Memória de São Paulo é contada em placas expostas pela cidade

Identificações em projeto do Departamento de Patrimônio Histórico, registram fatos, locais e pessoas que ajudam a compor a história paulistana

São Paulo

No meio da caminhada pelo centro da capital, o autônomo Fábio Sarmento, 43, parou rapidamente para ler a placa que indica onde, há mais de 200 anos, funcionava o pelourinho da cidade. Até então, ele não conhecia essa parte da história do Largo 7 de Setembro. "Eu já tinha ouvido falar que a região [da Sé e da Liberdade] tem essa relação com a escravidão, mas não sabia que era aqui."

A placa é uma das 150 já instaladas pelo projeto Memória Paulistana, do DPH (Departamento de Patrimônio Histórico) da Secretaria Municipal da Cultura. "Isso é muito importante para contar a história da cidade", diz Sarmento.

Acontecimentos, prédios históricos e pessoas são destacados no disco azul. Há, por exemplo, uma que marca o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, cantado por Caetano Veloso, outra que destaca o prédio do primeiro cinema da Lapa (zona oeste) ou a que indica a última morada do cantor Raul Seixas, na rua Frei Caneca (região central).

Placa na entrada do Santa Marina Atlético Clube, na Água Branca (zona oeste), que foi fundado em 1913 por trabalhadores da fábrica de vidro que levava o mesmo nome - Rivaldo Gomes/Folhapress

Uma das placas, hoje na fachada de uma panificadora na Vila Formosa (zona leste), fala sobre onde, na década de 1970, o sambista Cartola manteve um bar, o Zicartola. "Algumas pessoas antigas sabem, mas isso não é muito divulgado. Falta reconhecimento", diz o proprietário, Edvaldo da Silva, 52. Depois da identificação, segundo ele, as pessoas param e se interessam pela história do prédio.

As memórias, de acordo com Luca Fuser, coordenador do núcleo de Identificação e Tombamento do DPH, podem ser muitas e de diferentes estilos. "O projeto mostra a diversidade de memórias que temos em São Paulo. A ideia é ter um instrumento que consiga apreender essas histórias, que estão por aí, e colocá-las em exposição."

Junto a outras ações, como o tombamento e o registro, as placas são mais uma ferramenta de reconhecimento do patrimônio histórico da cidade, afirma Fuser. Com elas, são registradas mudanças naturais da cidade, mas que nem sempre eram contadas e, assim, amplamente conhecidas.

"A gente sempre pensa como vai visibilizar o sentimento e a memória da cidade. Quando a pessoa olha a placa, vê o que de fato aconteceu ali. É uma forma de comunicar a narrativa sobre a cidade."

O projeto tenta, segundo o coordenador, ampliar os espaços mostrados para além do centro. Há mais locais mapeados e identificados no miolo da cidade porque o processo histórico e o conhecimento sobre eles estão mais concentrados por lá, ele diz, mas a tentativa é de privilegiar também as zonas mais afastadas.

"Esse é um projeto muito bom e deveria ser ainda maior, porque a turma se esquece da história", diz o aposentado Francisco Ingegnere, 67. Ele é o presidente do Santa Marina Atlético Clube, na Água Branca (zona oeste), um clube centenário de origem operária identificado pelo Memória Paulistana. Para ele, é um reforço da identidade do local. "Quem tem passado tem futuro."

Projeto deve identificar mais 300 placas em 2021

Até o final do primeiro semestre devem ser retomadas as instalações das placas do Memória Paulistana, segundo Luca Fuser, coordenador do núcleo de Identificação e Tombamento do DPH. O trabalho, afirma, depende da conclusão do processo licitatório para a produção das placas.

O departamento já tem mapeados 466 lugares e fatos históricos da cidade que receberão a identificação. Desses, 150 já têm placas, que começaram a ser instaladas em 2019. A meta é concluir o trabalho ainda este ano. Paralelamente, são feitos novos levantamentos de memórias.

De acordo com o coordenador, a indicação das placas é feita com base no conhecimento histórico já mapeado e de material já produzido pelo departamento. Mas também há participação da população: no ano passado, um concurso do DPH acatou 180 propostas para serem emplacadas.

Essa é uma forma de fortalecer a participação da sociedade civil na apropriação do patrimônio histórico da cidade, ele diz.

Não há uma determinação de quantos locais da cidade devem receber placas. Ele compara São Paulo com o Rio de Janeiro e Londres, que, segundo Fuser, têm 250 e 900 lugares identificados, respectivamente. "Ainda estamos sentindo qual o ritmo de São Paulo. A proposta é instalar esse ano pelo menos as que já estão mapeadas."

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