Operação em Paraisópolis não seguiu nenhum protocolo, dizem especialistas em segurança

Apesar de treinados, policiais não souberam lidar com a multidão

São Paulo

A Polícia Militar de São Paulo, apesar de ser uma das mais bem treinadas do país, aparentemente não agiu em Paraisópolis de acordo com protocolos de abordagens em locais com multidão. A opinião é de especialistas em segurança pública ouvidos pelo Agora sobre a ação policial que resultou na morte de nove jovens no domingo (1º).

O governador João Doria (PSDB) disse nesta segunda (2) que a política de repressões aos pancadões não irá mudar, mesmo após as mortes em Paraisópolis.

Os especialistas ressaltam que se o objetivo da ação era prender suspeitos, como divulgado pela Polícia Militar, usar armas não letais, como bombas de efeito moral, e confinar milhares de pessoas não foi a melhor estratégia. Isso porque a chance de criar um dano maior é grande, como de fato ocorreu.

"Os PMs de São Paulo não são mal preparados. Pelo contrário, recebem excelente treinamento sobre como agir em manifestações. Isso nos leva a concluir que a operação não seguiu nenhum protocolo e teve o resultado que teve", afirmou o advogado Ivan Marques, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Segundo Marques, os vídeos sobre a ação policial compartilhados nas redes sociais mostram um "comportamento criminoso" de policiais ao confinar milhares de jovens, e não a ação de homens treinados para agir em multidões.

"Se a ação era para ir atrás de criminosos, não se faz isso soltando bombas e atirando diante de uma multidão. O ideal era investigar e prender no momento adequado. A execução da estratégia [policial] foi mal feita", afirmou Marques.

O atual Manual de Controle de Distúrbio Civil, que contém os protocolos de ação policial quando há multidão, são classificados como sigilosos pela Polícia Militar. Porém, o de 1997, disponível na internet, diz que “o objetivo principal da tropa” é a “dispersão da multidão, não sua detenção ou confinamento”. Para isso, é necessário deixar rotas de fugas desobstruídas.

A socióloga Giane Silvestre, do NEV (Núcleo de Estudos da Violência), da USP (Universidade de São Paulo), disse que, embora a investigação sobre  o caso ainda esteja sendo feita, as mortes indicam que a ação policial em Paraisópolis foi fora do protocolo de segurança para grandes eventos "pelo resultado trágico que tivemos".

"Os protocolos são pensados para saber o momento de agir e de não agir e para que a vida e a segurança das pessoas sejam preservadas, e não tenha desfecho fatais como tivemos", afirmou Giane.

O sociólogo Ignacio Cano, do LAV (Laboratório de Análise da Violência), da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), ressaltou que a ação da PM em Paraisópolis foi "exatamente o contrário do adequado" para grandes multidões. "É preciso considerar os riscos quando se tem multidões, pois o dano pode ser maior do que o que se tenta evitar", afirmou.

A Secretaria Estadual de Segurança Pública disse em nota que a Corregedoria da Polícia Militar solicitou o inquérito instaurado pelo 16º BPM e apura todas as circunstâncias do fato. Disse ainda que os policiais envolvidos na ocorrência foram transferidos para serviços administrativos e suas armas foram encaminhadas para a perícia.

Segundo a secretaria, a Polícia Civil também instaurou inquérito, que foi enviado para o DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa), e os policiais que atuaram na ocorrência já prestaram depoimento.

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