Idosos ativistas colaboram com a fiscalização pública em SP

Pessoas com mais de 60 têm desempenhado papéis voluntários importantes

Elaine Granconato
São Paulo

Um grupo de idosos está ajudando a monitorar os gastos públicos na capital paulista. Também acompanham as licitações, fiscalizam o poder público e fomentam o controle social em forma de trabalho voluntário. Estes ativistas, acima de 60 anos, atuam na ONG Observatório Social do Brasil-São Paulo.
A unidade, que integra a rede de Observatórios Sociais espalhada em 136 cidades do país, reúne cidadãos em favor da eficiência e da transparência dos atos da Prefeitura de São Paulo, gestão Bruno Covas (PSDB).

"Além de direito, é nossa obrigação acompanhar e monitorar o serviço público, que a gente contribui com o pagamento de impostos", afirma o auditor contábil aposentado Claudio Filippi, 80 anos, o voluntário mais experiente da turma.

No observatório, Filippi chegou em 2016 para atuar como voluntário, inspirado por outro já existente no estado de São Paulo. Atualmente, ele pertence ao conselho consultivo. "A gente faz sugestões, de maneira geral, nos projetos desenvolvidos", afirma o aposentado, que defende a educação fiscal como disciplina curricular nos ensinos público e privado.
 

Claudio Filippi (camisa xadreza), 80 anos e Gioia Tumbiolo (oculos) participam de uma reunião como voluntários do Observatório Social do Brasil, entidade que monitora licitações, os gastos dos vereadores, a execução financeira do município, entre outros. Todos os integrantes são voluntários, membros da sociedade civil.
Claudio Filippi (camisa xadreza), 80 anos e Gioia Tumbiolo (oculos) participam de uma reunião como voluntários do Observatório Social do Brasil, entidade que monitora licitações, os gastos dos vereadores, a execução financeira do município, entre outros. Todos os integrantes são voluntários, membros da sociedade civil. - Rubens Cavallari/Folhapress

O presidente do Observatório Social do Brasil-São Paulo, Paulo de Oliveira Abrahão, 53, diz que a ONG funciona com a mão de obra do voluntário. "Em particular, a participação do idoso é extremamente importante pela experiência de vida e profissional", afirma.

E o idoso vai além: "A idéia de fazer um trabalho voluntário é, na maioria das vezes, de assistencialismo, que, sem dúvida, tem o seu valor", afirma. "O observatório funciona como um canal, principalmente ao idoso, para mudar nossa realidade de baixa eficiência e pouco controle dos gastos públicos."
A indignação com o desperdício de dinheiro público foi um dos motivos que atraiu a professora de educação básica aposentada Cleonice Capecci Crispim, 75, ao observatório, há aproximadamente dez meses.

Voluntária atuante em reuniões quinzenais mensais e conselheira participativa municipal do idoso, Cleonice monitora os serviços dos 92 núcleos de convivência da terceira idade, administrados pela prefeitura. "São importantes para o bem-estar deles, mas ainda há demanda é maior que a oferta", diz.

Geólogo buscou as árvores prometidas

​O geólogo aposentado Abílio Nunes, 71 anos, exerceu na prática o controle social. Em 2016, contou as 500 árvores que a prefeitura, gestão Fernando Haddad (PT), prometeu plantar entre Pinheiros (zona oeste) e Itaim Bibi (zona sul). Caminhou por duas manhãs de domingo e cerca de três horas em cada dia, do largo da Batata até a avenida Juscelino Kubitschek.

O geólogo aposentado Abílio Nunes, 71 anos, é um dos voluntários do projeto Cuidando do seu bairro.  Em 2016, ele saiu, em duas manhãs de domingo, contando as 500 árvores que a Prefeitura de São Paulo prometeu plantar no trecho do largo da Batata até a avenida Juscelino Kubitschek
O geólogo aposentado Abílio Nunes, 71 anos, é um dos voluntários do projeto Cuidando do seu bairro. Em 2016, ele saiu, em duas manhãs de domingo, contando as 500 árvores que a Prefeitura de São Paulo prometeu plantar no trecho do largo da Batata até a avenida Juscelino Kubitschek - Rubens Cavallari/Folhapress

O trajeto, segundo Nunes, deu em torno de 3 km. De 500 árvores prometidas pelo poder público, contabilizou 490. "Saí em campo para contar", relembra o geólogo que por dez anos viveu na Amazônia e alguns estados do nordeste. Ou seja, fez na prática o que aprende no Observatório Social de São Paulo como voluntário há três anos: fiscalizar os gastos públicos.

O aposentado integra o Cuidando do Meu Bairro, projeto no qual os voluntários fiscalizam os locais públicos, como escolas, parques e equipamentos em geral, com o apoio de um software desenvolvido pela USP.

 

Voluntários assumem compromisso

Vice-presidente do Observatório Social de São Paulo, Gioia Tumbiolo, 63 anos, afirma que o voluntário idoso costuma se encantar com a causa. E mais: o trabalho é visto como compromisso. "O que não ocorre com o voluntário mais novo", diz Gioia, uma das fundadoras da entidade e hoje aposentada, depois de 23 anos de trabalho na Receita Federal.​

O presidente Paulo de Oliveira Abrahão tem o mesmo ponto de vista. "O voluntário idoso é um público mais engajado", afirma. Claudio Filippi, por outro lado, vê, na prática, voluntários mais jovens abandonarem os projetos.

Idosos cobram mais núcleos na capital

Dos cinco projetos do Observatório Social de São Paulo em andamento, o que avalia os NCIs (Núcleos de Convivência do Idoso) é integrado por seis voluntários da terceira idade, todos eles são representantes da sociedade civil. Eles fazem o levantamento dos centros nos bairros e da população atendida, verifica o funcionamento do serviço e faz relatórios à prefeitura.

O grupo é comandado por Rubens Casado, 71 anos, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e também ex-presidente do conselho municipal da área. Casado se debruça atualmente sobre um estudo que aponta a alta demanda de idosos na capital e a baixa oferta desses equipamentos para que desenvolvam as atividades.

No levantamento feito pelo grupo, são 91 unidades distribuídas por 50 distritos em toda a capital, com um total de 12.610 vagas. "Temos 46 distritos importantes e populosos sem núcleos", afirma o coronel da reserva da PM.

Por exemplo, na zona norte, a Vila Medeiros, tem 17,34% de idosos, que correspondem a 21.594 pessoas (a população total é de 124.500). O distrito não conta com o núcleo. "Em vez de ampliar, estamos regredindo. Por que essa desigualdade nas regiões?", questiona Casado, ao acrescentar que hoje são 300 mil idosos em situação de vulnerabilidade social à espera de uma vaga.

Prefeitura tem quase 15 mil inscritos

A Prefeitura de São Paulo, sob gestão Bruno Covas (PSDB), diz, em nota, que em dezembro de 2018 havia "14.912 idosos inscritos em atividades nas 92 unidades do Núcleos de Convivência do Idoso".

A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania diz que, segundo a Fundação SEADE, há 1,8 milhão de pessoas com 60 anos ou mais na capital, o que corresponde a 15% da população. Sobre a avaliação do trabalho dos voluntários do Observatório Social de São Paulo nos Núcleos de Convivência do Idoso, a prefeitura não se pronunciou. 

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