Descrição de chapéu Zona Sul

Morador de Heliópolis é quem mais anda por causa de tarifa de transporte em SP

De 47,3 mil pessoas que se deslocam a pé, diz pesquisa, 14,5 mil caminham porque passagem de transporte é cara

São Paulo

Heliópolis (zona sul) é o lugar na capital paulista onde mais pessoas andam a pé por causa do preço da tarifa do transporte. Levantamento baseado na pesquisa origem-destino do Metrô mostra que três em cada dez pessoas que caminham para se deslocar naquela região fazem isso por causa 
da condução cara.

O casal Jurandir de Souza e Bertulina Medrado, que moram em Heliópolis (zona sul) e economizam dinheiro indo a pé para casa após o dia de trabalho - Rubens Cavallari/Folhapress

A pesquisa, de 2017, dividiu o município em 342 zonas de origem. O estudo mostra que, entre 47.389 pessoas de Heliópolis que têm a caminhada como forma de chegar aos lugares, 14.567 fazem isso para não gastar com o pagamento de passagem.

Entre os cinco primeiros lugares da capital onde o valor da tarifa mais influencia na escolha por andar a pé, três são bairros vizinhos.

Aparecem ao lado de Heliópolis a Vila Carioca e o Moinho Velho, ambos na divisa com o ABC, e onde uma em cada cinco pessoas que caminha para ir ao trabalho ou à escola, por exemplo, faz isso por causa do preço salgado do transporte —as passagens de ônibus e metrô, inclusive,  sobem na quarta-feira (1º) de R$ 4,30 para R$ 4,40 na capital.

O ajustador de material cirúrgico Jurandir de Souza, 47 anos, conhece bem a rotina de fazer uma longa caminhada de casa para o trabalho, diariamente. Ele leva mais de 30 minutos para percorrer os 
3,5 km de ruas e avenida movimentadas entre a sua casa e o serviço, na Vila Carioca (zona sul). Para isso, ganha a companhia da mulher, a auxiliar de limpeza Bertulina Pereira Medrado, 36. 

“Se a gente for tirar R$ 4,30 para mim e R$ 4,30 para a ela em cada trecho, dá mais de R$ 16 por dia. O transporte iria comprometer minha renda. A gente prefere ir a pé para sobrar um dinheirinho para pagar o aluguel”, diz.

A longa caminhada não é uma exclusividade dos dois. Os filhos, um casal de gêmeos de 16 anos, também andam da comunidade à escola, perto do parque da Independência (zona sul). “Os dois levam uns 40 minutos até a escola”, afirma o pai.

Segundo Souza, a situação é comum no bairro. “Conheço muita gente que anda bastante para não pagar transporte. É tudo caro hoje em dia. Não tem condição um pai de família pagar R$ 45 no quilo do contra-filé, por exemplo”, afirma.

Região central é onde as pessoas mais andam a pé

Além dos dados referentes ao valor da tarifa de transporte na capital, a pesquisa origem-destino do Metrô mostrou também qual o lugar onde mais pessoas andam a pé, no geral, levando em consideração a área territorial. 

A região central é aquela que concentra o maior número de pessoas que caminham entre a casa e o trabalho ou a escola.

O levantamento mostra 342 regiões, portanto, um número bem maior do que o dos 96 distritos da capital. 
Entre as microrregiões mostradas na pesquisa, uma área de 0,570 km² na Sé é aquela com o maior quantidade de pessoas que usam a caminhada nos seus deslocamentos. 

Em números absolutos, a região apontada pela pesquisa origem-destino como aquela onde mais pessoas fazem uso das caminhadas para seguir até o destino é a Cidade Tiradentes,  na zona leste.

Para especialistas, eficiência no transporte reduziria o preço

Especialistas afirmam que a melhoria na eficiência do transporte público é fundamental para baratear a tarifa para a população da capital. 

Contratos mais favoráveis aos cofres públicos e construção de corredores estão entre as sugestões para cair o custo do sistema.

“Uma saída é racionalizar o custo do transporte, tornar mais eficiente e bancar o aumento do custo por meio de subsídio. Ao longo do tempo, a tarifa deixará de ser importante no orçamento das pessoas”, diz o especialista em transportes públicos Sergio Ejzenberg.

Ele lembra que a última licitação dos transportes não colaborou com a intenção de baratear os custos dos ônibus na capital. “Foi uma recontratação dos mesmos, por preços máximos, por 20 anos”, diz. 

Também especialista em transportes, Horácio Augusto Figueira diz que a prefeitura deveria melhorar a circulação dos ônibus, tornando os corredores, de fato, exclusivos para os coletivos. 

“Passaria de 20 km/h para 25 km/h, atrairia passageiros e a prefeitura poderia dizer que deu todas as condições operacionais para discutir as tarifas”, diz. “Hoje, a ineficiência da operação está sendo transferida para a população”, afirma.

Resposta

A Secretaria dos Transportes Metropolitanos, sob a gestão João Doria (PSDB), afirma que a composição tarifária do transporte público leva em consideração uma série de custos. 

Em nota, o governo estadual diz que que a EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos) aplica reajustes, normalmente anuais, calculados como determinado em contratos.

A Prefeitura de São Paulo, gestão Bruno Covas (PSDB), cita o subsídio do sistema de transportes como forma de manter a tarifa em um patamar acessível. 

“Tais compensações tarifárias correspondem à diferença entre a arrecadação do sistema e seu custo. Ou seja, quando o custo do sistema é maior do que o valor arrecadado com a tarifa paga pelo usuário, é necessário complementar o valor com o subsídio”, afirma. 

“A compensação garante a concessão de benefícios como gratuidade a idosos, pessoas com deficiência e alunos de baixa renda, meia tarifa para estudantes, além de manter a passagem em um patamar inclusivo”, afirma, em nota.

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