Descrição de chapéu maternidade

Crianças de até 2 anos enfrentam desafios da pandemia com os pais

Especialistas e famílias já notam marcas deixadas pelo distanciamento e rigidez no convívio

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São Paulo

Pessoas com máscaras nos rostos, distanciamento físico, dificuldade de convívio até mesmo com familiares próximos e nada de brincadeiras com amiguinhos. Tudo isso envolto por estresse e insegurança que, inevitavelmente, acometem os pais. Crianças de até dois anos de idade têm sido as primeiras a crescer em um mundo tomado pelo coronavírus e o impacto disso na formação já é notado por especialistas.

A dona de casa Roberta Souza, 41 anos, com o filho Noah, 6 meses, o caçula de seus cinco filhos; ela afirma que a criança se mostra mais assustada que os mais velhos, quando tinham a mesma idade - Ronny Santos/Folhapress

Atraso na fala e na cognição são apenas alguns dos problemas enfrentados por parte dos pequenos durante esse período. “Tenho visto crianças até com alopecia [queda de cabelo] por causa da ansiedade. Sintomas de parasonia [dificuldade de sono] por falta de ritmo. Vão dormir tarde ou acordam cedo. Têm dificuldade de separar o vínculo materno, se tornam muito dependentes dos pais.

Tudo isso tem aparecido mais no consultório”, afirma a Gesika Amorim, que além de pediatra tem títulos como de especialista em tratamento integral do autismo e extensão em Psicofarmacologia e Neurologia Clínica em Harvard.

Segundo a médica, as crianças estão restritas a espaços menores, apresentando também atraso no desenvolvimento motor. “É imprescindível o contato com a natureza, múltiplas atividades físicas, que são primordiais no neurodesenvolvimento. Em outras situações, não-pandêmicas, elas estariam na escola ou nas creches, estimulando o desenvolvimento motor”, afirma.

A especialista afirma que fica a cargo dos pais, além de manter a estabilidade emocional, proporcionar uma rotina próxima da normalidade, seguindo as regras de segurança sanitária.

Diferenças

A dona de casa Roberta Souza, 41 anos, tem cinco filhos e vê diferenças no desenvolvimento do caçula, Noah, de apenas seis meses, em relação ao que apresentavam os irmãos, quando tinham a mesma idade. “Ele tem um olharzinho mais triste. O desenvolvimento é mais lento do que foi o dos outros. Ele tem medo de tudo”, afirma. “Escuta o barulho de moto, de carro, buzina, fica mais assustado. Dá aqueles pulinhos e arregala os olhos”, conta.

Roberta não tem dúvida de que a pandemia, que limitou o convívio da criança, é responsável por isso. “É uma experiência nova que estou tendo, por não sair com ele. Com os outros, eu ia para shopping, cinema, parque. Com ele, só fico em casa. Não vejo a hora de passar a pandemia para curtir mais com o meu bebê”, diz.

Os irmãos de Noah são bem mais velhos, de 5 aos 21 anos. A única criança mais próxima é o filho de uma sobrinha de Roberta, de 3 anos. “Ele fica mais na TV que os outros. Só posso levar em cima da laje, mas como venta muito, ele toma pouco banho de sol”, fala.

‘Nunca se viu tanta criança com atraso na fala’, diz pediatra

Membro da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), Felipe Kalil afirma que as famílias não estão acostumadas a manter crianças de até 2 anos de idade dentro de casa e, para os pais, o home office também não é algo natural.

“O lado ruim é que afeta tanto o trabalho quanto o convívio com as crianças”, diz. “No entanto, tem um lado positivo. Muitos pais estão mais ligados, antenados, na questão do desenvolvimento dos filhos”, afirma.

Segundo o especialista, algumas percepções têm sido importantes. “Em relatos de colegas neurologistas, pediatras, fonoaudiólogos, nunca se viu tanta criança com atraso na fala, no desenvolvimento, quanto nessa pandemia”, afirma.

O médico explica também que a falta de socialização é um obstáculo. “Elas não estão vendo bocas se mexendo. Até os dois anos, elas precisam do espelhamento. Usar os neurônios espelho, que são aqueles responsáveis por, por exemplo, fazer bocejar ao ver alguém bocejando”, diz.

