Motoristas de aplicativo se mobilizam contra assaltos e criam táticas

Troca de mensagens e rede de contatos ajudam a evitar que eles se tornem vítimas de ladrões

Alfredo Henrique
São Paulo

A onda de violência faz com que motoristas de aplicativos se mobilizem para se prevenir contra assaltos e assassinatos.

O motorista Thiago Patrício Valentim da Luz já escapou de ladrões três vezes. Como tática para evitar assaltos, participa de grupos com outros condutores - Ronny Santos/Folhapress

Na semana passada, cerca de 400 motoristas participaram de uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo com uma série de reivindicações de segurança.

Entre os pedidos estão desde a remoção de adesivos de identificação nos carros --que passaram a ser obrigatórios na capital em abril--, para serem menos visados, até a instalação de câmeras e botão do pânico nos veículos.

Motoristas também estão adotando por conta própria algumas ações para amenizar os riscos.

Patrício Valentim Luz, 31 anos, costuma cancelar pedidos de viagem quando desconfia do passageiro.

"Quando aceito uma corrida, vejo o endereço e o informo em um grupo [de motoristas] da região [por meio de aplicativo de mensagem] onde iriei para saber se corro algum tipo de risco", diz --isso só é possível no caso da empresa 99, que fornece ao condutor o destino preciso antes de ele aceitar uma corrida.

Em cerca de dois anos e meio como motorista de aplicativo, Luz escapou de três tentativas de roubo.
Motoristas também afirmam que desistem de uma corrida quando ela é pedida por uma mulher e descobrem que o passageiro é um homem ou vice-versa. 

E ainda usam códigos em mensagens para outros motoristas quando estão em uma corrida suspeita. Se o condutor demorar muito para se comunicar durante a viagem, o colega deverá chamar a polícia.

Violência

Quatro motoristas de aplicativos acabaram mortos em ações criminosas em duas semanas.
Na madrugada deste domingo (29), um motorista que não teve nome e idade revelados, foi morto a tiros em Suzano (Grande SP). 

Segundo boletim de ocorrência, havia duas passageiras no carro. Elas contaram que um outro veículo fechou o do motorista, obrigando-o a parar. Em seguida, houve o disparo. Nada foi roubado e nenhuma das mulheres ficou ferida.

Os três outros casos, nos dias 15 e 18, foram em Itaquaquecetuba (Grande SP), na capital e em Diadema (ABC). (Com Renato Fontes)

Vítima

Um empresário, na época com 40 anos, era sócio da mulher, uma consultora de 35 anos, em um negócio de decoração de festas infantis. Mas como a empresa não estava dando retorno, ele decidiu, em 2017, complementar a renda como motorista de aplicativo.

Sempre cauteloso, segundo a mulher, o marido evitava viagens para regiões conhecidas por riscos de violência. Quando precisava levar um passageiro a algum deste lugares, retornava com o aplicativo desativado. “Mas de nada adiantou, pois na única vez que bobeou e foi assaltado, acabou morto”, diz a viúva. 

Na madrugada de 22 de setembro de 2018, três criminosos embarcaram no carro do motorista após ele deixar um passageiro na Vila Jacuí (zona norte da capital), usando o aplicativo da Uber. Eles rodaram com a vítima por quase duas horas, até que o condutor bateu o carro em alta velocidade, perto de um baile funk na zona leste da cidade. 

O motorista acabou baleado no lado direito do rosto. Ele foi levado ao hospital Tide Setúbal (zona leste), onde morreu. Os ladrões, que não foram presos, levaram R$ 17 e um crucifixo de prata. “Até hoje não foi pago o seguro pelo caso dele, que morreu trabalhando”, afirma a viúva. (A

Respostas

As três principais empresas de aplicativos de transporte que operam na capital e na Grande São Paulo dizem zelar pela segurança de passageiros e motoristas.

Segundo a 99, seus condutores já podem optar se querem ou não receber o pagamento em dinheiro. 
A Cabify afirma que elabora um posicionamento, relacionando as demandas de segurança, para ser apresentado aos representantes dos condutores. 

A Uber afirma que, como medida de segurança, passou a exigir CPF de passageiros que queiram pagar viagens com dinheiro. 

Sobre a morte do motorista citado em setembro do ano passado, a Uber afirma que “tudo indica” que o caso não foi em uma corrida. No entanto, o boletim de ocorrência diz o contrário.

A SSP (Secretaria da Segurança Pública), gestão João Doria (PSDB), afirma investigar os casos mencionados contra motoristas. 

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