Ministério Público vai investigar mortes em baile em Paraisópolis como homicídios

Nove jovens morreram após intervenção da PM em pancadão em Paraisópolis, na capital paulista

São Paulo

O Ministério Público de São Paulo está investigando como homicídio as nove mortes ocorridas no domingo (1º) em um baile funk na favela de Paraisópolis, na zona sul da capital.

Os nove jovens, com idades entre 14 e 23 anos, teriam morrido pisoteados após uma intervenção da Polícia Militar no local. Familiares das vítimas e participantes do baile, no entanto, contestam essa versão.

"Designei a promotora do júri para fazer a apuração a respeito dos homicídios que ocorreram em Paraisópolis", disse nesta terça (3) o procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio. "Ela vai acompanhar as investigações."

Enterro de Denys Henrique Quirino da Silva,16, uma das nove pessoas mortas após confusão em baile funk em Paraisópolis - Danilo Verpa - 2.dez.19/Folhapress

Em depoimento, seis policiais militares, que foram afastados dos serviços de rua, disseram que perseguiam dois suspeitos em uma motocicleta.

Segundo eles, a pessoa na garupa teria atirado contra os PMs e provocado pânico —o baile reunia cerca de 5.000 pessoas. Frequentadores, porém, negam os tiros e disseram que foram encurralados.

O procurador evitou apontar excessos da PM na ação. "Ninguém gosta de nove mortes; agora, a forma de lidar com isso é fazer uma apuração dos fatos", afirmou.

A apuração, que deve durar 30 dias, será conduzida pela promotora Soraia Bicudo Simões, do 1º Tribunal do Júri.

Smanio afirmou que ocorrerá uma mediação com a participação de comunidades e representantes do poder público, mas não detalhou a ação.

O procurador evitou falar do protocolo de atuação da PM. "Vamos avaliar para que a violência não tenha escalada."

Reportagem da Folha publicada nesta terça mostrou que há divergências nos depoimentos de policiais que participaram da operação.

A polícia afirma que a tragédia ocorreu quando criminosos entraram com uma moto na aglomeração do baile e fizeram disparos contra os policiais. Isso teria provocado pânico no público, correria e empurra-empurra —e então as quedas e o pisoteamento.

Mas parte dos depoimentos de policiais aponta que, após os frequentadores do baile funk atirarem objetos contra policiais de moto, estes teriam conseguido deixar a favela sem maior confronto.

Só depois, segundo esses depoimentos, os agentes teriam voltado ao local e usado cassetete e munição química para dispersar a multidão.

Relatos de moradores indicam que os policiais fecharam ambos os lados da rua Ernest Renan, onde ocorria o baile. Ao disparar munição não letal e dar golpes de cassetete, teriam induzido a multidão a ir para duas vielas estreitas. Em uma delas, segundo esses relatos, houve o pisoteamento.

Os moradores afirmam não ter visto nenhuma perseguição. Segundo a polícia, os suspeitos não foram presos nem tiveram a moto apreendida —munições suspeitas, porém, foram recolhidas.

Outros pontos do incidente também não estão claros. Os principais deles são como os nove jovens morreram, se pisoteados ou por alguma outra causa —o que só será esclarecido por laudos dos legistas— e por que o baile continuou por ao menos cinco horas após as mortes.​

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