PMs trocam farda por roupa de herói para alegrar pacientes

Policial, que se veste de Capitão América, montou 'Liga da Justiça' de hospitais

Elaine Granconato
São Paulo

A farda dá lugar à fantasia. Assim, alguns policiais militares do estado de São Paulo deixam de lado a rotina de combate ao crime para levar alegria e diversão a crianças e adolescentes internados em hospitais. Nas horas de folga, os super-heróis, literalmente, invadem quartos, corredores e enfermarias na guerra da paz.

No comando da operação especial de resgate de sorrisos há cinco anos, Capitão América, o herói que tem dupla identidade e atende também pelo nome de Luiz Carlos de Paula, 51 anos, cabo no 1º Batalhão da Polícia Militar na capital.

Recentemente, o Capitão América contribuiu no sonho do palmeirense Henrique da Silva Leite, 13, de conhecer o técnico Luiz Felipe Scolari. O super-herói gravou um vídeo com o pedido do garoto e postou nas redes sociais.

Não só Felipão, mas vários jogadores do time paulista foram visitar Henrique, que estava internado no Itaci (Instituto de Tratamento do Câncer Infantil), vinculado ao Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

"Não tem nada mais gratificante", diz o policial, com brilho nos olhos e que na pele do Capitão América tem nova missão pela frente. Desta vez, é da são-paulina Brenda Alves Pereira da Silva, 13 anos, que faz tratamento contra leucemia no mesmo hospital, e quer conhecer o atacante tricolor Antony. "É meu sonho", afirma a paciente, cercada de vários super-heróis.

Entre os quais, Batman, o cabo Paulo Magalhães Castro, 32, que pertence ao mesmo batalhão, e outros parceiros civis.

"É meu recruta", brinca o Capitão América, com um escudo igual ao do personagem dos quadrinhos.

Na equipe de voluntários, Batman atua há quase dois anos. "A gente percebe diante de tanto sofrimento das crianças o quanto são pequenos os nossos problemas", afirma.

"São muitos os policiais que fazem trabalhos sociais, mas poucos conhecem. Por trás da farda, tem pessoas do bem", diz Batman, pai de Paulo Filho, 5, e que aguarda a chegada de mais um garoto em novembro.

Hospital

De repente, a porta do quarto se abre e a turma do Capitão América aparece para a alegria de Luiz Antônio Mo­raes Carita, 2 anos, filho do policial militar Leonardo Costa Carita, 35, e da técnica em química Delayne dos Santos Moraes, 33.

O menino tampa o rosto com as mãozinhas para brincar com os super-heróis. Logo depois, pula para dentro do carrinho motorizado levado pelo Capitão América para uma supervolta no corredor do hospital. 

Depois é a vez de Davi Assis Gouveia, 5 anos, de São Lou­renço (MG), vibrar com a in­vasão dos super-heróis no quarto do hospital. 

Torcedor da seleção brasileira no futebol e fã da Liga da Justi­ça, Davi não se acanha em responder a pergunta do Ca­pitão América. "Qual é o mais poderoso?", questiona, ao apontar para o restante da turma. "O Homem-Aranha", diz Davi, na lata, para decep­ção do líder do grupo.

PM baleado

De nove cápsulas disparadas, três acertaram em cheio o policial militar Luiz Carlos de Paula, quando ele voltava de motocicleta para casa e sofreu tentativa de assalto em um semáforo na noite de 22 de março de 2012. Dos 40 dias de internação, ao menos em quatro deles ficou entre a vida e a morte.

"Deus, eu quero a minha vida de volta e vou fazer valer a pena", prometeu de Paula, ainda quando lutava a favor da vida no leito do hospital, após os tiros que atingiram o abdômen, as costas e o fêmur direito.

Deu certo, mesmo sido obrigado a se afastar por três anos da corporação e longas sessões de fisioterapia. "Tudo mudou em minha vida", conta de Paula, que quando moleque era fã do Capitão América e fazia da tampa do balde da mãe o seu escudo.

Hoje, presenteia cada criança que visita nos leitos com o escudo oficial do super-herói americano. "Toma conta dele direitinho. Você só me devolverá na alta do seu tratamento", diz Capitão América.

Oncologia

Alessandra Prandini de Azambuja, 41 anos, médica oncologista pediátrica e que atua na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Iraci (Instituto de Tratamento do Câncer Infantil), do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, defende as ações de voluntariado e de humanização no tratamento de pacientes com câncer, principalmente quando o público-alvo é por crianças e adolescentes.

"Muitos dos pacientes oncológicos têm longas internações, além das sessões de quimioterapia que debilitam. Quando você traz alegria às crianças com ações externas e muda a rotina, sem dúvida, que auxilia no tratamento", afirma a profissional.

Assim como os pacientes mirins internados com problemas oncológicos ou hematológicos no hospital, Alessandra também se encantou com a mais nova aquisição de Capitão América no tour fim do mês passado: a viatura, com direito à sirene e controle remoto (para o policial dirigir), que a criança pode sentar e se divertir pelos corredores.

Polícia Civil

A Polícia Civil também tem seus heróis. Que dirá Aparecido dos Santos Oliveira, carinhosamente chamado como Cidinho, 13 anos, que, recentemente, realizou por algumas horas seu sonho de ser policial.
E tudo graças a equipe da Delegacia de Polícia de Morro Agudo (380 km de SP).

Cidinho tem epidermólise bolhosa, doença genética e hereditária que forma bolhas e lesões na pele. Do interior da Bahia, faz tratamento no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (313 km de SP).

Por conta da doença, tem várias limitações, mas nada que o impeça de desenhar e jogar videogame mesmo com a perda das duas mãos.

E muito menos de sonhar. "O Cidinho é força e de inspiração para gente superar a nossa difícil missão de policial", diz o delegado titular João Baptistussi Neto, 55.

Assim que os policiais souberam do desejo do garoto, não tiveram dúvida. "O Cidinho andou na viatura, com sirene, pelas ruas da cidade, e até colocou nosso colete.

Gesto simples, mas que muito significou para ele, com suas limitações", conta o escrivão Reinaldo Ferreira de Sousa, 35 anos, um dos idealizadores da ação solidária. Ao todo, dez policiais, inclusive uma escrivã, participaram.

Capitão América

Além de Capitão América e Batman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha e Gamora chegaram em um trenzinho, puxado pelo triciclo do Capitão América.

"Todo mundo pode ser um herói na vida de alguém", diz a dona de casa Luciana Bispo, 43 anos, que leva duas horas para ganhar a pele verde da guerreira da galáxia Gamora.

Não foi o caso da Mulher-Maravilha, a bancária Rosana Almeida de Paula, 46, que se trocou no carro. Mas é o Homem-Aranha, na pele do universitário Rhamon Rosa, 18, que faz mais sucesso.

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