Livro narra como Suzane ganhou respeito na cadeia

Autor pesquisou durante três anos a vida da jovem condenada por matar os pais

Alfredo Henrique
São Paulo

Os detalhes de como uma jovem com semblante assustado, bonita, rica, branca e parricida --responsável pela morte dos próprios pais-- conseguiu ascender no ambiente completamente hostil da cadeia são narrados em um livro a ser lançado até o fim deste ano.

"Suzane von Richthofen" é o resultado de três anos de pesquisas do jornalista Ulisses Campbell sobre o caso, tempo usado para a realização de entrevistas com 56 pessoas que conviveram diretamente com a detenta mais polêmica do país.

O próprio autor falou três vezes com a mulher que, aos 19 anos, arquitetou a morte dos pais, ajudada pelo namorado e pelo cunhado, os irmãos Cravinhos.

"Quando foi presa, Suzane não era aceita por outras detentas", diz Campbell.

"Mas com o passar dos anos, ela se tornou respeitada. O livro conta sobre como ela conseguiu essa ascensão na cadeia", diz o autor que guarda a sete chaves os detalhes de tudo que ouviu e escreveu --ele revela poucos detalhes do livro.

O jornalista Ulisses Campbell, que vai lançar o livro "Suzane von Richthofen"; obra traça um perfil da mulher condenada pela morte dos pais - Rivaldo Gomes/Folhapress


Campbell afirma que Suzane foi muito perseguida por outras presas em seus primeiros anos de cadeia, inclusive por detentas ligadas à facção PCC (Primeiro Comando da Capital).

A estratégia para ela reverter seu status de perseguida para o de respeitada ao longo de 17 anos de cárcere, segundo o jornalista, foi com uso de inteligência. "Ela é espertíssima. Suzane conseguiu o que quis e sempre deu um jeito de reverter a situação quando era hostilizada", diz.

A obra de Campbell joga luz sobre a ascensão de Suzane na cadeia, mas também usa como pano de fundo o crime arquitetado por ela e executado pelos irmãos Daniel, ex-namorado dela, e Cristian Cravinhos. Ambos mataram os pais de Suzane, quando as vítimas dormiam, usando barras de ferro.

Encontros

Apesar dos três encontros com a presa mais famosa do Brasil, em nenhum deles ela concedeu entrevistas a Campbell. Um fator determinante para isso foi a religião da condenada. 

Segundo o autor, Suzane não queria falar sobre a sua espiritualidade. Ela disse que só daria entrevistas se não fosse perguntada sobre religião. "Mas falei com ela que isso não seria possível. Então, ela se negou a ser entrevistada para o livro", relembra o jornalista. 

O livro, com cerca de 300 páginas, será publicado pela editora Contexto. O preço da obra não foi divulgado.

Detenta é contra contarem a história de seu crime

O jornalista Ulisses Campbell diz que Suzane afirmou a ele não concordar com a produção de livros e filmes que falem do crime que ela cometeu contra os pais, Manfred e Marísia von Richthofen. Mesmo assim, ele encarou o desafio 

"Tive uma conversa honesta com a Suzane, que disse não lidar bem com o que ela fez", afirma. 

Além do livro de Campbell, dois filmes serão lançados simultaneamente no primeiro semestre do ano que vem sobre o duplo assassinato. "A Menina que Matou os Pais", que contará o crime na perspectiva de Suzane, e "O Menino que Matou Meus Pais", baseado na visão dos irmãos Cravinhos, que executaram o crime planejado por Suzane.

Parte do livro de Campbell resulta de depoimentos de Suzane feitos a psicólogos do sistema carcerário. "É um material precioso, em que a Suzane abre o coração sobre o que pensa sobre o crime que cometeu", adianta o jornalista. 

Já os filmes, ambos dirigidos por Maurício Eça, são inteiramente baseados nos autos do processo que condenou o trio a quase 40 anos de prisão. 

Os roteiros dos filmes exploram as contradições dos depoimentos dos Cravinhos e de Suzane.

Planos são o de montar uma confecção

Não há previsão para Suzane von Richthofen, atualmente com 35 anos, sair definitivamente da cadeia. Porém, ela adiantou ao jornalista Ulisses Campbell, segundo ele, que, pelo fato de ter aprendido a costurar na prisão, pretende abrir uma confecção de roupas.
 

Suzane, no entanto, já teve algumas amostras de liberdade por conta das saídas temporárias que tem direito desde que progrediu para o regime semiaberto, em 2015. 

Ela, inclusive, deixou a cadeia no dia 10, beneficiada pelo Dia das Crianças --com base na Lei de Execuções Penais, presos do semiaberto podem ficar fora das grades até 35 dias por ano.
 

Suzane já tentou três vezes conquistar o direito de cumprir o restante de sua pena em liberdade. Porém, não passou em testes psicológicos, que a classificaram como "narcisista", "desvalorizadora do ser humano" e "manipuladora", segundo documentos obtidos pelo autor do livro e mostrados à reportagem do Agora.

Capítulos de uma história

2002

  • Manfred e Marísia von Richthofen são mortos em casa na noite de 31 de outubro
  • Em 8 de novembro Suzane, Daniel e Cristian Cravinhos confessam  o crime e são presos 

2006

  • Suzane e Daniel  são condenados a 39 anos de prisão e Cristian, a 38

2014

  • Em outubro Suzane “se casa” com Sandra Regina Ruiz Gomes, condenada por matar jovem de 14 anos em sequestro

2015

  • Em 22 de outubro Suzane conquista o direito de cumprir pena no regime semiaberto

2016/2019

  • Suzane namora e fica noiva de um evangélico e também se converte
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