Descrição de chapéu Zona Leste transporte público

Muros de estações de trem da CPTM ganham painéis em grafite

Estações na zona leste de SP receberam pintura de artistas gráficos em muros

Wilson de Sá
São Paulo

Um projeto de arte urbana uniu a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), o MAR (Museu de Arte) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e a Zeferina Produções. Por isso, três estações de trem da CPTM foram escolhidos para se transformarem um uma grande tela: Engenheiro Goulart e Itaim Paulista, da linha 12-diamante, e um paredão da linha 11-coral, na região da Penha, ambos na zona leste de São Paulo.

Origem, crítica social e religiosidade foram os temas que os grafiteiros do projeto escolherem para estampar com seus traços e cores de grafite nos muros externos das estações de trem. Os trabalhos de criação foram concluídos no dia 11. O objetivo da parceria era, além de colorir os muros, era revitalizar os espaços urbanos aos arredores das estações.

Grafite em muro na estação Engenheiro Goulart, da CPTM, na zona leste de SP - Rivaldo Gomes/Folhapress

Na estação Engenheiro Goulart, por exemplo, os artistas Laura Reis, Dumeem, Bó Treze e os coletivos Bocasuja Crew e Arte e Cultura na Kebrada homenagearam o “curumim”, que é uma criança na língua tupi-guarani. Os desenhos mostram as diferentes fases da vida, que vão do aprendizado ao crescimento na natureza e a importância da caça e preparação do garoto para ser um guerreiro de sua tribo.

O painel tem 50 m de comprimento e 2,8 m de altura e pode ser visto na avenida Dr. Assis Ribeiro, 3.500, Jardim Keralux, zona leste de São Paulo.

Quem passou por lá e aprovou a manifestação artística foi a comerciante aposentada Glória Lopes, 64 anos. Ela passa pelo local diariamente em direção ao Parque Ecológico do Tietê, para fazer caminhas. “Gostei muito”, disse. “Achei interessante porque mostra as araras, a Amazônia e muita diversidade de cores”, ressaltou.

Para ela, pintura deixou uma mensagem de que se deve amar mais a natureza, a pessoas e preservar as áreas verdes. “É assim que gostaria de ver minha São Paulo, ou seja, mais colorida e com mais áreas de lazer”, completou a paulistana.

O projeto realizado na Penha e no Itaim foi coordenado pela produtora cultural Tainá Ramos, da Zeferina Produções. Ela explicou que, antes de começar a colocar cores nos muros, foram feitas visita técnica, preparação do espaço e reunião com os artistas. “Escolhemos as temáticas sociais porque os dois artistas são de periferia e são negros e foi uma forma de deixar a cultura social e racial mais perto das pessoas”, ressaltou. “Pensamos a arte com a possibilidade de conectar com as pessoas e o grafite é uma forma de arte viva”, completou.

E foi vida que o artista plástico Geraldo de Souza, o PG, 23 anos, quis dar ao muro da linha 11-coral, na Penha, com um tema que mistura regiliosidade e questões sociais. Por isso, quem passar pela rua Alvinópolis, vai poder apreciar a obra da série Capadócia do artista, na qual personifica Ogum —divindade de origem africana (orixá) cultuado em religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé— em jovens meninos negros que desbravam dia a dia as demandas das ruas e das grandes cidades.

PG quis usar seu talento para dar cor à temas sensíveis, principalmente para quem é de periferia. “Apesar de se chamar ogum, a intenção foi dar uma temática menos regiliosa e esteriotipada porém com uma mensagem de esperança”, explicou.

Para PG os jovens estão cada vez mais interessados em grafite. “Por isso, me sinto contemplado por conseguir ser uma voz”, enfatizou. “Sou um jovem cara preto de periferia que me vejo no futuro fazendo algo ainda maior e melhor, mas para isso preciso continuar sendo honesto com minha arte”, finalizou.

Já na rua Cordão de Francisco, altura do número 563 da estação Itaim Paulista, também na zona leste, pode ser visto o trabalho do artista Natan Dias, que mesclou a técnica de lambe-lambe e grafite de figuras metálicas em forma de lanças e tridentes para mostrar com símbolos, a teimosia em resistir às desigualdades sociais.

Para a CPTM, foi uma maneira de apoiar o trabalho de artistas independentes, especialmente neste período de pandemia e um meio de quebrar o cinza da cidade. Mas para Tainá, o alcance artístico é muito maior.

Isto porque, segundo ela, esta arte de rua é uma possibilidade de mostrar esses trabalhos e de inspirar as pessoas de alguma forma. “A cultura é a manutenção de nossa existência, além de ser direito do cidadão”, disse. “Espero que as pessoas olhem com carinho os grafites, tirem fotos e compartilhem nas redes sociais, porque assim, os artistas serão reconhecidos em sua arte”, finalizou.

De acordo com o presidente da CPTM, Pedro Moro, os trens metropolitanos integram a paisagem das cidades e podem ajudar a promover a integração e revitalização dos espaços, apoiando a arte em todos os seus aspectos e seus artistas.

Serviço: Os grafites podem ser vistos nos muros das estações Estação Engenheiro Goulart, que fica na avenida Dr. Assis Ribeiro, 3.500, Jardim Keralux. Na estação Itaim Paulista, que fica na rua Cordão de Francisco, 563, Vila Aimore, e no muro da Linha 11-Coral, da rua Alvinópolis, 277, na Penha, ambos na zona leste.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.