Samu chega a levar quase 12 h para acionar uma ambulância

Relatório de sindicato aponta que em 67% dos chamados há 'grande atraso'

Leonardo Zvarick
São Paulo

Um relatório produzido pelo Sindsep (Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo), a partir de uma pesquisa com funcionários do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência), apontou que em 67% dos chamados de socorro há "um grande atraso" na comunicação com as ambulâncias.

No Caps Itaquera, o motorista precisa sair pela porta do passageiro porque a sua fica encostada no muro do local reservado para estacionar ambulância - Divulgação/Sindesp

O documento mostra uma ficha em que o acionamento de uma das equipes levou quase 12 horas.

O relatório, com questionários respondidos pelos socorristas, foi feito por conta da reorganização do Samu pela Prefeitura de São Paulo, da gestão Bruno Covas (PSDB).
Passados mais de três meses do início das mudanças, equipes ainda enfrentam problemas nas novas bases, como mostra o documento. 

Salas pequenas, com pouca ventilação e com materiais entulhados são algumas das falhas encontradas por uma comissão e pela própria prefeitura de São Paulo, em um outro relatório produzido pelo município.

O documento do sindicato identificou que em 43% das bases não há estacionamento adequado, o que atrasa a saída das ambulâncias. No Caps Itaquera (zona leste), por exemplo, o veículo só cabe na vaga se estiver encostado na parede --o motorista tem que sair pela porta do passageiro.

No local, também falta cobertura, e o veículo fica exposto ao sol e à chuva.
Segundo o relatório, essas condições podem provocar danos a equipamentos e remédios. O problema ocorre em 73% das bases.

A distância entre as salas dos funcionários e as ambulâncias também aumentou com a reorganização, e em metade das unidades ultrapassa 50 metros.

No hospital do Campo Limpo (zona sul), os socorristas tem que descer dois andares e percorrer mais um corredor de 150 metros. "Levando em conta que o serviço tem que estar de prontidão quando é chamado, isso é um problema gravíssimo", afirma Lourdes Estêvão, uma das dirigentes do Sindsep.

Relatório

A Prefeitura de São Paulo defende que a descentralização do Samu vai melhorar a qualidade do serviço, e afirma que todas as bases já têm condições mínimas para funcionar.

Em seu próprio relatório, a gestão municipal apontou alguns pontos positivos da reorganização, como melhor estrutura física --antes da mudança, as bases modulares funcionavam em contêineres.

Ainda assim, o documento lista uma série de problemas que vão de falta de higiene a insegurança no local de trabalho.

"Precisamos encarar de maneira responsável tudo o que pode ser melhorado. Nosso objetivo é avaliar as condições de implantação de cada um dos pontos e orientar as adequações necessárias, disse o coordenador do Samu, Marcelo Takano.

O médico disse ainda que o relatório não identificou a necessidade de nenhuma grande intervenção de engenharia nas bases.

"São todas pequenas reformas, passíveis de resolução com um melhor gerenciamento", disse Takano, defendendo que a integração do Samu com outros aparelhos de saúde da cidade deve resultar em melhoras na gestão administrativa do serviço.

A intervenção mais robusta, segundo o coordenador, vai ser a instalação de coberturas nos estacionamentos de todas as unidades. "É algo que não é essencial para o funcionamento das bases, mas entendemos que aumenta o conforto do trabalhador e resulta num melhor serviço", disse.

No próximo dia 5, representantes da prefeitura e do sindicato vão se reunir para a elaboração de um relatório conjunto.

Socorro

Na última segunda-feira (27), por volta das 22h, o bancário Roberley Carmo, de 52 anos, acionou o 192 pois a sua vizinha, que tem histórico de doença pulmonar, passava mal. Depois de duas horas esperando, resolveu levar por conta própria a idosa, de 78 anos, ao pronto-socorro.

Com a ajuda de outras três pessoas, carregou a mulher em uma cadeira pela escadaria que leva da casa à rua. "Se não tivesse mais gente comigo, não teria conseguido, são mais de 50 degraus", disse Carmo.

O filho da idosa, então, a levou de carro para o hospital, onde permanece internada. Às 2h da madrugada seguinte, o Samu ligou dizendo que poderiam mandar uma viatura. "Foram quatro horas pra atender uma emergência". Antes da reorganização, uma base do Samu funcionava a 300 metros da casa dele.

Resposta

Questionada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde, sob gestão Bruno Covas (PSDB), disse que uma apuração preliminar da coordenação do Samu constatou que todas as ambulâncias estavam em atendimento ou em intervalo técnico no período em que Roberley Carmo fez o chamado, na segunda-feira.

"A direção do Samu seguirá com a investigação para esclarecer se houve alguma falha na regulação do atendimento", disse o texto da assessoria de imprensa.

A pasta também vai verificar o histórico de coordenadas dos GPSs das ambulâncias, a fim de determinar se "conferem com os endereços que constam nos relatórios de atividade preenchidos pelos funcionários na data em questão".

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