Voltaire de Souza: O sonho não acabou

Voltaire de Souza

Tédio. Inveja. Frustração.
A vida na pandemia não é fácil para os artistas.
Pedro Lauro era um experiente galã.
—Estrelei um filme com Sandra Bréa.
Estava difícil achar trabalho.
—Não tem emprego nem para pipoqueiro.
O sonho, contudo, não pode acabar.
É a festa do Oscar.
Pedro Lauro ligou a televisão.
--Opa. Espera aí. Tem de fazer as coisas direito.
No armário, o velho smoking esperava dias melhores.
—Cadê a escova de roupa?
Mofo. Poeira. Roídos de traça.
—A faixa de seda na cintura…
Ele se orgulhava.
—Nesses anos todos, não engordei nem um pouquinho.
Naturalmente, havia o detalhe indispensável.
A garrafa de espumante dormia na geladeira.
—Um pouco choca. Mas tudo bem.
Pedro Lauro sentou-se no sofá.
—Quanta enrolação… não começa nunca.
Apresentações. Falas. Comentários.
Ele adormeceu antes do prêmio de curta-metragem de animação.
Uma loira espetacular surgiu no seu living.
—The Oscar… the winner… Péydwrul Lauwrol.
Ele foi tocar a estatueta.
—Mas é uma seringa de injeção… banhada a ouro?
A luta contra o Covid não é brincadeira.
Ser vacinado, para muita gente, é o maior prêmio

Diversas estatuetas douradas do Oscar, enfileiradas
O sonho, contudo, não pode acabar. É a festa do Oscar. - Pixabay

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