Descrição de chapéu Zona Oeste

Paciente precisa madrugar para ser atendido em UBS da zona oeste de SP

Fila por consultas e exames na UBS Paulo 6º, na região do Butantã, começa por volta das 4h

Mariangela de Castro Rivaldo Gomes
São Paulo

Pacientes da UBS (Unidade Básica de Saúde) Paulo 6º, na região do Butantã (zona oeste), têm chegado por volta das 4h para conseguir passar pelo médico ou para realizar exames de rotina, como coleta de sangue e urina. 

Às 6h desta segunda-feira (16), por exemplo, cerca de cem pessoas aguardavam a abertura da unidade, às 7h, em uma fila.

O eletricista Antônio Andrade, 55 anos, afirma que são atribuídas cores aos pacientes, de acordo com o local onde moram na região, para dividir os dias de atendimento --ele faz parte do grupo rosa e, portanto, só consegue vaga para consultas e exames às segundas e às quintas-feiras.

Na manhã desta segunda, Andrade chegou às 5h na UBS para tentar uma vaga na coleta de sangue.
Como o resultado deve sair em 30 dias, em um mês ele diz que terá de madrugar de novo para conseguir consulta com o médico. 

Pacientes à espera da abertura da UBS Paulo 6º (zona oeste), por volta das 6h desta segunda-feira (16); com sorte, é possível conseguir uma das vagas deixadas para o dia, isso se o médico não faltar - Rivaldo Gomes/Folhapress

"Na fila de espera por consultas nunca o chamam, então o melhor é tentar a vaga do dia mesmo", afirma, sobre encaixes que são realizados diariamente.

Uma funcionária do posto de saúde disse à reportagem, por telefone, que há duas formas de marcar consultas ou exames na UBS: chegar cedo para tentar as vagas que sobram para o dia (cerca de seis ou sete, segundo ela) ou marcar pelo aplicativo Agenda Fácil da prefeitura.

Apesar de a segunda opção parecer mais prática, pacientes que estavam na fila nesta segunda disseram que não tinham conheciam do aplicativo ou não conseguiram se adaptar a ele. 

A aposentada Darlides Lopes Vieira, 59, por exemplo, era a terceira na fila. Ela afirma ter chegado na UBS às 4h para tentar ser atendida por um clínico geral ou por um ortopedista, pois estava com dores nas articulações e nos dedos da mão. Porém, quando a unidade abriu, Darlides afirmou ter sido informada que o médico ortopedista havia faltado e que ela teria de retornar na próxima semana. "É uma situação de descaso muito grande", diz.

Com filho doente, mãe tenta a sorte

A especialista em logística Orestes Pereira Souza, 33 anos, vai à UBS Paulo 6º desde o nascimento do filho Isac, 2. A mãe afirma que quando o menino era mais novo, ela conseguia marcar consultas com o pediatra no próprio posto de saúde, o que não ocorre mais.

Por isso, ela afirma que passou cedo para tentar uma das vagas que sobraram para o dia.

Nesta segunda-feira (16), Orestes e Isac, que estava com a garganta inflamada e com tosse, esperaram do lado de fora da UBS desde as 6h30. Quando a unidade abriu, porém, a mãe descobriu que não havia vaga.

Mas como o menino estava doente, ela conseguiu levá-lo à AMA (Assistência Médica Ambulatorial), ao lado. 

"Eu não gosto de passar com o pediatra da AMA porque ele não acompanha o Isac, mas como a gente não conseguiu vaga no dia, não tinha o que fazer", afirma.

Orestes Pereira Souza com o filho Isac no colo; garoto foi atendido na AMA ao lado de posto de saúde - Rivaldo Gomes/Folhapress

A mãe diz que quando o remédio receitado ou o tratamento indicado na AMA não é suficiente, ela procura outro posto de saúde ou pronto-socorro. 

"A minha área [para distribuição de pacientes] é a branca, então só consigo tentar a pediatria na quarta-feira. Tem dia que da certo e tem dia que não dá quando venho antes", afirma a mãe, que arriscou nesta segunda porque o filho estava doente.

Para especialista, postos de saúde deveriam abrir mais cedo

Para o professor Mario Pascarelli Filho, coordenador do curso de gerente de cidade da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), os atendimentos nas unidades básicas de saúde deveriam começar mais cedo, por volta das 6h, para que a população pudesse ter mais conforto e enfrentasse menos fila.

Para ele ser obrigado a esperar na fila desde as 4h e ainda correr o risco de não ser atendido é uma "total desconsideração".

"Falta humanização e profissionalização da área da saúde. É uma situação lamentável para esses pacientes", afirma.

O professor diz que a melhor maneira de os sistemas públicos de saúde controlarem as vagas para realização de exames e consultas é ligando para os pacientes e informando a respeito da disponibilidade de cada médico. 

"Apesar de quase todo mundo ter um celular, grande parte da população ainda encontra muita dificuldade com aplicativos. Ligar no dia anterior ou na semana anterior ainda é a melhor solução", afirma.

Resposta

A Secretaria Municipal da Saúde, da gestão Bruno Covas (PSDB), diz que a UBS Paulo 6º tem o programa Saúde da Família e cada equipe, "segundo as diretrizes da pasta, deve ser responsável por, no máximo, 4.000 pessoas de uma determinada área, que passam a ter corresponsabilidade no cuidado com a saúde".

"A região foi separada em ruas pelo número de pessoas, e as equipes responsáveis por cada uma delas foram identificadas por cores", afirma.

Diariamente, diz, são disponibilizadas vagas para o usuário resolver sua demanda no mesmo dia. "Já as de retorno ou agendadas ficam para as prioridades de linhas de cuidado, que são as crianças menores de um ano, gestantes, exames alterados e idosos", diz. "Além disso há marcação presencial para idosos."

A nota afirma que são disponibilizadas vagas de retorno pelo aplicativo Agenda Fácil e que 10% delas são ofertadas semanalmente.

"As agendas de 2020 estão sendo reformuladas para maior oferta de vagas", diz. "As coletas de exame são ofertadas às 7h, em regime de livre demanda, e em média são colhidos de 80 a 100 exames dia." 

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