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Médicos se unem para reformar hospital onde se formaram

Grupo com mais de 100 ortopedistas banca reforma de quarto em Jundiaí (SP)

Elaine Granconato
São Paulo

De um grupo de médicos e residentes no aplicativo de mensagens de WhatsApp nasceu a ideia, como forma de reconhecimento à instituição, de juntar dinheiro para bancar a reforma de um quarto no Hospital de Caridade São Vicente de Paulo, de Jundiaí (58 km de SP), que atende pelo SUS.

No total, 104 ortopedistas de várias partes do país, como São Paulo, Tocantins, Espírito Santo e Paraíba, além da própria cidade do hospital, juntaram dinheiro para custear a reforma de um dos 72 quartos, que correspondem a 238 leitos. 

A partir de uma vaquinha, a equipe da ortopedia, entre médicos atuantes, residentes e ex-residentes do hospital filantrópico, juntou R$ 61.503, cota correspondente à revitalização completa do quarto, com direito ao banheiro.

Os ortopedistas Dr. Itibagi Rocha Machado, Rogerio Savoy e Marcelo Munhos, que fazem parte do grupo de médicos que fez uma vaquinha para bancar a reforma de um quarto no Hospital de Caridade São Vicente de Paulo, em Jundiaí (SP) - Rubens Cavallari/Folhapress

"Somos oriundos da residência médica no hospital, que nos ensinou e ajudou na nossa formação profissional. Foi uma forma de gratidão", afirma o hoje coordenador médico do serviço de ortopedia e traumatologia do São Vicente, Marcelo de Azevedo e Souza Munhoz, 51 anos, que se formou pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, parceira do hospital.

No mesmo caminho do hoje coordenador está a residente Jéssica Rezende Isobe, 28. "Me apaixonei pela matéria logo de cara, especialmente por gostar da área cirúrgica", conta.

A mineira de coração nascida em Fernandópolis (553 km de SP) também fez sua doação no projeto de revitalização. A futura médica ressalta os benefícios para o paciente alojado em um quarto com conforto.

"Ele já está debilitado, quando bem acolhido e cuidado, a recuperação será muito melhor", afirma.

O primeiro quarto foi revitalizado por um grupo de dez arquitetas e entregue como modelo em 2 de julho --fica na ala de internação da clínica médica feminina. 

Com 22 metros quadrados, o apartamento teve troca das partes hidráulica e elétrica; paredes revestidas e pintadas; pisos e azulejos trocados, entre outras melhorias realizadas. 

Cada leito ganha iluminação individual. E os quartos recebem televisão, ar-condicionado e kit leito (cama elétrica, régua multifuncional, divisória, bandeja e poltrona de acompanhante). 

Atualmente, sete passam por reforma e tem previsão de entrega na segunda quinzena de setembro. Os demais no próximo ano, de acordo com as doações.

Em 117 anos de vida, o Hospital São Vicente de Paulo tem seu primeiro projeto para captação de recursos junto a parceria privada ou pessoa física para a reforma dos quartos.

Para o superintendente do hospital, Matheus Gomes, 40 anos, é um legado que ficará para os próximos anos. "O prédio tem 117 anos e passou por puxadinhos e reformas paliativas ao longo dos anos", diz

A reforma dos 72 quartos custará R$ 6 milhões, divididos em cotas de doação. A ação segue até 30 de junho de 2020

A unidade é referência em atendimentos de urgência e alta complexidade na região de Jundiaí. Em 2018 foram realizas 7.000 cirurgias no local. 

O hospital, que enfrenta diariamente problemas de superlotação como as demais unidades médicas públicas no país, é uma escola para médicos. Nascido no próprio hospital há 70 anos, desde 1976 Itibagi Rocha Machado é professor titular de ortopedia na Medicina de Jundiaí. Ele conta que em 1989, a residência médica de ortopedia era introduzida no hospital. De lá para cá, em torno de 150 médicos foram formados na residência. 

“Exatamente esses que hoje contribuem nesse projeto. Eu até me emocionei”, conta o ele que introduziu as subespecialidades de ortopedia ali e trabalha junto do ortopedista Eduardo Gomes Machado, 41 anos, chefe da equipe de quadril e seu filho. 

Exemplo

A dupla Chitãozinho e Xororó foi a primeira a fazer doação para reforma de um dos 60 quartos de internação na Santa Casa de Valinhos (85 km de SP), quando o hospital lançou a campanha Solidariedade Tem Nome, ainda em 2008.

O nome da dupla, inclusive, está estampado em um dos quartos das alas B e C, reformados com padrão de hotelaria, assim como dos demais doadores. Todos já foram entregues.
Agora, nova campanha, batizada como Apaixonados por Saúde, prevê revitalizar os 32 leitos da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) adulto.

A Santa Casa de Marília (435 km de SP) seguiu o mesmo caminho: Atualmente, 60 apartamentos estão para adoção.

O presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo, Edson Rogatti, 68 anos, diz que o caminho para sobrevivência das instituições de filantropia que prestam atendimento do SUS (Sistema Único de Saúde) é o investimento em projetos e campanhas para captação de recursos junto à comunidade.

Hoje, 56% dos atendimentos em geral prestados nos hospitais filantrópicos são SUS, percentual que sobe para 70% nos casos de alta complexidade, como cardiologia e oncologia, segundo o dirigente, que também é administrador hospitalar.

No país, são 2.176 instituições filantrópicas de saúde, das quais, 515 em São Paulo. Segundo estudo realizado na Câmara Federal, o que o governo paga cobre 60% dos custos. "Os 40% restantes vêm da comunidade", aponta.

Rogatti, porém, faz uma recomendação. "Quando se envolve a população, a transparência dos gastos é fundamental", diz.

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