Mulheres garantem renda com confecção de máscaras de pano

Uso da proteção individual para evitar contágio do novo coronavírus foi liberado pelo governo

São Paulo

Quando o Ministério da Saúde liberou o uso de máscaras de tecido como mais uma medida contra o novo coronavírus muitas pessoas viram na confecção dessa proteção individual uma forma de conseguir uma grana extra em meio à crise provocada pela pandemia. Ainda era início de abril e muitos brasileiros já estavam vivenciando o desemprego ou a redução nos salários. E a confecção de máscaras foi a esperança.

A artesã Lilian Meire Ribeiro Rodrigues, 42 anos, mostra as máscaras de tecido que começou a fazer depois que o marido teve a jornada e o salário reduzidos pela metade devido à pandemia do coronavírus - Ronny Santos/Folhapress

A artesã Lilian Meire Ribeiro Rodrigues, 42 anos, estava acostumada a fazer enxovais para bebê no seu ateliê em São Bernardo do Campo (ABC), o Lilica Decora. Mas como o marido trabalha em uma agência de turismo, teve metade do salário e da jornada cortados. Então, era hora de agir.

“As contas continuavam chegando em valores integrais, e não pela metade. Então vi que algumas pessoas estavam fazendo máscaras para vender. E como tenho máscara e sei costurar, achei que era uma oportunidade”, afirmou Lilian, que foi até o ateliê e trouxe equipamentos e materiais necessários para trabalhar em casa.

Somente no primeiro fim de semana de abril Lilian vendeu 26 máscaras a R$ 8 cada. Os primeiros clientes foram os amigos que anunciaram para outros amigos.

“Nunca imaginei passar por uma pandemia dessa e costurar máscaras para proteger pessoas de um vírus. Mas esse trabalho vai ser uma boa ajuda neste mês”.

A professora Maria Ribeiro, 42 anos, e a irmã dela, a costureira Maria do Carmo Ribeiro, 52 anos, também estão fazendo máscaras para garantir o sustento da família.

A ideia de fazer as máscaras surgiu depois que a professora viu na página do bairro onde moram, também em São Bernardo do Campo, uma pessoa perguntando quem fazia máscara de tecido. Como a irmã costureira estava parada, pois foi dispensada do trabalho, ela percebeu ali uma oportunidade. Elas já venderam cerca de 150 peças a R$ 8 cada.

“Graças a Deus está dando certo. Muitos amigos estão nos apoiando, oferecendo nossas máscaras”, disse.

Costurando

O distanciamento social forçado fez com que os planos do projeto Costurando Sonhos, que capacita mulheres em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, fossem completamente alterados. A proposta inicial de produzir sapatos de tecidos deu lugar à confecção de máscaras de contra o novo coronavírus.

Segundo a idealizadora do projeto, Suéli do Socorro Feio, os contratos com algumas empresas foram alterados e as mulheres passaram a produzir máscaras de tecido em suas próprias casas, mantendo, assim, o distanciamento social.

A demanda inicial é produzir ao menos mil máscaras de tecido por semana. Com isso, a renda mensal de 16 mulheres está garantida.

Além disso, outras 50 mil máscaras de tecido serão confeccionadas para serem distribuídas gratuitamente aos moradores de Paraisópolis. “Essas mulheres não teriam renda se não fosse a produção das máscaras de tecido”, afirmou Suéli.

O novo projeto, chamado de Home Office das Costureiras das Favelas do Brasil, deverá ser levado para outras comunidades carentes de São Paulo não apenas para gerar renda mas também proteger quem vive nesses lugares.

Necessidade

A produção de máscaras de tecido em meio à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus juntou as duas principais motivações de quem decide empreender: a necessidade de sobreviver e a oportunidade. Ou seja, em meio à falta de máscaras cirúrgicas algumas pessoas que estão sem renda viram uma forma de garantir o sustento de toda família com a confecção da proteção individual.

A avaliação é do consultor de inovação Marcus Leite, do Sebrae São Paulo. “As crises evidenciam os problemas de uma sociedade mas também são uma oportunidade para novas ideias. No caso das máscaras, juntou tanto a necessidade de pagar as contas como a de se proteger em meio à falta de equipamentos de proteção, inclusive nos hospitais”, afirmou o consultor.

Leite destacou que essa mudança de comportamento das pessoas para tentar garantir uma renda também pode ser vista em grandes empresas, que estão mudando as linhas de produção para atender as atuais demandas do mercado, como é o caso de empresas de cosméticos ou cervejarias que estão produzindo álcool em gel, outro produto em falta no mercado.

Segundo Leite, a oportunidade de gerar renda produzindo máscaras pode ser usada como um aprendizado para continuar produzindo novos produtos e gerando renda. “O mais importante é desenvolver habilidades e o comportamento empreendedor, como buscar oportunidade e iniciativa, buscar informações e planejamento”, afirmou.

Contas

A psicóloga Gracy Alvarenga, 37 anos, percebeu que a situação poderia ficar complicada quando a maioria dos pacientes foram deixando de fazer a terapia. Isso foi logo após a confirmação dos primeiros casos da covid-19 no Brasil, no fim de fevereiro, e ela ainda podia contar com a renda do marido para pagar as despesas da casa onde moram com os dois filhos pequenos.

Como passou a atender a apenas um paciente que pagava as consultas, decidiu usar parte do tempo livre para fazer máscaras de tecido para a família e amigos próximos.

Foi assim até o momento que o marido, que é missionário, perdeu o sustento. Apesar de não pagar aluguel e não ter dívidas, Gracy e o marido precisavam encontrar uma forma de manter os dois filhos na escola, comprar alimentos, e pagar as contas de consumo, como água, luz e internet.

“Foi quando algumas pessoas começaram a me perguntar se estava fazendo máscara para vender. Então, comecei a produzir para outras pessoas e cobrando”, afirmou Gracy, que reduziu todas as despesas da casa diante da nova realidade.

Em 15 dias de produção, ela vendeu 100 máscaras a R$ 20 cada e conseguiu fechar as contas do mês. “As máscaras têm sido uma bênção. Foi uma solução que não esperávamos. Comecei a fazer para a família e me surpreendi com a procura”, afirmou.

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