Pai afirma que assassinato de Gael surpreendeu toda a família

Motorista de 35 anos disse que mãe era "coruja e protetora"; ela foi presa sob suspeita de ser a responsável pela morte

São Paulo

A prisão de Andréia Freitas de Oliveira, mãe de Gael, de 3 anos, suspeita de matar o filho na segunda-feira (10), no apartamento onde moravam na região central da capital paulista, surpreendeu o pai do garoto, o motorista Felipe Nunes Félix de Farias, 35 anos. Ele havia passado o fim de semana anterior com a criança, levando-a de volta para a casa da mãe no domingo, um dia antes do crime.

“Eu tenho certeza que ela não estava em sã consciência. Ela jamais faria isso consciente. A Andréia amava muito o Gael e a outra filha [de 13 anos, que morava também com ela]”, afirmou Faria ao Agora.

Morador em Taboão da Serra (Grande SP), o motorista viajou para a Paraíba, estado onde vivem os avós paternos da criança, para enterrar o filho, na manhã de quinta-feira (13).

A pandemia da Covid-19 fez com que o pai visse o garoto somente três vezes entre dezembro do ano passado e o fim de semana que antecedeu a morte da criança. Por isso, diz, Andréia mandava para ele vídeos do menino. “Ele era uma criança muito inteligente”, diz o pai.

O motorista Felipe Nunes Félix Farias, junto com o filho Gael, de 3 anos, morto na segunda-feira (10), afirmou que a criança era paparicada e monitorada o tempo todo pela mãe, presa sob a suspeita de assassinar o menino - Arquivo Pessoal

Em um dos vídeos, gravado em 25 de fevereiro deste ano, a criança joga futebol no corredor do apartamento, inclusive com um mini-gol. Ao balançar a redinha, após chutar a bola, a mãe grita “gol” e o menino vem de encontro a ela.

Outro registro mostra Gael contando até dez, com a ajuda de Andréia, que também incentiva a criança a falar o próprio nome em outra gravação. “Esses vídeos mostram que ela era uma mãe presente e atenciosa. Não dá para entender, até agora, o que provocou toda essa tragédia”, indagou o pai.

O motorista ainda afirmou que, por ser “coruja e protetora", Andréia estipulava regras a serem seguidas pelo pai quando a criança saía com ele, inclusive, com relação à ingestão de doces e à segurança do garoto. “Ela falava para tomar cuidado, para ele não correr na rua ou dentro de casa. Ela me passava um relatório para tomar conta do meu filho”, afirmou.

Quando trabalhava, na manhã do dia 10, Farias recebeu um telefonema de um ex-marido de Andréia, com quem ela teve a filha, atualmente com 13 anos. “Ele me falou que o Gael tinha ido para o hospital e que estava mal. Quando ele falou que a Andréia se trancou no banheiro e tentou se matar, sabia que alguma coisa muito grave tinha acontecido.”

Andréia teria ingerido produtos de limpeza, segundo registrado pela Polícia Civil, logo após o corpo do menino ter sido visto pela tia-avó, que também morava no apartamento, por volta das 9h. A criança já estava morta, ainda de acordo com a polícia, e mesmo assim foi levada para o pronto-socorro da Santa Casa.

Farias e Andréia foram casados por um ano e cinco meses. Quando se separaram, Gael tinha seis meses. “Espero que ela pague pelo que fez, mesmo que não se lembre do que aconteceu", afirmou.

No dia do crime, a suspeita foi levada ao hospital do Mandaqui, por causa da ingestão dos produtos de limpeza. Na unidade de saúde, ela foi também atendida no Polo de Atenção Intensiva em Saúde Mental.

Segundo documento anexado ao processo, a suspeita teria "transtorno não especificado da personalidade."

O advogado Fabio Costa afirmou ao Agora, na terça-feira, que iria pedir um atestado de sanidade mental para a cliente. O pedido, porém, ainda não chegou ao Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo, de acordo com nota enviada pelo órgão à reportagem.

O defensor também afirmou, desde que assumiu o caso, que a cliente não se lembra do que aconteceu dentro do apartamento. Como argumento, ele disse que, ao ser informada sobre a morte de Gael, a mulher teria chorado. O advogado também sustenta que a cliente teve um "surto psicótico."

O motorista Felipe Nunes Félix Farias e o filho Gael, de 3 anos, em um dos raros momentos em que se encontraram presencialmente durante a pandemia da Covid-19 - Arquivo Pessoal

A mãe do menino está presa no complexo penitenciário de Tremembé (147 km de SP) desde quarta-feira (12). Andréia toi indiciada sob a suspeita de homicídio qualificado, por meio cruel, pela Polícia Civil.

Em 23 de fevereiro de 2012, foi assinado um atestado médico afirmando que a mulher era portadora de “transtorno afetivo bipolar, com episódios maníacos e sintomas psicóticos”. Segundo o processo do caso, por causa disso, ela passou por ao menos duas instituições de saúde.

Pareceres médicos, mencionados no processo, afirmam que a suspeita poderia apresentar "desorientação, agitação psicótica, ideias delirantes e desorganização", tendo como tratamento o uso de estabilizadores e antipsicóticos.

No dia do crime, um advogado que acompanhou Andréia entregou à 1ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) os documentos médicos de 2012 e, com isso, solicitou para que ela fosse internada compulsoriamente. O advogado que assumiu o caso, Fabio Costa, usou dos mesmos argumentos ao solicitar a liberdade provisória ou a internação da cliente. Os pedidos, porém, foram negados pela polícia e, posteriormente, pela Justiça.

Ao indeferir o pedido, o juiz Rafael Dahne Strenger, do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), argumenta que “não há laudo médico nesse sentido, bem como o comportamento da custodiada não torna nítida a inimputabilidade [exclusão de culpa].”

Os laudos mencionados no processo, acrescenta o magistrado, “não são suficientes para comprovar, por ora, a necessidade de internação provisória”. O juiz também não descarta a possibilidade de uma nova análise, “acaso outros elementos fáticos, probatórios ou processuais permitam.”

Especialista

O psiquiatra Marcelo Polazzo, formado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explicou que o CID (Classificação Internacional de Doenças) atribuído à Andréia, no parecer médico de 2012, pode resultar em sintomas como euforia intensa, sintomas psicóticos, mania de perseguição e, em alguns casos, “ouvir vozes de comando”, como para se suicidar, por exemplo.

“Mas em psiquiatria os diagnósticos são bem complexos de serem feitos. Para eu ter ideia do caso, precisaria ter uma entrevista com ela [suspeita] e com a família, principalmente, para saber sobre o comportamento dela”, afirmou, ponderando ser impossível isso ser feito atualmente, por causa da prisão da mulher.

Ele acrescentou que “diversos fatores” podem contribuir para sintomas psicóticos como esquizofrenia, consumo de drogas, depressão grave, além de disfunções orgânicas, como disfunções hormonais e câncer.

“Posso afirmar que, com base nos registros feitos sobre a paciente, que no mínimo ela tem alguma questão psiquiátrica sim. Mas não dá para alegar o que seja. Para isso seria necessária uma avaliação completa”, acrescentou, ressaltando ainda que para um diagnóstico do tipo muito tempo é demandado.

Polícia

A SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirmou que a investigação "segue em andamento" pela 1ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), onde novos depoimentos estão previstos "para os próximos dias."

"A autoridade policial aguarda o resultado dos laudos periciais, que estão em elaboração, e atua para esclarecer todas as circunstâncias relacionadas à morte da criança", diz trecho de nota.

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