Descrição de chapéu Zona Norte

Prefeitura de SP acaba com mais de 100 vagas em escola de circo

Projeto na zona norte oferece atividades culturais e esportivas a crianças e adolescentes carentes

Crislaine Tomaz
São Paulo

O Circo Social Vila Penteado, na Vila Penteado (zona norte de São Paulo), projeto da Secretaria Municipal de Assistência Social, teve reduzido na segunda-feira (7) de 444 para 317 o número alunos atendidos nas diversas atividades culturais e esportivas oferecidas gratuitamente no local. 

Inaugurada há 35 anos, a unidade conta com aulas de teatro, circo, artes plásticas e esportes para crianças e adolescentes com idade entre 6 e 17 anos, nos períodos da manhã e tarde, de segunda a sexta-feira. No local também são oferecidos café da manhã, almoço e lanche da tarde.

O corte de vagas pela gestão Bruno Covas (PSDB) foi recebido com espanto pela coordenadora do circo, a assistente social Paula Lusa Soares, 59 anos, que afirma estar na unidade desde a sua inauguração. 

"Não houve qualquer diálogo com a coordenação para a tomada dessa decisão", diz ela, a respeito do comunicado feito em 12 de agosto sobre as reduções que começaram a valer nesta semana. A coordenadora conta que ao todo foram tiradas 127 vagas, considerando que o circo estava com 44 alunos matriculados a mais. 

O Circo Social Vila Penteado, na zona norte da capital, teve 127 vagas para crianças e adolescentes cortadas na última segunda-feira (7); no local há atividades culturais e esportivas de graça - Rivaldo Gomes/Folhapress

Segundo Paula, o argumento dado a ela foi de redução de custos --a unidade é administrada por uma organização social.

Segundo ela, uma norma técnica diz que precisam ser atendidas pelo menos 85% das atuais 400 vagas da unidade (total de 340), mas que a secretaria não considerou a metodologia do registro de frequência adotado no lugar --que leva em conta a situação dos alunos-- para definir a redução.

"São crianças muito carentes, que às vezes não têm um par de tênis para vir à aula em dia de chuva, por isso acabam faltando", diz.

O critério principal para continuar no projeto foi fazer parte de família beneficiada pelo Bolsa Família. Em seguida, ter sido encaminhado por redes de apoio, como Conselho Tutelar. Estrutura familiar e renda per capta também acabaram considerados nos cortes.

Atividades são importantes, diz pedagoga

Para a pedagoga Maria Angela Barbato Carneiro, 72 anos, coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da PUC-SP, atividades artísticas são fundamentais para o aprendizado e desenvolvimento, em especial nas fases da infância e adolescência. 

Ela afirma que diferentemente do aprendizado no ambiente escolar, onde os alunos convivem com teorias, as atividades culturais permitem a eles ter uma relação mais direta com situações do cotidiano. 

"O aprendizado ganha um novo significado para os alunos", afirma.

A falta de espaços para atividades culturais, segundo Maria Angela, além de impedir o desenvolvimento da criança, faz com que ela fique com tempo ocioso e sem supervisão de adultos.

"Estas crianças tornam-se presas fáceis para o crime quando são impedidas de ter acesso a vivências que podem levá-las a um futuro mais promissor", afirma.

"Do ponto de vista econômico, quando se deixa de investir em cultura, permite-se que crianças se aproximem da criminalidade", afirma a especialista.

Menina passa a tarde com a avó

A estudante Melissa Santana, 8 anos, que estava matriculada desde março na escola de circo da zona norte, foi uma das alunas que tiveram a vaga cortada. 

"Está sendo muito triste ficar longe do Circo Social, pois lá eu aprendia muitas coisas", afirma a menina, que cursa o ensino fundamental no período da manhã e nos últimos meses ocupava as tardes frequentando a oficina de artes plásticas do circo, de segunda a sexta-feira.

A estudante Melissa Santana, 8 anos, com a avó Celina Santana, com quem tem passado as tardes desde que perdeu a vaga em projeto social na Vila Penteado - Rivaldo Gomes/Folhapress

Com tempo ocioso à tarde, Melissa tem ficado com a avó, a costureira Celina Siqueira Santana, 69. 
A professora Cleide Santana, 39, mãe da menina, lamenta a situação, pois desde que iniciou as atividades no Circo Social, a garota desenvolveu uma paixão pelas artes.

"A oficina de artes plásticas é a que ela mais gostava e estava sempre feliz fazendo seus desenhos", diz.
Além de lidar com a tristeza da filha, a família ainda teve de mudar também a rotina da avó da criança. 

"Ela costura em casa e agora, sem ter onde deixar a Melissa, ela acabou ficando responsável por mais essa tarefa, pois não tenho como levar minha filha para o trabalho", afirma.

Resposta

Em nota, a Secretaria de Assistência Social, da gestão Bruno Covas (PSDB), diz que não haverá corte no número de crianças atendidas pelo Circo Social Vila Penteado. Segundo a pasta, as "readequações referem-se ao número de vagas ociosas, isto é, pagas pelo município, mas não ocupadas pela população". 

"Trata-se de uma medida para promover melhor eficiência dos gastos públicos, sem prejudicar as crianças já atendidas no programa", afirma a nota.

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