Vítimas das chuvas de março não conseguem sacar FGTS

Acesso ao fundo foi prometido por Covas em março passado

Leonardo Zvarick

Os moradores dos bairros mais impactados pelas enchentes que atingiram a cidade de São Paulo em março ainda não conseguiram sacar o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), benefício prometido pela prefeitura, sob gestão Bruno Covas (PSDB), há um mês. Enquanto a compensação não chega, dezenas de famílias dependem de doações para se reestruturarem.

A população espera a concessão dos benefícios desde 13 de março, quando o prefeito determinou, por meio de decreto, estado de emergência no Ipiranga, Vila Carioca (zona sul), Vila Prudente (zona leste) e Cambuci (região central). No dia 29, o texto passou a incluir bairros da região de São Miguel Paulista (zona leste).

Entre os moradores, repetem-se as reclamações sobre burocracia e falta de informação. Inicialmente, foi divulgado que as vítimas das chuvas precisariam de um atestado da Defesa Civil, comprovando residência em rua atingida pelas cheias, para ter direito ao benefício.

Munidos da documentação, poderiam solicitar o saque de até R$ 6.220 do FGTS nas agências da Caixa Econômica Federal.

Assim fez Diego Lourenço, 30 anos. Após três dias insistindo com a Subprefeitura de São Miguel Paulista, ele conseguiu o atestado, mas foi informado por funcionários da Caixa de que o banco ainda não tinha recebido da prefeitura o cadastramento dos endereços.

“Ninguém sabe orientar a gente quanto ao que fazer”, reclamou o auxiliar de eletricista. “A gente não deveria ter que passar por tanta dificuldade, ainda mais nessa situação, pra conseguir um dinheiro que é nosso”, disse.

Moradora do mesmo bairro, a dona de casa Vânia de Souza, 39, diz que inundações são constantes desde 1992, quando chegou à região. Em março, perdeu cerca de R$ 2.000 em aparelhos eletrônicos danificados.

Morador da Vila Aimoré, Vitor da Silva, 32 anos, disse que ficou uma semana afastado do trabalho na época. “Para sair de casa, tive que andar na enchente e peguei uma broncopneumonia”, disse o vigilante. “Se lá no Ipiranga foi ruim, pode ter certeza que aqui foi pior. Na minha casa, subiu uma água preta, pelo ralo, até meio metro de altura”.

Há dois anos, uma outra enchente destruiu completamente sua casa. “Fiquei um mês morando de favor até me recuperar”.

Ele relata que tentou conseguir o atestado da Defesa Civil na Subprefeitura São Miguel, mas foi orientado a aguardar um mutirão marcado para o próximo sábado, onde representantes da Caixa estadão presentes para esclarecimentos. “Não entendo por que tanta demora. Quando chove, as ruas enchem muito rápido. Estão esperando as pessoas perderem tudo novamente?”

Apesar de histórico de alagamentos, bairros próximos à várzea do Tietê (zona leste) só foram contemplados pelo decreto de Bruno Covas duas semanas após início das chuvas, em 11 de março.

Protesto

Funcionários e donos de empresas se reuniram ontem em passeata no polo industrial da avenida Henry Ford, que divide as regiões do Ipiranga e Mooca. Os manifestantes pediam aos governos municipal e estadual isenção de impostos e linhas de crédito para que possam se reerguer após prejuízo provocado por enchentes.

O gestor da Novalata Embalagens Metálicas, João Lo Ré Neto, disse que as chuvas provocaram danos sem precedentes à região. Dezenas de galpões foram inundados, destruindo maquinário, materiais e produtos.

“Nunca, nos mais de 25 anos da empresa, houve uma crise tão grande”, disse o metalúrgico, que foi um dos organizadores do ato. Ele estima que cerca de 4,5 mil pessoas tenham comparecido ao protesto.

Hoje, a Novalata já está trabalhando com 80% de sua capacidade, disse o gestor. Em outras fábricas, entretanto, a produtividade não chega a 10%”. Se não receberem ajuda agora, há grandes chances de ficarem pelo caminho”, afirmou.

A única compensação oferecida aos empresários do setor foi isenção no IPTU, com um teto de 20 mil reais - segundo Neto, o valor não para nem as caçambas contratadas para remover entulhos. “Na Novalata, o prejuízo passou dos R$ 30 milhões”.

Segundo a Associação Comercial de São Paulo, 58 empresas foram afetadas, com prejuízos na ordem de R$ 120 milhões.

Resposta

Por meio de notas, a Prefeitura de São Paulo, sob gestão Bruno Covas (PSDB), e a Caixa Econômica Federal disseram que a liberação dos pagamentos do FGTS está prevista para a próxima segunda-feira.

A Caixa disse, no entanto, que mapeamento das regiões afetadas pelas enchentes feito pela prefeitura ainda está incompleto, e deve ser complementada nos próximos dias para consolidação de uma base de dados de cadastro. “Quando os trâmites estiverem definidos, os procedimentos serão amplamente divulgados para a população e a Caixa também prestará informações pelo serviço de atendimento ao consumidor”, disse o texto

A Subprefeitura São Miguel afirmou a realização do evento Jornada Cidadã no próximo sábado (Estrada da Biacica, 756), onde receberá solicitações da população.

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