Estado de SP registra 103 incêndios em mata por dia em oito meses

Fogo em vegetação cresceu 8% em relação ao mesmo período de 2019, segundo os bombeiros

São Paulo

Os bombeiros registraram 25.438 ocorrências de incêndios em vegetações no estado de São Paulo, entre janeiro e agosto deste ano. Isso representa 103 casos diários, considerando o período. Comparando com as 23.586 ocorrências, dos oito primeiros meses do ano passado, houve um aumento de 7,8%. Os dados constam no site da SSP (Secretaria da Segurança Pública), gestão João Doria (PSDB).

A região de Ribeirão Preto (313 km de SP), conhecida pela concentração de canaviais, lidera os registros. De acordo com os bombeiros, foram 2.980, entre janeiro e agosto deste ano, representando 12 casos diários. Em relação ao mesmo período de 2019, quando ocorreram 2.704 incêndios, houve um aumento de 10%.

Bombeiros combatem incêndio em vegetação, em 13 de setembro, na região de São João da Boa Vista, Vargem Grande do Sul e Águas da Prata. - Divulgação/Corpo de Bombeiros

Até setembro deste ano na Grande São Paulo foram registrados 4.299 casos, desde janeiro, e 2.977 no mesmo período do ano passado: uma alta de 41,7%.

A tenente Walkiria Guimarães Zanquini, porta-voz do Corpo de Bombeiros, diz que um dos fatores para o aumento do fogo em matas, é a ação direta de produtores rurais, que costumam usar o fogo ilegalmente para limpar terrenos. “Isso, aliado à baixa umidade do ar, favorece o aumento das queimadas e a propagação de incêndios em vegetação”, explicou.

Segundo a tenente, atitudes imprudentes, como jogar uma bituca de cigarro perto de vegetação seca, são o suficiente para gerar fogo. “As pessoas precisam entender que, com um planejamento prévio, além de educação, é possível impedir a origem de incêndios evitáveis”, diz.

E o problema das queimadas tem atingido várias partes do país com índices históricos, como no Pantanal.

As altas temperaturas e a baixa umidade desta época do ano também preocupam. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), a cidade de São Paulo, por exemplo, teve recorde de calor, na última sexta-feira (2), com 37,4ºC.

Em Vinhedo (79 km de SP), helicópteros tiveram de ser usados para tentar apagar o fogo que, até sábado (3), havia destruído cerca de 4 milhões de m² de mata.

“O calor contribui para um fenômeno que empurra a pressão atmosférica para baixo e inibe a formação de nuvens”, afirma Franco Nadal Vilela, meteorologista do Inmet.

Ele lembra que no mês passado choveu 14,6 milímetros no estado de São Paulo, o equivalente a 17% do valor chamado pelos meteorologistas de “normal climatológica”. A Defesa Civil decretou estado de atenção para baixa umidade na semana passada no estado.

Promotoria monitora as queimadas

A promotora Cláudia Habib Tofano, do Gaema (Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente), do Ministério Público de Ribeirão Preto, afirma que “incêndios espontâneos são raríssimos”.

“A grande maioria, para não falar a totalidade, é provocada por ação humana. Digo isso com base no trabalho desenvolvido pelo Gaema com a Polícia Militar Ambiental e os bombeiros.”

A promotora, que monitora as queimadas em 29 cidades do interior paulista, afirma que os incêndios “aumentaram deliberadamente” na região de Ribeirão Preto.

Ela diz que “faltam políticas públicas adequadas”, no âmbito estadual, para prevenir incêndios em vegetação. A Polícia Civil também apura a origem de incêndios e seus responsáveis.

“Os incêndios ocorrem por ação ou omissão do homem, seja por imprudência, seja intencional. Atear fogo em vegetação é crime, com pena de até quatro anos de prisão”, diz a promotora.

Fogo assusta moradores de condomínio

Entre 1º e 15 de setembro, os bombeiros combateram um incêndio de grandes proporções que destruiu uma vegetação, segundo a Defesa Civil, equivalente a 500 campos de futebol, na região de São João da Boa Vista (216 km de SP).

Dois inquéritos foram instaurados pela Polícia Civil para investigar as causas do fogo. As chamas também destruíram cerca de 160 hectares em Vargem Grande do Sul (234 km de SP).

Três dias depois, teve início outro incêndio que destrui uma área de mata, atrás de um condomínio de casas em Ribeirão Preto (313 km de SP). O advogado Mateus Carrer Lorençato percebeu o problema quando recebeu uma mensagem no celular alertando sobre o perigo.

Por causa da pandemia da Covid-19, Lorençato afirma permanecer em casa, trabalhando. Mas, em 18 de setembro, teve de sair, com receio do fogo e pela fumaça, para voltar apenas no fim do dia. “De repente ele mudou de direção e veio para o nosso lado. Parecia cena de filme”, afirma ele que deixou o local com outros moradores.

Secretaria diz ter investido R$ 6 milhões

A Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente, gestão João Doria (PSDB), afirmou ter investido R$ 6 milhões em atividades preventivas a incêndios no estado. O governo acrescentou que, desde 2019, reforçou os trabalhos de combate ao fogo em vegetação entregando 150 novas viaturas à Polícia Militar Ambiental, além de 18 drones e 295 tablets à fiscalização.

A secretaria disse ainda que a Coordenadoria de Fiscalização e Biodiversidade, vinculada à pasta, contabilizou 570 multas por queimadas, aplicadas pela PM Ambiental, entre janeiro e o último dia 28. No mesmo período do ano passado, foram 495, representando alta de 15%. Os valores
resultantes das multas não foram informados.

Historicamente, acrescentou a pasta, agosto e setembro são os meses com mais focos de incêndio no estado. A recomendação é acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.

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