O especialista afirma que ainda se questiona se é necessário ou não uma criança de dois anos de idade ir à creche ou à escola. “Não necessariamente precisam de escola, porém, o que acontece, e temos visto, é a falta de socialização. Grave é a criança não socializar, não ver outras, não puder ir à pracinha, às festinhas de aniversário, não poder ver os avós, tios, primos, crianças da mesma idade”, afirma. “Isso pode causar transtorno no desenvolvimento, porque a única forma que essas crianças têm de interação é com adultos e cuidadores.”

Kalil reforça a importância das brincadeiras, daí a necessidade de evitar TV e celular como distração. “Se uma criança está brincando no chão, ela ativa muito mais regiões do cérebro do que parada em frente a uma tela”, afirma.

Pais devem evitar atenção compartilhada, diz pediatra

A pediatra Vania Gato, da Lumos Cultural, afirma que a atenção compartilhada é algo que precisa ser evitado, mesmo em um momento que os pais, muitas vezes, estão trabalhando em casa.
“Tem que reservar um momento para dar a atenção exclusiva. Sei que é complicado, porque é exaustivo, sobrecarregado principalmente para as mães, mas acho que temos que dedicar um momento”, diz.

A pediatra explica que as crianças na faixa etária abaixo dos dois anos se beneficiam muito de passeios, experiências diversas, escola, momentos em família e de confraternização com outras da mesma idade. “Não poder sair de casa, sair com medo, com restrição”, fala. “As famílias com criança pequena estão cortando um dobrado com a pandemia para tentar mantê-las em casa, distrair, fazer atividades. A criança tem muita energia. Prejudica quando não proporcionamos espaços”, explica.

‘Estabilidade emocional dos pais é fundamental’, afirmam especialistas

Muito se comenta sobre as crianças, mas os pais têm um papel fundamental, a despeito das pressões externas. “A gente fala sobre a sanidade mental e emocional da relação familiar. Manter sempre a estabilidade emocional”, diz a pediatra Gesika Amorim.

“Temos o fato de ficar em casa, em home office, sem auxílio de terceiros, o que é um grande gerador de ansiedade e transtornos comportamentais nos pais”, explica a médica. “Isso é inegável, é um momento muito difícil para eles. Mas os pais precisam ter a consciência de manter a rotina mais próxima possível e tentar manter a estabilidade emocional dos seus filhos”, afirma.

Segundo o médico Paulo Telles, da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), os pais precisam se manter sãos. “Precisamos de pais resilientes, atentos e disponíveis para que a criança receba os estímulos adequados para seu desenvolvimento cerebral”, diz.

Telles dá algumas dicas. “Tente criar um ambiente seguro dentro de sua casa, esforce-se para blindá-lo de todo este turbilhão que a pandemia está nos causando”, diz. Ouvir, prestar atenção, não tentar fazer duas tarefas ao mesmo tempo, interagindo diretamente com o filho é um bom caminho. “Cuide-se, tente dormir bem, fazer algum exercício físico, faça meditação, ioga, seu bem estar vai ajudar a manter o bem estar de seu filho”, recomenda.

Morte também afeta rotina de crianças pequenas

Com a pandemia tendo levado embora quase meio milhão de brasileiros desde o ano passado, a morte pode ser algo muito próximo de grande parte das famílias. Especialista em emergências pediátricas pelo Instituto Israelita Albert Einstein e integrante da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), Francielle Tosatti afirma que, em relação ao luto, crianças de até 2 anos sentirão principalmente a ausência, especialmente se o ente querido era próximo e estava intimamente envolvido em sua rotina.

“Engana-se quem negligencia o luto dos menores, por acreditar, muitas vezes por um conceito sociocultural, que criança ‘por ser pequena’ e ‘não entender’, não se enluta”, diz.
Francielle afirma que as conversas devem ser sempre honestas, evitando eufemismos, como “fez uma longa viagem”ou “dormiu para sempre”. “Não contribuem com a elaboração do luto, além de dar espaço para fantasias e fobias como medo de dormir ou viajar”, afirma.

O acolhimento sempre é importante, mas fundamental diante do atual momento, segundo a pediatra. “Esteja preparado para perguntas repetidas e para reafirmar tantas vezes quantas forem necessárias que o ocorrido não foi culpa da criança”, diz. “Por fim, manter a rotina e a constância nos cuidados da criança sempre com muito afeto e amor promoverá a reorganização emocional, a resiliência e a elaboração que esse momento exige”, completa.

