Frequentadores de bailes funk dizem que vão a festas sem estrutura atrás de diversão

Desafio é equacionar a diversão dos jovens com os transtornos causados a moradores

São Paulo

Quem pensa que música alta é o que mais irrita os moradores e o que mais atrai jovens a um baile funk desconhece a realidade de quem mora em uma favela e tem poucas opções de diversão ou condições de viver em um local tranquilo. 

A morte de nove jovens em Paraisópolis (zona sul), em 1º de dezembro, levantou a discussão sobre o que atrai milhares de meninos e meninas a pancadões sem estrutura na periferia. 

Para especialistas, eles estão atrás do que toda juventude quer: diversão, independente de onde vivem.
A reportagem ouviu jovens em Paraisópolis e na Brasilândia (zona norte) e todos disseram querer só encontrar amigos e se divertir, o que eles definem como beber, beijar, 'sarrar' (quando meninas e meninos se esfregam) e dançar.

"A gente não tem dinheiro para baladas fechadas. Então a gente vai para a rua, compartilha a bebida e sarra com os meninos", diz uma adolescente de 16 anos.

Baile funk no bairro do Capão Redondo, zona sul de São Paulo em setembro de 2015
Baile funk no bairro do Capão Redondo, zona sul de São Paulo em setembro de 2015 - Jardiel Carvalho/R.U.A Foto Coletivo

Alguns admitem que o ambiente facilita o acesso às drogas, como maconha, e ao sexo sem proteção. E, para isso, os becos das favelas são o cenário perfeito.

Sem a estrutura de eventos que contam com apoio público ou privado, estes locais escuros acabam usados como banheiro a céu aberto. E é ali que jovens fazem sexo e se drogam.

Uma moradora de Paraisópolis disse que para inibir o acesso a alguns becos foram colocados portões. E foi justamente em um deles que adolescentes supostamente acabaram encurralados por policiais militares na madrugada do dia 1º e morreram pisoteados.

"Não é só o barulho que incomoda. É o lixo que fica, o cheiro de urina e ver jovens transando da janela da sua casa", disse a moradora.

Em Heliópolis, também na zona sul, a situação não muda muito. Segundo levantamento do Observatório de Olho na Quebrada, da Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), o baile é considerado uma referência, um ponto de encontro.

Ao todo, 79 jovens foram ouvidos em julho --80% deles disseram já ter ido ao menos uma vez a um pancadão e 75% deles presenciaram violência policial. E como consequência dessa repressão o baile em Heliópolis se tornou itinerante. 

A comunidade pretende discutir uma forma de equacionar os transtornos causados e a diversão.

‘Se tem palco, melhor, se não a gente canta no chão’ 

Moradores e frequentadores dos bailes funk da Brasilândia reconhecem que a realidade deles não vai mudar se não houver intervenção do poder público e organização, em vez de repressão policial.

Thiago Souza Gomes, 22 anos, o MC THS, e David Leal, o MC Deive, 22 anos, admitem que os bailes incomodam moradores, mas também sabem que são a opção de lazer mais barata. 

“É claro que tem droga e sexo. Mas não dá para olhar só o lado ruim, pois os jovens não têm diversão na periferia”, afirmou o MC THS, que aproveita os bailes para mostrar o seu talento como cantor.

“Quando o baile é organizado, com palco e estrutura, é melhor. Mas se não tem a gente canta no chão mesmo”, afirmou o MC Deive.

O técnico em refrigeração Denis da Silva, 22 anos, vai quase todo fim de semana ao baile funk para se divertir com pouco dinheiro, pela curtição e para “ganhar as minas”. “Eu gosto do funk mesmo. Me divirto no baile.”

O vendedor Gerson Lopes, 45 anos, disse entender as dificuldades de quem mora na Brasilândia e a falta de lazer do jovens. Por isso, defende que seja organizado. “Se for em um local apropriado e com horário definido é melhor”, afirmou.

O líder comunitário Henrique Deloste, 52 anos, também defende a organização dos bailes. Um deles será realizado neste domingo. (RS)

O objetivo é  o mesmo das outras classes

O sociólogo Gerson de Moraes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirmou que os bailes funk têm uma série de atrativos para os jovens da periferia, assim como as baladas fechadas, as raves e os shows para onde jovens de classe média e alta vão. Ou seja, eles procuram a mesma diversão só que em ambientes diferentes.

"Eles [os jovens da periferia] encontram nos bailes a mesma aglomeração, paquera, sedução, tudo o que tem em qualquer outro lugar que o jovem de classe média frequenta", disse. "O problema está na distinção que a gente faz dos comportamentos e de como o que acontece na periferia é criminalizado", afirmou o professor Moraes.

Para o advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos), apesar de os bailes serem clandestinos, não tem mais como proibir os adolescentes de ir, pois acontecem na rua. Segundo ele, é preciso estabelecer limites e regras para preservar a integridade física dos jovens e dos moradores.

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