Unidades de saúde de São Paulo estão sem kit para exame ginecológico

Material plástico descartável que está em falta custa de R$ 0,20 a R$ 1 nas farmácias cada um

São Paulo

No mês dedicado à prevenção e saúde da mulher, a rede pública municipal está com falta de material para realização do papanicolau. O exame pode detectar precocemente o câncer de colo do útero, um dos tumores mais comuns na população feminina e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil.

Fachada da UBS Dr. José de Barros Magaldi, no Itaim Bibi (zona oeste); unidade está sem o material para o exame de papanicolau desde julho e não há previsão de chegada, pois depende de compra - Rivaldo Gomes/Folhapress

O Agora checou, por telefone e pessoalmente, entre segunda-feira (21) e terça-feira (22), que ao menos 16 UBSs (Unidades Básicas de Saúde) distribuídas nas regiões oeste e sul da capital estão sem o espéculo vaginal descartável, um instrumento plástico essencial para o profissional visualizar o colo uterino e fazer a coleta do papanicolau.

O produto descartável elimina uma possível contaminação e dispensa o gasto com esterilização, segundo os médicos. Nas farmácias comuns, o custo unitário do espéculo gira em torno de R$ 0,20 a R$ 1.

Em 16 de julho, reportagem do Agora apontava a falta de material para coleta na zona oeste. O problema ainda ocorre, segundo Cristiano de Farias Coranato, 42 anos, do Conselho Gestor de Saúde da Supervisão Técnica do Butantã. “Faz uns seis meses que não tem espéculos, lâminas e até anticonceptivos DIU (dispositivo intrauterino) na região”.

A reportagem telefonou para a supervisão e um funcionário confirmou a situação. “Não foi feita ainda a programação de compra e está em falta na rede. Liga daqui dez dias.”

A enfermeira aposentada Joyce Neia, 61 anos, conselheira gestora na UBS Dr. José de Barros Magaldi, no Itaim Bibi (zona oeste), diz que a falta do material vem desde julho. “Não há previsão de chegada, porque depende de compra, orçamento e distribuição. A fila de espera só aumenta em pleno Outubro Rosa”, afirma.

Para o médico Gonzalo Vecina, especialista em saúde pública da Universidade de São Paulo, a falta do espéculo é inaceitável. “Um exame preventivo de baixo custo para diagnóstico precoce. Isso é uma violência contra a mulher”, disse.

Prevenção

A ginecologista e obstetra Juliana Paola de Melhado e Lima, da Associação Paulista de Medicina, aponta que o câncer do colo do útero é 100% prevenido com o papanicolau colhido anualmente pelas mulheres.

Por isso, a importância de o exame gratuito estar disponível na rede municipal de saúde por todo o ano. “Se der alguma alteração inicial, tecnicamente chamada como lesão de baixo grau, a gente consegue tratar antes de evoluir para um câncer”, explica a médica.

Segundo especialistas, não é admissível que a rede pública de saúde fique sem realizar o procedimento nas mulheres por falta de material básico.

“O espéculo, por exemplo, é essencial para a coleta de papanicolau, com custo baixo. O que sairá muito mais caro ao governo será o tratamento da doença ao invés da prevenção”, afirma a obstetra Juliana Paola, que fez ao menos 5.000 partos nos 22 anos de profissão.

A mesma opinião do sanitarista Gonzalo Vecina, professor na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. “O papanicolau é um exame preventivo fundamental para a mulher, mas muitas vezes subutilizado na rede pública de saúde. E torna-se um desastre perfeito quando o procedimento não pode ser realizado por falta de material”, avalia o médico.

Dias atrás, a fila de mulheres à espera do exame preventivo era grande na UBS Vila Ipojuca - Dra. Wanda Coelho de Moraes, na região da Lapa (zona oeste), porque não tinha a maca ginecológica, segundo pacientes e funcionários. No Brasil, estimam-se 16.370 casos novos de câncer de colo do útero neste ano, segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer).

Resposta

A Secretaria Municipal de Saúde, gestão Bruno Covas (PSDB), diz em nota que “não houve interrupção na coleta do exame papanicolau na cidade”. Entre janeiro e setembro, foram realizados 10.311 exames nas unidades da região do Butantã.

Segundo a pasta, “por causa da alta demanda”, a Coordenadoria Regional da Saúde Oeste “fez remanejamentos de materiais utilizados no exame entre as unidades para evitar prejuízo ao atendimento e providenciou uma compra de espéculos vaginais em caráter emergencial”.

A gestão admite que “há um processo em tramitação no sistema de pregão da secretaria municipal”, que segue “todas as normas para aquisições de materiais no serviço público.

Vejas os locais com falta de material

ZONA OESTE

  • UBS Butantã - Butantã
  • UBS Jardim Jaqueline - Butantã
  • UBS Caxingui - Caxingui
  • UBS Vila Jaguara - Vila Jaguara
  • UBS/AMA Integrada Vila Nova Jaguaré  - Jaguaré
  • UBS Jardim São Jorge - Raposo Tavares
  • UBS Paulo 6º - Raposo Tavares
  • UBS Vila Borges - Raposo Tavares
  • UBS José Marcílio Malta Cardoso - Rio Pequeno
  • UBS Jardim D´Abril - Rio Pequeno
  • UBS Vila Ipojuca - Dra. Wanda Coelho de Moraes - Lapa
  • UBS Parque da Lapa - Vila Leopoldina
  • UBS Dr. Manoel Joaquim Pera - Vila Madalena
  • UBS Dr. José de Barros Magaldi - Itaim Bibi

Zona sul

  • UBS Mininópolis - Dr. Mário Francisco Napolitano - Brooklin 
  • UBS Jardim Edite - Cidade Monções

O que é papanicolau? 

O exame faz a análise das células da região do colo uterino para identificar presença de lesões pré-cancerosas provocadas pelo vírus HPV (papilomavírus humano), infecções vaginais e DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) 

Procedimento

O profissional insere um instrumento (espéculo), que serve para abrir as paredes da vagina. É utilizado um pequeno pincel, parecido com aplicador de rímel, para coletar as amostras das paredes do útero. O material é encaminhado ao laboratório para análise

Quem precisa fazer? 
Adolescentes e mulheres, a partir da primeira relação sexual


O câncer de colo do útero é o 3º mais frequente na população feminina e 

É o  4º tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil 


Fonte: Gonzalo Vecina (médico), Ministério da Saúde, Inca (Instituto Nacional do Câncer) e reportagem

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