Descrição de chapéu Grande SP chuva clima

Chuva atrasa e Cantareira tem pior dezembro desde 2015

Principal conjunto de represas da Grande São Paulo está abaixo dos 40% desde 7 de outubro

São Paulo

O atraso nas chuvas e o aumento no consumo de água fizeram reacender o alerta sobre uma nova crise hídrica. O Sistema Cantareira, principal manancial da região metropolitana, tem o menor início de dezembro desde 2015, com variação que foi de 31,38% de sua capacidade a 33,06% registradas nesta terça (15).

No ano passado, na mesma data, o Cantareira estava com 39,47%. Em 2016, o índice era de 45,67%. No ano anterior, as represas ainda se recuperavam do pior momento da crise hídrica, que foi em 2014. Na ocasião, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) teve de usar o chamado volume morto.

Além do atraso nas chuvas, a pandemia de Covid-19 fez aumentar o gasto de água, já que muitas famílias ficaram em casa para se prevenir do novo coronavírus. Segundo a Sabesp, houve uma elevação de 4% no consumo médio por família na Grande São Paulo entre janeiro e novembro de 2020 ante o mesmo período de 2019, passando de 122 para 127 litros por pessoa a cada dia.

O nível do Cantareira está abaixo dos 40% desde o dia 7 de outubro. Quando o percentual do manancial é inferior a 40%, a companhia considera a situação como de alerta.

Represa Atibainha, que faz parte do Sistema Cantareira; principal manancial de abastecimento da região metropolitana tem a pior capacidade de água para o início de dezembro desde 2015"‚ - Zanone Fraissat/Folhapress

O professor Antonio Carlos Zuffo, do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) avalia que, por enquanto, a situação ainda não configura a iminência de uma crise hídrica. Segundo ele, as chuvas previstas para este ano atrasaram em razão ao fenômeno La Niña.

"O La Niña ocorre quando a temperatura do Oceano Pacífico fica mais baixa do que o normal. Ela faz com que a zona de alta pressão fique mais tempo na América do Sul, diminuindo a precipitação", explica Zuffo. Por esse motivo, as chuvas, que eram previstas para começar entre setembro e outubro, estão chegando somente no início deste mês.

O nível do Cantareira vem aumentando em ritmo lento desde o último dia 6. Na primeira metade de dezembro, o manancial recebeu 109,9 milímetros de chuva, o que equivale a 51,1% da média histórica para o mês. "Eu acredito que agora vai haver só recuperação. Não vai ficar cheio, mas deve subir 20% a 30% e chegar a 55% ou 60% até o fim de março", acrescenta.

O especialista destaca que, historicamente, o estado de São Paulo é afetado por secas mais rigorosas a cada 11 anos. "Eu acredito que ela [crise hídrica] venha só entre 2025 a 2027", diz. Segundo ele, antes de 2014, a última grande seca no estado foi em 2003.

Já o engenheiro hídrico Antônio Eduardo Giansante, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie considera que, em São Paulo, "o risco [de crise] sempre existe, em maior ou menor grau".
"O abastecimento de água em São Paulo é sempre complexo, porque temos uma região metropolitana com 22 milhões de habitantes e pouca água. Tem que trazer água de longe, e isso é caro e complicado."

Para Giansante, o governo paulista deveria pensar em outras formas para levar água à população. O professor cita soluções, que, segundo ele, são "cada vez mais usadas mundo afora", como utilização de água de reuso e dessalinização da água do mar.

Verão deverá ser chuvoso

O Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) prevê um verão chuvoso na região do Sistema Cantareira, que vai desde a divisa de São Paulo com Minas Gerais até a área norte da região metropolitana do estado, passando por municípios como Joanópolis, Bragança Paulista, Franco da Rocha, Mairiporã e Caieiras.

Segundo o meteorologista Marcelo Schneider, os reservatórios deverão receber, até o fim de dezembro, entre 250 e 300 milímetros de chuva. Segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), a média histórica para o mês no Cantareira é de 215,2 milímetros.
Schneider estima que os meses de janeiro e março também deverão ser mais chuvosos do que a média.

Entretanto, a previsão do meteorologista do Inmet é de que fevereiro tenha menos chuva do que o esperado - segundo a Sabesp, o padrão histórico para o mês é de 203,4 milímetros.

"Além disso, deveremos ter temperaturas acima do normal [para fevereiro], o que é um problema, já que, quanto mais calor, maior é a evaporação", explica Schneider. Porém, mesmo com a perspectiva ruim para fevereiro, a estimativa é de que os três primeiros meses de 2021 tenham mais chuva do que o mesmo período deste ano.

Sabesp cita melhorias nos sistemas

Por meio de nota, a Sabesp informa que as represas que servem a Grande São Paulo fazem parte de um sistema integrado de abastecimento, que, além do Cantareira, é composto por outros seis mananciais: Alto Tietê, Guarapiranga, Cotia, Rio Grande, Rio Claro e São Lourenço. Nesta terça-feira (15), o sistema integrado estava com 44,2% de sua capacidade.

"Esse sistema integrado é flexível, permitindo transferências de forma rotineira entre os sistemas produtores para abastecer diferentes regiões e, consequentemente, dando mais segurança ao abastecimento", diz a companhia. A Sabesp informa que a interligação dos sistemas é resultado das obras feitas após a crise hídrica de 2014.

Entre as obras citadas, a Sabesp destaca "a Interligação Jaguari-Atibainha (que traz água da bacia do Rio Paraíba do Sul para o Sistema Cantareira) e a entrada em operação do sistema São Lourenço". As obras, diz a empresa, agregaram 445 bilhões de litros de água para a Grande São Paulo.

A Sabesp diz ainda que "o nível de alerta ocorre, segundo as regras da outorga, quando o sistema Cantareira registra nível abaixo de 40% no último dia do mês e vale para o mês seguinte". Dessa forma, o limite de retirada de água é reduzido de 31 para 27 metros cúbicos por segundo - o que equivale a 27 mil litros.

"A queda no nível das represas, inclusive do sistema Cantareira, é normal durante o período de estiagem todos os anos. Em 2020, o volume de chuvas está abaixo da média histórica e já é o menor desde 2014. Por esse motivo, a Sabesp reforça à população que use de forma consciente a água, evitando desperdícios", acrescenta a companhia.

Assuntos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.