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Equipamento quebrado deixa cadeirante fora da sala de aula em SP

Conselheiros, colegas e responsáveis dizem que deficientes de escola municipal ficam no pátio

Mariangela de Castro
São Paulo

O carro escalador que leva cadeirantes às salas de aula em andares superiores da Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Celso Leite Ribeiro Filho, na Bela Vista (centro), está quebrado há mais de um ano, segundo dizem o conselho de pais, os responsáveis por estudantes com deficiência e outros alunos do colégio.

Todos afirmam que sem o equipamento, os cadeirantes têm ficado no pátio, sem subir às classes e sem aulas regulares. A reportagem teve acesso a fotos e vídeos destes alunos no pátio. 

"Eles passam o horário letivo isolados dos outros alunos", diz o conselheiro Wellington Souza.

A diretora regional de ensino do Ipiranga, Marta Malheiros, nega que alunos fiquem sem assistir aula. Segundo ela, sem o carro que sobe a escada com os cadeirantes --que ela confirma ter problemas--, eles são levados pelos auxiliares até as salas. "Não é o ideal, mas é o possível", diz.

A aposentada Stela Alves da Silva, 68 anos, avó de Luan de Araújo, 12, aluno cadeirante da sexta série da escola, afirma que o neto "fica o dia inteiro sozinho no pátio". "Quando chega em casa, me pergunta quando ele vai conhecer os coleguinhas de classe", diz.

O garoto, segundo ela, foi apenas um dia à escola na semana passada.

O estudante Luan de Araújo, 12 anos, ao lado da avó, Stela Alves da Silva, 68; sem subir à sala de aula, garoto diz que não conhece colegas de sua classe na escola municipal da Bela Vista (centro), segundo ela - Rivaldo Gomes/Folhapress

Na sexta-feira (20), a Secretaria Municipal de Educação enviou ao Agora uma foto de um cadeirante em sala de aula da escola, com o rosto borrado. A aposentada reconheceu o neto pelo cachecol e diz que a imagem é de 2018. A diretora regional rebate e afirma que é do mês passado.

A Emef tem 1.060 alunos matriculados, dos quais 44 são deficientes --três são cadeirantes. 

Na escola municipal, há apenas uma professora de atendimento educacional especializado e três ajudantes de vida escolar. 

Malheiros admite que o número "não é suficiente". "Precisamos de duas [professoras], mas essa segunda a gente não está conseguindo contratar", afirma.

Sala reformada fica com degrau e porta estreita

Em 2017, os pais pressionaram para que a sala de recursos multifuncionais da escola da Bela Vista fosse transferida do primeiro andar para o térreo. 

Essa reforma começou em maio deste ano e a sala foi entregue no início de agosto. Porém, segundo o conselheiro Wellington Souza, o espaço tem "uma série de defeitos". 

A sala tem um degrau na entrada e as portas não foram alargadas para passagem de cadeiras de rodas.

O único banheiro adaptado na escola está com barras de apoio irregulares, sem ducha higiênica. além de pia e espelho altos demais, segundo Souza. 

Para a iconógrafa Gabriela Araújo, 29, mãe de uma aluna de 3 anos com déficit de atenção, a Emef "parece depósito de crianças".

Relatório de 2017 alertou para problemas do colégio

Um relatório assinado por pais e professores da escola da Bela Vista, enviado em dezembro de 2017 à Diretoria Regional de Educação do Ipiranga, já alertava para os problemas de acessibilidade, que foram descritos no documento como "barreiras que impedem a implantação de uma educação inclusiva de qualidade". 

Na época, a escola tinha 48 alunos com necessidades especiais, sendo que sete eram cadeirantes.
Sobre o carro escalador, o relatório apontava que cada aluno levava cerca de dez minutos para acessar os andares superiores. Assim, o transporte de cadeirantes começava às 14h e terminava somente às 15h10. 

O documento apontou que o carro não tinha segurança --o relatório mostrou uma aluna presa por um pano ao equipamento.

Na resposta, dois meses depois, a diretoria afirmou que houve a visita de um engenheiro à escola e que a proposta para instalação de um elevador havia sido aceita.

Especialista afirma que é preciso mais

Leda Maria Rodrigues, professora do Departamento de Fundamentos da Educação da PUC-SP, afirma que é "impossível" um professor especializado cuidar de tantos alunos com necessidades especiais. 

A professora Rosângela Prieto, da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo), diz que, segundo a legislação brasileira, um professor especializado deve cuidar de, no máximo, 20 alunos.
Rodrigues defende que as escolas devem trabalhar a convivência "de alunos atípicos com crianças típicas", e também fornecer um auxílio direcionado às crianças com alguma deficiência. 

"Esse tipo de inclusão que só junta todo mundo na mesma sala ou exclui completamente os que não têm acesso é mais barato, mas não é efetivo", diz. 

Segundo ela, no caso de um cadeirante não conseguir acessar uma sala de aula no primeiro andar de uma escola, por exemplo, toda a turma deveria necessariamente ser transferida para o térreo.

Nesta segunda-feira (23), após o Agora questionar a falta de acessibilidade da escola duas vezes na semana passada, uma classe inteira teve aula no pátio com o colega cadeirante.

Resposta

O secretário municipal de Educação, Bruno Caetano, afirmou que vai visitar a Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Celso Leite Ribeiro Filho, na Bela Vista (centro). 

"Tomei conhecimento do caso, achei tudo completamente absurdo e decidi visitar o local para entender quais a principais medidas que precisam ser tomadas."

A diretora regional do Ipiranga, Marta Malheiros, diz que o carro escalador está quebrado há quase um ano, mas não de forma contínua, e que até o fim desta semana um novo equipamento será instalado.

Ela também afirma que durante o último ano os estudantes não ficaram sem assistir às aulas, pois foram levados por auxiliares às salas de aula. No entanto, ainda segundo ela, não foi emitido nenhum pedido de autorização aos pais dos alunos para que seus filhos fossem carregados.

Sobre o relatório de pais e professores, Malheiros afirma que não teria como responder a respeito de um documento de 2017. 

Hoje, ela afirma que há 11 estagiários na escola que acompanham todas as salas com alunos deficientes. E que a diretoria ainda não conseguiu contratar uma segunda uma professora de atendimento educacional especializado, mas que está em busca da profissional.

Ela também afirma que a sala de recursos será entregue ainda nesta semana e que as adaptações nas portas e degraus já foram realizadas, faltando alteração nas janelas e pinturas.
 

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