu o maior patamar dos últimos quatro anos.

O levantamento considera somente os atendimentos de prioridade 1, quando há risco de vida e o paciente deve ser encaminhada imediatamente a uma unidade hospitalar. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que os chamados do tipo sejam atendidos em até 12 minutos.

Em abril, quatro das cinco regiões de São Paulo registraram alta na espera por ambulâncias. Na zona sul, esse aumento foi de quase 60%: o tempo médio saltou de 25 minutos, em 2018, para 40 minutos neste ano.

Já na região centro-oeste, a demora ultrapassou os 41 minutos, com alta de quase 28%. A única região em que as ambulâncias chegaram mais rápido no mês foi a leste, onde o tempo caiu de 36 para 32 minutos --redução de cerca de 11%.

O Samu tem cerca de 1.200 ocorrências diárias, sendo que metade recebe equipes de socorro. Ao todo, 40% dos atendimentos realizados pelo serviço são casos de alta gravidade, como traumas, ataques cardíacos e problemas respiratórios. Em ocorrências do tipo, quanto maior a espera, menores as chances de sobrevivência do paciente.

A piora nos resultados em 2019 contrasta com o número de socorristas. Segundo dados da prefeitura, havia 104 profissionais trabalhando no Samu em março de 2018. Neste ano, o número subiu para 134.

Faltou equipe no Butantã para socorrer mãe e filha

Na madrugada de 23 de maio, o Samu não atendeu a ocorrência da mulher que atirou a filha do quinto andar e pulou em seguida, no Butantã (zona oeste), por falta de equipes na região.

Um médico que trabalhava como socorrista naquela noite disse que em sua base, na Cidade Universitária (zona oeste), havia duas ambulâncias, mas nenhum motorista disponível.

"O motorista da minha equipe estava de folga e não foi substituído, e o outro que estaria no plantão adoeceu e não pode ir. Ficamos a madrugada inteira sem poder trabalhar por conta disso", disse o médico, que pediu para não ser identificado na reportagem.

Segundo o socorrista, havia somente sete equipes para toda a região oeste na ocasião. "Pedi para a central remanejar algum motorista para a minha base, mas não havia ninguém".

Quando o socorrista ficou sabendo do caso, por meio de uma colega, a sensação foi de angústia. "Eu tenho experiência, vivência, conhecimento e capacidade de ajudar, mas não pude atendê-la, mesmo estando tão perto", desabafa.

A criança e a mulher foram atendidas por uma unidade do corpo de bombeiros. A mulher está internada e a menina, de 3 anos, não teve ferimentos graves.

Especialista critica o sucateamento das bases

A inadequação das novas bases é uma das hipóteses levantadas por trabalhadores e especialistas ouvidos pela reportagem para o aumento no tempo de resposta do Samu.

A professora da Faculdade de Saúde Pública da USP Marília Cristina Louvison diz que se esses locais não tiverem estrutura adequada, podem impedir a entrada e saída de viaturas com prontidão, por exemplo. "O que mais impacta no tempo resposta é o sucateamento das equipes e unidades móveis", disse a médica

Uma auxiliar de enfermagem que trabalha no serviço disse que na unidade para a qual foi transferida, na zona leste, esse é um dos problemas do local. "Descaracterizou a urgência e emergência do serviço".

Ela diz que também é comum receber chamados com grandes atrasos da central. "Ontem mesmo, peguei um caso com 18 minutos de atraso". disse.

Inadequações nas bases foram reconhecidas recentemente tanto pelo sindicato dos trabalhadores do Samu quanto pela prefeitura em relatórios. Além de pátios com dificuldade de manobras, há locais em os funcionários têm que percorrer longas distâncias até as ambulâncias, o que reflete na agilidade do atendimento. 

Resposta

Para a gestão Bruno Covas (PSDB), não existe correlação entre a reorganização do Samu e o maior tempo de resposta. Segundo Marcelo Takano, coordenador de regulação da Prefeitura de São Paulo, os números de abril foram inflados pelos movimentos grevistas ocorridos durante o mês.

A prefeitura reconhece, no entanto, que havia uma tendência de maior demora do serviço em 2018, motivo pelo qual propôs as mudanças. "Esperamos melhoras nos próximos meses, com a implementação de um novo sistema de monitoramento de equipes", disse Takano.

O coordenador nega inadequações nas bases e afirma que todas já atendem requisitos mínimos para operação. "Temos agora uma oportunidade para agregar melhorias", disse.
 

Takano afirma que um dos fatores que levam à maior demora é o intervalo entre um serviço e outro. "Estamos fazendo um trabalho de auditoria para identificar quando uma equipe retarda a sua liberação. Se esconder do atendimento caracteriza insubordinação", disse o médico, ressaltando também a importância uma melhor interlocução da central de atendimento com o usuário. "Precisamos nos comunicar melhor e acolher quem aciona o serviço". 

Assuntos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.