Tobogã do Pacaembu deixa saudades em ídolos e em torcedores

Em processo de demolição, setor do estádio é lembrado com carinho

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São Paulo

Uma demolição controversa começou a mudar a paisagem nos arredores da Praça Charles Miller. O tobogã do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho —o Pacaembu— deixará de existir, como parte da série de reformas planejadas desde a concessão do local à iniciativa privada.

No lugar, a concessionária Allegra Pacaembu pretende erguer um prédio que se estenderá de ponta a ponta da arquibancada, com a finalidade de atrair restaurantes, escritórios compartilhados e espaços culturais.

Concessionária que vai administrar o complexo do Pacaembu por mais 34 anos, a Allegra Pacaembu dá início às obras de demolição do tobogã - Eduardo Knapp/Folhapress

Uma das consequências da mudança é a redução da capacidade do estádio de 40 mil para 26 mil, número suficiente para a Allegra, que argumenta que a média de público nos últimos anos é próxima de 19 mil pessoas.

A demolição, que já constava no projeto sugerido no edital da Prefeitura de São Paulo, resistiu à oposição da Associação Viva Pacaembu, formada por moradores do bairro, e provocou reações mistas no esporte.

Para torcedores que costumavam a frequentar o setor, cujos ingressos eram os mais baratos do estádio, a derrubada é lamentada.

Edvaldo Gonçalves, caminhoneiro de 56 anos, é santista e recorda até hoje a vista privilegiada de um gol de falta feito por Aílton Lira, graças ao posicionamento do tobogã atrás de uma das traves. A partida de 1979 terminou em vitória por 2 a 0 para o Santos sobre a Ponte Preta.

“O tobogã para mim era tudo, porque ele nivelava as pessoas”, conta. “Era mais barato, a maioria conseguia comprar o ingresso”, lembra. Com a demolição, ele teme a descaracterização do estádio.

O professor Francisco Ramos de Jesus Neto, 43, também acredita que o tobogã fará falta.

“Fui assistir à final do Estadual de 2004 com um amigo. Fomos prestigiar o São Caetano, apesar de eu ser palmeirense e ele, são-paulino, mas ficamos na torcida do Paulista de Jundiaí, no tobogã, que não tinha filas [para comprar ingressos], era mais barato e, na entrada, tinha as melhores barracas de pernil”, diz. “E de lá vimos os gols de Marcinho e Mineiro, sem poder comemorar esse momento único do Azulão”, recorda. “É uma pena que parte da história do futebol paulista tenha sido destruída."

A realizadora Vitória Liz Campos, 23, é torcedora do Corinthians. Embora tenha assistido a jogos em outros setores, ela lembra que o tobogã era o “xodó das torcidas, inclusive da Fiel”. Para ela, “a demolição do tobogã, principalmente enquanto ainda estamos vivendo esse período de estádios vazios, é um ceifar violento de parte da identidade do futebol paulista”.

Procurada pela reportagem, a Gaviões da Fiel, maior organizada do Timão, posicionou-se contra a demolição: “Um absurdo o que estão fazendo com um patrimônio da cidade, um palco de muitas vitórias e emoções da nação corinthiana”.

Craques lamentam

Quem viu o tobogã do gramado do Pacaembu também vai sentir saudade. O goleiro Tobias, que atuou em 125 jogos e consagrou-se na história do Corinthians ao vencer o Campeonato Paulista de 1977, também via beleza na acessibilidade do tobogã aos torcedores.

“Quando eu joguei no Corinthians, era nossa casa, né? Era o estádio mais bonito e o mais acessível, as pessoas podiam ir assistir ao jogo”, lembra. Sobre a demolição, ele complementa: “Uma tristeza.”
Na última terça-feira (29), quando vídeos do processo de derrubada viralizaram nas redes sociais, o lateral esquerdo Fábio Santos também relembrou de bons momentos no estádio.

“Por mais que ajude as pessoas, eu tive um sentimento de tristeza. É uma história que vai se apagando”, disse o jogador, que venceu três campeonatos no Pacaembu. “Eu só tenho lembranças maravilhosas, de gols, conquistas, eu entrando no estádio com meus filhos pequenos, só tenho memórias boas.”

Antônio José da Silva Filho, o Biro-Biro, 62, fez seu primeiro gol pelo clube do Parque São Jorge neste mesmo estádio, em 1978, contra o América de Rio Preto. O volante jogaria outras 500 partidas pelo clube, do qual se tornaria ídolo. Biro-Biro ressalta que as boas lembranças do local ficarão na memória do torcedor e na história do futebol paulista. “E claro, para a gente, todos os jogadores que jogaram lá tenho certeza que estão sentindo muito, assim como eu estou”, afirma.

Biro-Biro (à dir.) comemora com Edson e Everton (abraçados) e Wilson Mano um dos gols da vitória do Corinthians no clássico com o Santos, no Pacaembu, pela semifinal do Campeonato Paulista de 1988 - Wilson Melo - 17.jul.88/Folhapress

Concessionária diz que espaço será mais democrático e plural

O projeto original do estádio é tombado como patrimônio histórico de São Paulo, o que força a preservação de grande parte da estrutura —incluindo a icônica fachada— na reforma da Allegra Pacaembu.

O tobogã, no entanto, escapa à proteção por não ser parte da planta original. Ele surgiu em 1970, após a derrubada da Concha Acústica —a construção em formato de arco funcionava como amplificador de som para apresentações além do futebol: peças, orquestras, bandas e palestras. O tobogã entrou em cena para aumentar o espaço de arquibancada do estádio.

Uma das justificativas da concessionária para a demolição é justamente a retomada das atividades culturais no Pacaembu. Segundo a empresa, o tobogã servia como uma completa separação entre campo e centro esportivo, algo que não existirá no “novo” Pacaembu. No dia a dia, pessoas que passearem pelo complexo para comer, malhar ou trabalhar terão vista direta para o gramado. “O complexo passará a ter muitos outros usos, atraindo um fluxo diário de 7.500 pessoas”, diz.

Outro personagem importante da história do Timão, o ex-meia Neto apoia a modernização. “Vai ser maravilhoso, vai arrebentar com o Allianz Parque. E ficam: ‘ah, mas tão tirando o tobogã’. Pega um bloco de cimento e leva pra casa”, disse no programa Os Donos da Bola.

“A reforma do estádio em si pode atrair mais jogos, mas de clubes menores. E traria outros eventos”, concorda o estudante corintiano Gabriel Lafuente, 23.

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