Grupos de WhatsApp facilitam a vida de quem anda de ônibus

Passageiro já sai de casa sabendo se veículo está atrasado

Leonardo Zvarick
São Paulo

Passageiros de ônibus urbanos de São Paulo aderiram a grupos de WhatsApp para compartilhar, em tempo real, atualizações sobre o transporte público. 

Quem participa desse tipo de grupo já acorda preparado e não perde o horário do ônibus --antes de sair de casa, sabem como está o trânsito e até se há assentos vagos no ônibus.

Quando se mudou para Cotia (Grande SP), há um ano e meio, a bancária Deyse Queiroz, 30 anos, contou com o apoio logístico de um grupo de passageiros para se adaptar à nova rotina.

"Levo pelo menos uma hora e meia no caminho, quando não tem trânsito. Antes eu morava muito mais perto do trabalho", diz. Entre sua casa e a agência bancária onde trabalha, são cerca de 35 km.

Pouco tempo após conhecer novos colegas de lotação, tratou logo de entrar no grupo formado por usuários da mesma linha no aplicativo de mensagens.

"Já fazia parte de um outro grupo do tipo quando morava no Butantã [zona oeste]", afirma. "A gente se vê todo dia, então criamos amizade", diz.

Há também os grupos estritamente profissionais, onde o assunto raramente foge do trânsito. Bruna Masi, 24, faz parte de um, em que só entram funcionários da empresa onde trabalha, na região sul da cidade.

"Na rua da empresa só passam três linhas de ônibus, mas essa é a única que leva a vias estratégicas, como a avenida 23 de Maio e a estações de metrô. Então, a maioria das pessoas acaba pegando ela", diz a estudante de comunicação.

O grupo, do qual faz parte desde março de 2018, foi criado um mês antes, e conta hoje com 39 membros. As informações começam a circular logo cedo, por volta das 6h, quando o primeiro coletivo parte do bairro Eldorado, em Diadema (ABC), em direção à praça João Mendes (centro).
Informações sobre o trânsito, lotação do ônibus e distância das paradas chegam em tempo real. "Para mim, que não embarco em terminal, facilitou muito. Consigo acompanhar o fluxo e me programar", diz.

Café da manhã

Além da função prática no cotidiano dos usuários, os grupos de WhatsApp estreitam relações e melhoram a convivência entre os passageiros do transporte. "Sempre pegamos ônibus juntas, acabamos criando uma amizade próxima", diz a bancária Deyse Queiroz.

Pelo grupo, ela e as outras 10 participantes combinam encontros e festas --a própria Deyse teve seu último aniversário comemorado com os companheiros de ônibus. 

No grupo, também marcam cafés da manhã, que ocorrem todas as sextas-feiras dentro do coletivo. Lá, a mesa é farta: café, sucos, pães, salgados e doces são servidos. "Cada um leva uma coisa e a gente come todo mundo junto, no caminho", afirma Deyse. "Quando conto para as pessoas no trabalho, elas estranham, mas eu acho absolutamente normal".

O ilustrador Rodolfo Lemos, de 27 anos, pega o mesmo ônibus há cerca de dois anos, e diz conhecer metade dos passageiros frequentes. "Como todo mundo é amigo, além de avisar as pessoas sobre horários, combinamos outras coisas pelo aplicativo". No fim do ano passado, por exemplo, os passageiros organizaram um amigo secreto que contou com a participação até do motorista e cobrador.

No grupo de Deyse, o motorista chegou a ganhar um chá de bebê dos usuários. "Ficamos sabendo que ele ia ter filho e organizamos uma festinha pra ajudar", conta a bancária.

"Eu acho que a tecnologia afasta muito as pessoas hoje em dia", afirma Deyse. "Acho que o grupo nos aproximou e criou uma amizade real", afirma.

Desde cedo

A reportagem do Agora acompanhou na última semana a rotina de dois grupos de linhas de ônibus no WhatsApp na capital paulista. Em ambos, as mensagens começam a circular logo cedo.

Durante os horários de pico, são atualizações praticamente a cada parada do ônibus. Congestionamentos, acidentes e outros problemas no percurso são prontamente reportados para os demais usuários.

Geralmente, os encarregados de informar o grupo são aqueles que embarcam ainda no terminal.

Outros assuntos, durante os horários de pico, são raros --no máximo algum comentário relativo a demais modalidades do transporte público. Conversas sobre outros temas, só fora do aplicativo. 

Confiabilidade

Mesmo com a chegada de aplicativos de mobilidade como Moovit, Cadê o Ônibus e O Coletivo, que indicam rotas e são, inclusive, recomendados pela SPTrans, há quem não dispense o grupo no WhatsApp.

"Esses aplicativos não são 100% confiáveis, então essa é uma forma mais certeira de acompanhar", afirma a estudante Bruna Masi. "Não tenho por que desconfiar de outros passageiros, sei que vão passar a informação precisa."

No grupo de Rodolfo Beltrão, o principal administrador é o próprio cobrador.

"Até já usei aplicativos por um tempo, mas prefiro o contato com as pessoas", diz a bancária Deyse Queiroz. "E o WhatsApp consome muito menos do pacote de dados do celular, isso ajuda também", afirma.

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