Personal trainer cuida da filha e de nova gestação

A professora e personal trainer Carla Soares Bosco Martins, 31 anos, comemorou dia 6 os dois anos de sua filha Maya Gabriella. Além disso, está na 28ª semana de uma nova gestação, o que faz com que mantenha todos os cuidados para evitar uma nova contaminação pelo coronavírus. Ela, o marido e a filha tiveram Covid-19 em janeiro.

"Quando desce para o parquinho do prédio, somos eu e ela. Sou a melhor amiga da Maya e ela é minha melhor amiga. É triste, tem afetado muito a parte emocional dela. Está passando por aquele momento da ’adolescência da infância’. Isso acaba intensificando um pouco as reações de frustração", diz.

O fato de não ter contato com colegas da mesma idade e nem poder frequentar a escola tem trazido algumas dificuldades no convívio social. Em uma das raras oportunidades em que esteve perto de outra criança, acabou apanhando, o que deixou um trauma. Como não viu outra nos dias seguintes, sempre que cruza por uma na rua se mostra assustada e busca o acolhimento da mãe.

Apesar das limitações de convívio social, Maya desenvolveu bem outros aspectos. "É uma criança muito doce, muito independente. Ela andou com oito para nove meses. Desfraldou com 1 ano e meio. Fala muito bem. É muito ativa, mas porque damos essa independência cognitiva e motora. Sou formada em educação física e meu marido também", diz Carla.

A dependência dos pais, porém, gera uma sobrecarga para o casal. "Acabo tendo que dar conta de fazer tarefas de casa, o lado materno, o relacionamento e a carreira", diz.

‘A gente acorda várias vezes à noite’, afirma fisioterapeuta

O desgaste provocado pela pandemia atinge em cheio também os pais. A fisioterapeuta Gisely Letícia Duarte, 24 anos, é mãe de Thor, 11 meses, trabalha fora de casa e afirma que precisa se desdobrar no dia a dia para dar conta de tudo.

“Chego e tenho que dar o máximo. A criança percebe quando os pais não estão relaxados, quando estão tensos. O sono de todo mundo está afetado, ninguém consegue dormir direito. A gente acorda várias vezes à noite”, diz.

Durante o dia, o marido de Gisely fica em casa em home office e o casal conta com a ajuda de pessoa para cuidar da criança. Segundo a fisioterapeuta, o pai de Thor também tem se mostrado ansioso. “A carga mental para a mãe fica muito grande. Tem momento em que eu também quero desabar e não posso”, conta.

Tantas dificuldades fizeram com que o casal abrisse mão, em parte, do desejo de que o filho não ficasse exposto a telas na infância. “Ele bebezinho e a gente não ligava a TV e nem celular com ele no colo eu gostava de usar. Só que esse seria o mundo ideal”, diz. “Quando ele ficou com nove meses, comecei a liberar para assistir a 10 minutos por dia. De repente, 20, meia-hora, e a TV já estava livre.”

Gisely diz que o filho já pega o controle e aponta para a televisão. Também descobriu que dá para assistir pelo celular. “Muitas vezes, não tinha o que fazer. A casa estava um caos, o pai em home office e eu estava sem tomar banho, sem almoçar.”

‘Tenho medo de que as pessoas não tenham paciência com ela’, diz mãe pediatra

Em algumas situações, a mãe é também pediatra. É o caso da médica Bruna Araújo Lustosa Vieira, 32 anos, que teve a sua primeira filha, Isabela, há 8 meses. Além dos pais, a criança só mantém contato com a babá.

O lado profissional de Bruna faz com que tenha consciência do que a privação de convívio social possa causar. “Tenho medo de que as pessoas não tenham paciência com ela depois da pandemia. Tenho medo de acharem que ‘ela parece um bichinho do mato’, como já me disseram uma vez... Acredito que a pandemia trará impactos também no desenvolvimento neuropsicomotor dela, por não ter contato com tantas coisas, ficar mais restrita ao ambiente doméstico”, diz.

Bruna conta ainda que o contato com os avós, por vídeo-chamada, são as raras ocasiões em que Isabela vê a tela de um celular. A médica diz que conversa com o marido sobre a possibilidade de passear com a filha em ambientes abertos, como parques. Mas o pai ainda tem receio. “Me chateia o fato de não podermos sair de casa porque as pessoas não se cuidam e não cuidam dos demais, fazendo com que haja proliferação do vírus em larga escala”, diz.

Em casa, a mãe e médica diz que as aglomerações voltaram a acontecer em uma praça perto de sua casa, o que também trouxe impactos para Isabela. “Eu notei que ela era um bebê que reagia muito mal aos barulhos, mesmo que muito pequenos, como o dos talheres em um prato. Demorou muito até que ela se adaptasse.”

O desabafo da mãe que também é médica dá dimensão ao tamanho dos desafios impostos às famílias pelo coronavírus. “Estamos esgotados, pois não temos rede de apoio e não temos coragem de contratar uma funcionária para nos ajudar com os cuidados da casa. Sinto que estamos apenas sobrevivendo ao caos do dia a dia”, diz.

Desenvolvedora se surpreendeu com reação da filha ao ver crianças

A desenvolvedora de software Vanessa Martinez Tonini, 31 anos, afirma que percebeu o tanto que a filha Yasmim Lis, de 11 meses, estava perdendo, ao levá-la recentemente a uma festinha de aniversário com outras três crianças apenas. Até então, ela não tinha esse contato.

“O aniversariante deu um abraço nela, que adorou. Foi incrívell, ficou muito entusiasmada, muito animada”, diz Vanessa. “Confesso que quero fazer mais vezes, mas tenho medo de me arriscar, sim”, afirma.

Para Vanessa, os desafios são maiores porque também enfrentou uma separação quando Yasmim era ainda menor. “Ter um bebê já é muito intenso. Ter um bebê durante a pandemia é mais intenso ainda. A gente precisa de comunicação clara e direta o tempo. E precisa ser não violenta, afetiva”, diz.

Em home office, a desenvolvedora de software conta com a mãe, que mora no mesmo prédio, mas em outra casa, para ajudar com a filha. “A gente teve que desenvolver outras habilidades emocionais para conseguir suportar. Não tem sido fácil. Tenho feito terapia para conseguir me ajudar a passar por esse processo e não descontar na minha filha, mas sinto que tem momentos de muito estresse, principalmente com a minha mãe, que se tornou a segunda principal cuidadora da minha filha”, diz.

Entre os motivos de estresse com a mãe, a avó de Yasmim, Vanessa diz que está o uso de telas, algo que ela gostaria de evitar. “A minha filha já não almoça ou janta sem tela. Está sendo terrível”, afirma.

Controller vive no Canadá e lamenta distância de familiares

A controller Viviane Generoso Rick, 37 anos, vive com o marido e a filha, Eliza , 10 meses, no Canadá, onde a criança nasceu quando o coronavírus já assolava o mundo, em julho de 2020.
Embora a região do Québec, onde vivem, não tenha casos ativos de Covid-19 e a população conte com a vacina, a pandemia já causou transtornos na vida familiar.

Sem parentes por perto, sem uma rede apoio, a criança vive basicamente com os pais e só foi conhecer os avós em janeiro, quando a família veio ao Brasil. “A gente vai ao supermercado, as pessoas brincam e ela se assusta, começa a chorar. A gente até apelidou de ‘bichinho do mato’. Por causa dessa falta de socialização, a gente percebe que ela não se acostumou a ver pessoas”, diz Viviane.

A mãe conta que uma das grandes dificuldades é conseguir vaga em creche. Também não há babás disponíveis, como no Brasil. Quem cuida da criança é o pai, enquanto Viviane trabalha em casa. O ponto negativo é dificuldade de concentração no trabalho, diante do choro e dos pedidos de atenção da filha. “Sinceramente, sempre fui muito workaholic, e, pós-maternidade, eu estou sofrendo, porque não consigo me dedicar como antes. Tenho que gerenciar meu psicológico”, afirma. O lado positivo é que consegue amamentar a filha.

A controller diz que, com parentes por perto, Eliza estaria mais adaptada a ver pessoas, o que ajudaria no desenvolvimento. “Existe um atraso. Não é algo impactante, que ela vai ser menos ou mais que fulano. Como fica só pai e mãe, fica monótono, chato, entediante. Tendo outras pessoas, são vozes diferentes, brincadeiras diferentes”, diz.

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